Episódios do Junhão: ‘DESCOBRI A MINA!!!’

Até que enfim o filho dá uma boa notícia à mãe que a deixa radiante de felicidade. Embora ela tenha dúvidas sobre a veracidade dos negócios que ele deseja implementar, resolve apoiá-lo no seu intento. Mas, o tempo dirá o que vai ocorrer e tudo poderá se reverter em confusões. Ou será que o projeto dele será bem-sucedido?   

JUNHÃO

Vinte anos. Acorda cedo e vai para o banheiro. Ao contrário de outros dias, quando se levanta mal-humorado, está muito afável com a mãe. Ao passar por ela na cozinha dá um sonoro e sorridente bom dia deixando-a intrigada com tamanha gentileza. Depois do banho vai para o quarto e, após algum tempo, volta para tomar o café matinal. Está vestido com uma calça jeans surrada, tênis branco e uma camisa de seda, mangas compridas, com listras da cor salmão. A barba está crescida e os cabelos desalinhados. Senta-se à mesa para o desjejum com frutas, sucos, ovos caipiras fritos na manteiga, presunto, queijo e pão francês. Após o lauto café da manhã, levanta-se apressado para sair.

MÃE

Quarenta anos. Admirada com a disposição do filho, pergunta com deboche:

– O que houve, deu “formiga na cama”?!… Acordou “de madrugada” por quê?! Que novidade é essa?… Você surtou?! Por que está arrumado e cheiroso às oito horas da matina?

Está curiosa com a mudança repentina do filho e inquire:

                – Então…, observando sob a minha óptica, quer dizer que finalmente o senhor resolveu arranjar um emprego? Quanto vai ganhar de salário? Qual vai ser o cargo?

JUNHÃO

Ao ouvir a mãe falar, ele para. Contém o ímpeto de responder com grosseria, mas fala com firmeza:

– Você está louca?!… Deus que me livre e guarde da má hora de ser empregado para viver de salário minguado.

A seguir, fica zangado e reclama:

– Além de ser muito curiosa, você fica me enchendo o saco com tantas perguntas e o pior é que me joga praga desejando o meu mal.

Ainda irritado, exclama:

 – É cada uma!… Só vive querendo que eu arranje um trabalho; até parece que eu não tenho pai para me sustentar.

Antes que a mãe lhe diga alguma coisa, completa:

– Eu ia te fazer uma surpresa. Não falei antes pra não dar azar, mas, vamos lá!… Já que fui forçado, vou abrir o jogo: agora sou empresário porque vou fundar uma ONG e vou ganhar dinheiro a rodo.

A seguir recomenda zangado:

                – Não fale com ninguém, porque esse é um segredo nosso.

MÃE

Olha para o filho com os olhos arregalados de admiração por ele ser tão inteligente. Nesse momento fica imaginando que finalmente o seu Juninho entrou nos eixos. Mas, apesar da maravilha que ouviu, ainda tem as suas dúvidas. Incontinênti, pergunta com desconfiança:

– Primeiro eu quero saber que diacho é ONG? Espero que não seja mais outra tramóia sua pra me levar na lábia e arrancar o meu dinheiro.

Mas, como é ambiciosa, logo os olhos brilham de satisfação e pergunta:

                – Quando você estiver ganhando rios de dinheiro espero que não esqueça da sua mãezinha querida e “mim” favoreça com a sua grana, ouviu?

JUNHÃO

Fica impaciente com tamanha ignorância e desconfiança da mãe, mas se controla. A seguir relata a sua brilhante ideia que irá lhe render muitos frutos financeiros. Assumindo ares de um grande financista, expõe o seu projeto:

– Observando as necessidades da preservação ambiental, vou registrar no governo uma Organização Não-Governamental. Estou indo agora na repartição pública para manter os primeiros contatos e saber qual é a documentação necessária para que eu possa ascender profissionalmente.

Depois conclui a informação:                                                                                                                                  

– Depois que apresentar o meu projeto, com certeza, eles vão abrir as torneiras da dinheirama para que eu inicie o meu empreendimento.

MÃE

Está angustiada para saber qual foi o milagre que operou na vida de seu querido filho. Pergunta:

– Sim!… E daí? Você enrola, enrola, e não diz qual é o serviço dessa tal de ONG. E quem disse que é fácil a liberação de tanto dinheiro? Espero que você não esteja se metendo no meio de bandidos…

Temerosa com o seu futuro devido às maracutaias do filho, comenta:

– Deus que me livre de ver “os puliças” arrombando a minha porta para lhe prender! E se lembre bem do que estou lhe dizendo: “quem com porcos anda, farelos come!”

JUNHÃO

Após o diálogo sai apressado de casa muito esperançoso de que tudo dará certo para ele.

CEIÇA

Continua a sua lida diária e, vez por outra, para o serviço e suspira fundo sonhando com a iminente mudança de vida para melhor que será proporcionada pelo filhinho querido.

Enquanto isso, comenta:

– Se Deus quiser, tudo será favorável para o Juninho. Estou doida para contratar serviçais pra “mim” livrar dos serviços domésticos. Também vou pedir ao Júnior pra comprar uma mansão na beira da praia para eu poder fazer caminhadas pela manhã.

JUNHÃO   

Regressa do compromisso depois das quatorze horas. Ao ver a mãe ansiosa, abre um largo sorriso e diz com empolgação:

                – Calma, mainha!… Deu tudo certo! O seu filho é um sucesso total!

CEIÇA

                – Graças a Deus!… Orei tanto para que tudo desse certo que fiquei zonza.

Logo a seguir faz uma pergunta inconveniente:

                – Júnior, o pessoal do governo já lhe deu o dinheirão para começar o negócio?

JUNHÃO

Inspira fundo, mas não consegue esconder que está ficando irado com a averiguação da mãe. Então resolve explicar tudo direitinho para que ela não fique com dúvidas acerca da sua nova atividade. Prontamente responde:

– Como eu estava dizendo, fiquei sabendo que o governo está despejando muita grana para essas organizações, então fui lá para saber em qual ramo eu poderia ser enquadrado.

Então começa com as queixas para comover a mãe:

                – A burocracia do governo é fogo, não tem quem aguente. Os funcionários olham pra gente com indiferença, parecendo que estão fazendo favor. Depois de muito pelejar a manhã inteira percorrendo os balcões da repartição, consegui falar com o chefão de lá de nome Ógui, um sujeito troncudo e mal encarado. E o dito-cujo só me recebeu em audiência porque o meu amigo Grégor, que é colega da filha dele, telefonou pedindo por mim.

CEIÇA

Angustiada com o resultado, diz com a voz triste aparentando desilusão:

                – Mas você chegou alegre dizendo que tinha dado tudo certo…

JUNHÃO

Fica impaciente e responde:

                – E quem lhe disse que não consegui? Agora deixa eu terminar de contar o sucedido.

E continua explanando a tentativa para fundar a sua organização:

                – Pensei que depois do telefonema de Grégor tudo iria ser mais fácil pra mim. Porém, o sujeitão Ógui fez pouco caso e mandou que eu verificasse uma lista enorme. Apenas informou que eu só poderia registrar uma organização se não estivesse cadastrada dentre aqueles milhares de nomes.

Continuando a relatar a sua luta a fim de convencer a mãe, diz:

  – Infelizmente já tinha ONG pra quase tudo. Liberaram dinheiro para proteção de mata, de gato, cachorro, manguezal e também para aberrações do tipo: para proteger passarinho perneta, saci pererê, caipora, mula sem cabeça, etc.

CEIÇA

Tristonha com o que ouve, fala com amargura:

                – Pelo menos você tentou meu filho…, mas Deus vai lhe mostrar outro caminho para a sua vida que será glorioso. O sangue de Cristo tem poder!

Mantendo o firme propósito de ajudar o filho, diz para consolá-lo:

                – Não se preocupe Júnior! Farei “de um tudo” para lhe ajudar no que for preciso. – A coitada faz uma promessa que poderá lhe custar muito caro no futuro.

JUNHÃO

Volta a ficar empolgado e fala com entusiasmo:

                – E quem lhe disse que o meu projeto de vida deu errado?!… Agora vou começar a trabalhar firme para que tudo dê certo e eu receba os milhões.

Voluntarioso conta empolgado como vai conseguir fazer para que tudo dê certo:

                – Devido ao enorme número de entidades registradas, decidi fundar uma ONG de proteção aos urubus carentes. De agora em diante essas pobres aves serão vacinadas contra doenças aviárias, usarão anilhas de alumínio para identificação e não mais irão comer lixo ou carniça; só filé mignon!…

MÃE

Ao ouvir esse absurdo, arregala os olhos e indaga:

– Proteger de quê, miséra?!!!… Você ficou doido de vez?!… Onde já se viu urubu ficar doente?

A seguir, muito revoltada, comenta com amargura:

– O filhinho que eu crio com zelo e muito carinho desde pequeno, resolve de repente ir para os lixões da cidade tanger urubus para que não comam carniças… É por isso que eu digo que você é um cabeça de bagre!

JUNHÃO

Chateado com a queixa da mãe, diz com raiva:

– Já vi que você não entende nada de política governamental! Também pudera…, não assiste a um noticiário sequer para ficar inteirada dos fatos.

Supondo que poderá perder o apoio da mãe por causa da sua escolha, começa a se fazer de vítima simulando choramingar para que ela se compadeça:

                – Você não me dá apoio em nada… É por isso que nada pra mim dá certo. A sua vida é viver reclamando de tudo que faço. Não sei mais o que fazer…

E conclui:

                – Você é uma péssima mãe!

MÃE

Está a ponto de explodir de raiva. Começa a soltar fumaça pelas ventas e responde:

– Como é que uma criatura em sã consciência, tendo um excelente lar e a melhor criação do mundo, ao invés de arranjar um trabalho num escritório com ar condicionado, quer ir viver nos lixões. Só mesmo um “pra nada” igual a você pra arranjar um serviço desse.

JUNHÃO

Está inconformado porque a mãe não consegue entender a sua aspiração de vida. Então resolve amenizar a conversa dando uma explicação mais inteligível:

– O que ocorre é que vou ser gestor de um grande projeto. Como chefe, não vai haver necessidade de ir pra nenhum lixão.

MÃE

Faz muxoxo com o beiço indicando desdém, balança os ombros e aguarda uma explicação mais convincente. Fica refletindo com o olhar fixo nele, enquanto coça a cabeça com a ponta do dedo indicador por entre os bóbis. Depois alisa o queixo devagar, ainda analisando a situação. Após alguns instantes o seu semblante torna-se ameno demonstrando que está prestes a cair na lábia do filho. Depois fala quase implorando:

– Mas não tinha outro bicho menos sujo, menos carniceiro pra você cuidar?

JUNHÃO

Fica impaciente com a exigência da mãe e diz:

– Poxa, você é difícil de entender as coisas. O nome disso é deficiência intelectual. Mas, apesar dos pesares, eu dei muita sorte com a minha escolha. Afinal o urubu é o símbolo do meu time: o “Mengão”!

MÃE

Ao ouvir isso resolver contestar:

– Seu mal é não ter noção de nada; só mesmo um cabeça de vento para querer misturar o trabalho com esporte. Já estou até imaginando que nos dias de jogos do campeonato de futebol a sala do apartamento vai ficar “intupida” de urubu badernando tudo aqui.

A seguir torce o nariz e exclama:

                – Eca…, que nojo!…

JUNHÃO

Sorri com a observação da mãe e esclarece:

– Não vai ter nada disso, porque não sou doido de entupir o apartamento onde moro com urubus.

Mas, como ele é inconsequente, diz sorridente:

– O máximo que pode acontecer é eu pegar um filhote bem novinho para criar. Depois ensino ele a falar: “raça mengão!”

MÃE

Esbugalha os olhos assombrada com o que ouve e pergunta:

– Oxente!… Onde já se viu urubu falar, sujeito?! Então é melhor você fundar uma ONG de papagaios.

A seguir se gaba orgulhosa da sua inteligência:

– E depois um indivíduo desse tipo fica me chamando de burra, por jeito.

JUNHÃO

Fica meio sem graça e justifica:

– Mas ele sendo novinho e assistindo a um jogo do mengão vai ficar entusiasmado e aí ele vai falar com certeza!

A seguir pede com a voz miúda, quase sumida:

– Mainha…, para que a minha ONG dê certo eu preciso muito da sua ajuda. No final do mês vai ter assembleia geral para eleição do novo síndico do prédio. Eu quero que você se candidate e seja eleita.

Apesar da falsa humildade, faz uma exigência impositiva:

– Mas, para que ocorra uma candidatura bem sucedida, é necessário que fique bonita e tire esses bóbis ridículos para conseguir ser eleita, além de fazer uma campanha com muitas promessas para que os eleitores imaginem que você é a única salvação para eles.

MÃE

Ao ouvir o insulto, reage:

– Nada disso, mocinho! Todos vão ver pelas minhas feições que sou uma mulher trabalhadeira, dona de casa, honrada e talhada para o cargo.

E aproveita para lançar uma farpa sobre a inércia do filho:

– Pior seria se eu fosse igual a você. Não teria um voto sequer, bastava os eleitores me verem levando um colchonete para me deitar no chão aguardando o resultado da votação.

Após a eleição do condomínio

A vitoriosa Ceiça é empossada e assume o cargo com a pose de quem será uma excelente administradora prometendo melhorias para o edifício. Porém, para conseguir ser eleita, durante a campanha eleitoral, proibiu o filho de ficar circulando por áreas comuns do prédio para evitar desgastes da sua imagem perante os eleitores.

Um mês depois de muito trabalho e fiscalização para manter o condomínio bem arrumado, chega o dia em que os condôminos começam a efetuar os pagamentos das taxas pertinentes ao cumprimento das despesas do prédio.

Mas, o previsível acontece: o esperto Junhão ao perceber que Ceiça está tendo dificuldades para realizar a contabilidade, assume a função administrativa e fecha as contas de caixa. Após terminar o trabalho os seus olhos brilham ao ver o montante da dinheirama movimentada pelo condomínio. Sem conseguir enxergar a ganância do filho, Ceiça está orgulhosa com a competência do filho em lidar com tantos números.

JUNHÃO

Mostrando-se despretensioso, apesar da usura, fala manso com a mãe de modo a convencê-la:

                – Mainha!… Preciso dessa grana emprestada para poder implantar a minha ONG. Só depois que estiver funcionando é que o pessoal do governo vai liberar os milhões da verba. E tem que ser urgente, porque senão eu perco a vaga.

CEIÇA

Para e põe-se a pensar por instantes. Depois pergunta com ingenuidade:

                – E como eu vou conseguir pagar as despesas do edifício? Não quero que “mim” acusem de estar dando desfalque nas contas do condomínio. E ainda mais que tem pouco tempo que assumi esse importante cargo.

No intuito de ajudar o filho, apesar de temer infligir o estatuto do condomínio, implora por garantias do empréstimo:

                – Você garante devolver o dinheiro em pouco tempo? Olhe lá!… Cuidado com a minha reputação…

JUNHÃO

Agoniado em botar a mão no dinheiro, apesar de desesperado, mantém a calma e fala de modo calmo para induzi-la a liberar o dinheiro:

                – Qual nada!… Jamais alguém vai suspeitar que uma senhora dona de casa, respeitada, vá cometer alguma fraude.

E para endossar o seu pedido diz:

                – Contas vencidas com um mês não é atraso; além do mais irei devolver o dinheiro em poucos dias, porque logo que o meu projeto seja aprovado o governo libera a grana.

Convincente, afirma demonstrando firmeza:

                – Vá por mim que vai dar tudo certo.

CEIÇA

Embora esteja reticente em relação ao assunto, aceita emprestar o dinheiro do condomínio ao filho. Apesar disso, fala demonstrando receio:

                – “Tá” bom, meu filho, vou entregar o dinheiro a você. Mas veja bem: exija desse pessoal “onguista” para pagar a você com a maior brevidade possível. Afinal de contas, o dinheiro não é meu e jamais vou querer ser chamada de ladrona pela vizinhança.

Após dar o dinheiro a ele, está duvidosa sobre o empréstimo e comenta para si:

                – Não sei por quê, mas estou com um mau pressentimento terrível, que só Deus sabe…

Depois fica pensativa:

                “Será que fiz certo?”

JUNHÃO

 Com a grana do empréstimo na mão, sai de casa sorridente e vai fazer farra. A sua noitada vai ser farta porque os bolsos estão cheios de dinheiro. Quando o dia amanhece, ao invés de ir para casa dormir, percorre vários açougues pedindo sebos e pelancas descartados das carnes nobres. Com referência à alimentação dos urubus, sequer comprou um quilo do prometido filé mignon.

Depois de percorrer andando por muitas ruas, consegue encher um saco enorme com restos de carne e vai para casa satisfeito. Ao chegar, sentindo-se uma autoridade por ser o filho da síndica, sobe para o teto do prédio e distribui as pelancas a torto e a direito sobre o telhado. O que sobra é atirado em cima da cobertura das garagens. Ao findar o exaustivo trabalho, senta-se tranquilo no playground e fica olhando para o céu aguardando a chegada dos seus convidados. Sorri imaginando a muvuca que os urubus vão fazer ao encontrarem tanta carne disponível sem a necessidade de rasgarem sacos plásticos de lixo.

Mas, no seu projeto, nem tudo são flores, e problemas técnicos tornam a vida no local insuportável. Com o passar dos dias, bandos e mais bandos das aves carniceiras ocupam o prédio onde Ceiça é síndica e também nos edifícios vizinhos. A rua defronte está intransitável devido à infestação de urubus brigando por pedaços de pelanca e isso atrapalha o trânsito. Agentes da Prefeitura passam o dia tangendo urubus na rua e a Vigilância Sanitária autua o condomínio de Ceiça cobrando uma enorme multa. O Ministério Público vai processar a síndica por promover desordem social e por sujeira ambiental.   

Indiferente ao caos provocado por ele, Junhão se deleita vendo o revoar, pousar e as brigas entre os urubus. Apenas sorri registrando tudo com uma máquina fotográfica sem se incomodar com os dissabores sofridos por Ceiça devido à revolta da vizinhança.

Vez por outra ele ouve alguém gritar de algum apartamento:

                – Misericórdia, que mulher imunda!

                – Fora do nosso meio, sua porca!

                – Saia daqui e vá morar no aterro sanitário!

                – Volte para o esgoto de onde veio, sua suja!

Indiferente aos brados, ele continua absorto observando o seu criatório. De repente ele ouve um berro que estronda por todo o quarteirão:

– Júniooorrr!!!… Venha cá, ligeiro, miséra!!!

Olha para cima e vê mãe na janela do apartamento. É tanta labareda em volta dela que ele pensa que o imóvel está em chamas. Corre imediatamente para socorrê-la.

MÃE

Está fumaçando por todos os poros. Ao vê-lo, explode toda a sua raiva:

– Você é um “urubuzento”! Um vagabundo! Um oportunista!

Ainda espumando de ódio, queixa-se:

                – Você conseguiu “mim” desmoralizar, vagabundo! Não posso nem circular aqui no prédio, porque quando alguém se encontra comigo tapa o nariz e foge reclamando da minha fedentina.

Chorosa, lamenta:

                – Nem na rua eu posso sair pra não ser linchada pelos vizinhos dos outros edifícios. Você não se compadece de mim, seu miserável?!

Angustiada, reclama:

                – Por causa dessa sua tal de ONG estão “mim” ofendendo dizendo que sou fedorenta, justamente eu, que tomo cinco banhos por dia…

JUNHÃO

Finge não entender a reação dela e fala:

– “Peraí, coroa”!… Que estresse é esse?!… Você fique tranquila porque o meu projeto está dando certo!

MÃE

Está enlouquecida de raiva e esbraveja:

– “Peraí” uma zorra!!!  Está dando certo pra você; mas pra mim está dando tudo errado. Isso é certo o que está fazendo comigo?!…

A seguir continua com o esporro:

– Tudo que faz é premeditado para o seu benefício! Você é muito malicioso! O seu papo-furado sempre é pra “mim” enganar e mim botar em bronca!

De repente ela se exaspera e detona:

– Olha aí o resultado! Toda vez que eu caí na sua lábia “mim” dei mal! Depois do seu projeto maldito eu não consigo ter paz. O diabo do zap não para de mandar mensagens e áudios. Todos os moradores daqui do prédio e até dos edifícios vizinhos não “mim” deixam ter sossego.

Depois diz enraivada:

– A vizinhança está telefonando de madrugada pra “mim” esculhambar com palavras de baixo calão e mandam que eu vá tanger os urubus da região, só porque você “mim” induziu para ser a síndica desse pardieiro!

Totalmente descontrolada, ela conclui gritando:

– A vizinhança diz que esses pestilentos estão cagando em tudo que é canto: jardins, automóveis, parquinho infantil, varandas… O que eu vou fazer, meu Deus?!

JUNHÃO

Está calmo e fala:

– Rapaz…, você gosta de viver criando confusão. Devido a esse bafafá eu vou ter que sair para resolver uns problemas que surgiram. Você aproveita a minha ausência e sobe no telhado do prédio para alimentar as pobres aves com o resto das pelancas que estão no freezer.

MÃE

Não acreditando no que o filho disse, fica ruborizada com o corpo todo empolado. De imediato os olhos esbugalham e a cabeça começa a fumaçar. Está indignada com a falta de bom senso dele em manda-la subir no teto do prédio para alimentar os urubus. Esse fato agravou ainda mais a sua raiva e vocifera, quase gritando:

                – Cadê os milhões que você disse que ia receber com o seu projeto fajuto?

Angustiada com a possível perda financeira, faz a cobrança de modo enérgico:

                – Antes de sair devolva o dinheiro que afanei do condomínio para emprestar a você!   

JUNHÃO

Já ia saindo, mas para na porta e vira-se para responde-la:

                – Eu não lhe disse o resultado da minha petição? Acho que esqueci… Infelizmente o meu projeto foi indeferido. O jeito vai ser você segurar a barra, porque já estourei toda a grana comprando a alimentação dos urubus.    

A seguir sai rápido do apartamento batendo a porta atrás de si. Para não ser seguido ouvindo reclamações, desce rápido pela escadaria de incêndio. Para ele pouco importa os perrengues pelos quais a mãe está passando. Contudo à noite estará na farra gastando o dinheiro emprestado do condomínio. A noitada para ele será só de alegrias.

Na manhã seguinte irá passar uns tempos hospedado na casa da namorada Marlene no Nordeste de Amaralina. Certamente irá voltar ao convívio com Ceiça quando a situação se acalmar e o dinheiro do “empréstimo” acabar. Ele sabe que após a mãe se desvencilhar dos inúmeros problemas que ele arranjou, ela ficará calma e tudo voltará a “ser como dantes no quartel de Abrantes”.  

CEIÇA

Sozinha e confinada em casa, está sem saber como se sair da enrascada que o filho lhe colocou. Apenas chora e lamenta:

                – Oh, meu Deus!… O que será de minha vida de agora em diante?

E começa a expor o seu sofrimento:

                – Não posso nem dar parte dos vizinhos que estão “mim” ameaçando, porque vou ter que dizer aos “puliças” que o Júnior é o culpado por todo esse malefício.

Nesse período de reclusão involuntária ela aproveita o tempo para simular como andar apressada sendo conduzida algemada, curvada e com a cabeça pendente, encoberta por uma toalha para não ser reconhecida. Ela julga que o treinamento será necessário para quando for presa pela polícia. Depois conclui amargurada:

                – O jeito vai ser eu assumir tudo sozinha para não ver o meu filhinho sendo preso…

Autor: Joswilton Lima     

        

Joswilton Lima é natural de Ilhéus-Ba, mas é domiciliado há mais de vinte anos em Morro do Chapéu. Tem formação em Ciências Econômicas, mas sempre foi voltado para as artes desde a infância quando começou a pintar as primeiras telas e a fazer os seus primeiros escritos. Como artista plástico participou de salões onde foi premiado com medalhas de ouro e também de inúmeras exposições coletivas nos estados da Bahia, Sergipe e Pernambuco. Possui obras que fazem parte do acervo de colecionadores particulares e entidades tanto no Brasil, quanto em países do exterior, a exemplo dos E.U.A, Portugal, Espanha, França, Itália e Alemanha. Possui o site www.joswiltonlima.com onde tem uma mostra de algumas de suas pinturas em diferentes técnicas e estilos, sendo visualizado por inúmeros países.

Em determinada época lecionou pintura em seu atelier no bairro de Santo Antonio Além do Carmo, em Salvador, e foi membro de comissões julgadoras em concursos de pintura. Nesse período exerceu a função de Diretor na Associação dos Artistas Populares do Centro Histórico do Pelourinho (primitivistas e naif’s), em Salvador.

Como escritor também foi premiado em diversos concursos de contos tendo lançado um e-book com o título “Enigmas da Escuridão”, com abordagem espiritualista, tendo obtido a nota máxima de 5 estrelas de leitores do site www.amazon.com.br Outros contos e romances estão sendo escritos.

Concomitante às atividades artísticas sempre exerceu funções laboriosas em diversos setores produtivos, tendo se aposentado recentemente na Secretaria da Fazenda do Estado da Bahia, onde trabalhou por muitos anos na Fiscalização.

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