Caros Karoá escreve: ‘TÔ MORRENDO DE SAUDADES ‘

“Do que me serve o amanhã, se ontem perdi os teus carinhos e hoje, indubitavelmente estarei morto”.

Parece um começo ou um final de um dramalhão mexicano, cujo sentido filosófico não diz coisa com coisa, apenas inspira alguns segundos de tola contemplação.

A sentença de que os sentimentos estão arraigados na carne e nos ossos, é absolutamente verdadeira, um montão deles nos empurra para as nossas mais sérias ou precipitadas decisões e olha que são tantas a nos circundar, que é preciso um pouco de prumo, pro rumo não se perder.

O amor, pelo seu absolutismo, nas suas opiniões é quase sempre imutável, pode advir sofrimento mas segue sereno nas suas determinações. A amizade, pela natureza delicada, é estável, porém não admite traições. Há, entretanto, há uma outra comoção humana, que nos abraça desde a mais tenra puerilidade: É a danada da saudade. Quando ela nos chega trazendo as lembranças de alguém, de algum lugar ou de qualquer uma outra coisa, o desassossego é perenizado enquanto o imbróglio não estiver em pratos limpados, o sono não vem mesmo em limpos travesseiros ou em colchas do mais alvo cetim.

Há uma máxima popularizada, de que o tempo se encarrega de colocar ordem e equilíbrio nas lamentações. Alguém escreveu esta verdade no livro da vida, porém não fez alusões de quanto isto pode durar, a previsão é aleatória, sem prazo de validade, dependendo naturalmente do nível da vicissitude acontecida.

Se alguém nos deixa por ” causa mortis”, o grau do parentesco vai determinar o tempo de saudades a nos acompanhar, mas se alguém nos escapa de um coração ungido em desilusões, a danada da saudade tem parentesco com o suplício inacabado e a agonia parece não ter fim.

É na infância e na adolescência, onde mais tempo ela nos espera pra sorrir, chorar ou viajar em sonhos impossíveis. É nesse tempo onde nos julgamos invencíveis, que ela nos chega e mostra o quanto somos pequeninos, quando por inteiro, a danada da saudade, vem dormitar em nosso travesseiro.

Ainda adolescente, fiquei longe das terras baianas e esta ausência aventureira, durou pouco mais de um ano. Não estivesse eu, cheio de saudades dos amigos, dos lugares, dos amores, um ano passaria despercebido, mas, com a agonia cutucando o meu travesseiro, nada me servia, não estivesse eu novamente, pisando o solo da Bahia. A vilã das amizades ausentes, é a saudade.

 

A vilã dos lugares queridos, é a saudade

A vilã dos amores perdidos, não tem jeito, é a saudade.

Nestes dias de agora, de Copa do Mundo,

O hino tocado do país nativo, mostra o semblante doído de quem um dia foi embora. Distantes nesta hora, as lágrimas copiosas são absolutamente sinceras.

Estou aprendendo a não sentir saudades, quando a sinto, sorrateira, querendo se aboletar no colo, dou um jeito de manda-la embora, faz tempo que pra esta danada, eu não dou bola.

Carlos Karoá, amante de música e cinema, também tem paixão pelo universo das letras. Em 1970, deixou Morro do Chapéu com destino a Salvador, como fazia todo jovem interiorano daquela época. Hoje aposentado, retorna à nossa cidade em busca de uma vida mais tranquila. Gosta de escrever crônicas e pequenos contos, sejam eles verdadeiros ou não.

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