Carlos Karoá escreve: ‘TALISMÃ’

Mazon Bueno, jovem adolescente de Andaluz, cidadezinha do noroeste da Bahia, cursava “Botânica” via “ON LINE”, numa prestigiada universidade paulistana. Talvez por isto, ter conhecimento e tempo, cuidava dos jardins da cidade, sendo um contratado da Prefeitura local. Numa manhã de primavera, deu de cara com uma “Oxalis Tetraphylla” com o centro das folhas pintado de vermelho. Ficou feliz demais, era um trevo de quatro folhas, amuleto que trazia sorte e fortuna segundo quimeras celtas, datadas de 200 anos antes de Cristo.

Conhecedor da lenda, doces ilusões lhes trouxeram naquela hora, lampejos de felicidades oportunas, em seus belos olhos verdes.

No meio da tarde, o Prefeito, em vigília diurna, na sua ronda costumeira pelas ruas da cidade, parou junto dele para cumprimentá-lo e fez um elogio ao seu trabalho. Brincou dizendo: Mazon, você está indo bem no seu ofício, as ruas e jardins de Andaluz estão bem mais bonitas, tá merecendo aumento de salário. Mazon sorriu envaidecido, naquela noite falou com os pais do ocorrido e foi dormir feliz, igual cachorrinho de barriga cheia.

Mazon era bonito, simpático, educado e praticante de esportes. Jogava futebol de salão com mais um monte de garotos do colégio da cidade. Namoradas para “calientes” momentos, não lhes faltava.

No treino noturno da quarta-feira, foi avisado pelo chefe da equipe, que fora convocado para compor o time principal do Grêmio Estudantil e que no próximo sábado à noite, viajariam para a cidade vizinha, numa participação de um torneio seletivo estadual, na busca aguerrida de uma vaga.  Seria uma vitrine reluzente, o nome da sua terra no campeonato promovido pelo estado. Durante todo o domingo, haveria jogos com concorrentes de toda a região. Uma oportunidade imperdível de aparecer.

Logo logo lhes veio, a lembrança do “Trevo”, ele era realmente um belo encanto de sorte, de agora em diante, o seu TALISMÃ.

Na quinta-feira à noite, recebeu os carinhos de uma coleguinha há muito desejada e pensou convencido: O Trevo de quatro folhas não era apenas um patuá, era a essência do “milagre” derramada numa herbácia verde, de quatro folhas, com o centro pintado de vermelho.

No sábado logo cedinho, acordou indisposto, pensou que deveria ser algo bem levinho e que não deveria durar. Mas, estava enganado, teve que correr pro banheiro para vomitar.  A testa coberta de um suor frio, o estômago parecendo um pote de agonia e a febre dizendo que nada estava bem. Ligou pro chefe da equipe, contou o desatino e a sentença foi imediata, na bucha como se diz, doente, tava cortado da carreata, não poderia viajar. Lembrou da mascote e a decepção foi como se o mundo tivesse chegado ao fim. O talismã de repente, se tornou um “espelho quebrado” símbolo maléfico de má sorte e perdeu o encantamento. Com pesares derramados entre os dois lados, um outro garoto foi chamado pro seu lugar. Com dificuldades até pra “arribar” os pés da cama, lançou fora a plantinha, antes guardada numa caixinha, como algo que por muito tempo estaria em sua companhia.  Fora uma decepção terrível e não a queria mais diante dos olhos. Blasfêmias odiosas foram proferidas em distrato para com a inocente plantinha. Tarde da noite, na volta dos jogos, talvez por bebidas e excessos juvenis, o carro em que estava a delegação derrapou na pista, virou e o jovem que fora chamado para o seu lugar, foi o único a perder a vida.

Um conto de Carlos Karoá, amante de música e cinema, também tem paixão pelo universo das letras. Em 1970, deixou Morro do Chapéu com destino a Salvador, como fazia todo jovem interiorano daquela época. Hoje aposentado, retorna à nossa cidade em busca de uma vida mais tranquila. Gosta de escrever crônicas e pequenos contos, sejam eles verdadeiros ou não.

 

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