Carlos Karoá escreve: ‘DITADURA’

No início dos anos 70 do século passado, me “desbandeirei” pras terras da Bahia” pra cuidar de mim mesmo, era chegada a hora de deixar a cama quente e gratuita do meu velho pai. Nestes termos, na manhã do dia 01 de abril de 1970, um ônibus de cor amarela e pneus duvidosos, estampando nas laterais o “duo” Cristo Rei, carregou a mim e mais um tantão de gente, pras terras onde o acarajé não é apenasmente um bolinho de feijão fradinho pra encantar turista, vale ouro pra economia do estado.

Naquela época, dizíamos que se vivia uma ditadura, embora eu não tivesse a percepção de limites no “modus operandi” de viver a minha vida, o ir e vir de todos era absolutamente franquiado, a ausência de policiamento ostensivo permitia o ajuntamento de amigos e familiares, em celebrações que por algum motivo se julgasse as datas especiais. Por medo ou respeito, porém, não se tinha notícias de vandalismo ou badernas em vias públicas, a punição rigorosa ou mesmo o temor da morte, não permitia esta prática tão comum nos dias de hoje.

Lá no Planalto Central, ocupava a poltrona preta, luzidia, de respaldo alto e confortável, o gaúcho Emílio Garrastazu Médici. Militar de formação juvenil, foi estudante da Escola Militar de Porto Alegre, onde os conhecimentos apanhados certamente o ajudaram a galgar o posto de general, era ele, o nosso presidente. No seu governo, o “boom econômico” no desenvolvimento do país ficou conhecido como o “milagre brasileiro” sendo a ponte Rio Niterói, edificada em 4 anos, a estrela mor da sua administração. Aqui por as bandas de cá, a ponte Salvador -Itaparica foi prometida a 16 anos, mas é ainda o velho Ferry-boat, quem nos leva até lá.

Em 21 anos de ditadura vividos em Salvador, confesso de modo sincero que em tempo algum passei por apuros pessoais. Uma carteira de trabalho ou uma identidade na algibeira, era o passaporte seguro para o direito à liberdade. Do Rio de Janeiro, entretanto, notícias nos chegavam da repressão, tortura e até a morte de civis, nos excessos do DOI-CODI, órgão opressor do regime militar da época. Na Bahia, contudo, os ares eram bem mais moderados. No início dos anos 70, a Bahia inteira estava em construção latente, Salvador comandava a revolução em urbanização sócio industrial, sendo uma entre as cidades que maior destaque em desenvolvimento.

Polo petroquímico de Camaçari

Centro industrial de Aratu

Estádio da fonte nova

Centro administrativo da Bahia

Avenida Bonocô

Avenidas paralelas

Urbanização da Pituba

Surgimento de shoppings centers.

Tínhamos ensino público de excelência.

Qualidade “extra Fine” de uma geração.

Acesso fácil ao trabalho, dependendo naturalmente da natureza do ofício.

Respeito a professores e instituições públicas.

E não se ouvia falar deste monstro que nos envergonha nos dias de hoje, a maldita corrupção. De alguma forma, nós brasileiros, merecemos a carapuça de culpa por conivência e lamentavelmente esta “pecha” é uma verdade vergonhosa.

São Paulo e Rio de janeiro, pela importância econômica, organização sindical e melhor aparelhamento social, foram as duas cidades de maior resistência à ditadura de 64. No Rio, a caminhada dos cem mil, organizada pelo movimento estudantil, via UNE, (União Nacional dos Estudantes) e em São Paulo, as greves do movimento sindical sob a liderança de Luiz Inácio da Silva, com a criação da CUT e o surgimento de novos partidos políticos.

Curiosamente, também se fazia resistência com a nobreza da poesia. Usando metáforas luzentes e divinamente criativas, compositores driblavam a censura com a maestria dos iluminados:

“Cálice” de Chico Buarque e Gilberto Gil

“Apesar de você” de Chico Buarque

“O bêbado e o equilibrista “de João Bosco e Aldir Blanc

“Sinal fechado” de Paulinho da Viola

E o hino da liberdade, “Pra não dizer que não falei de flores” de Geraldo Vandré, apresentado no festival internacional da canção, da rede Globo em 1968. Foi censurado, mas a reação popular, a incitação do público, apressou a assinatura do AI-5, ato institucional número 5, que dava amplos e irrestritos poderes ao presidente da República. Geraldo Vandré teve que exilar-se na Europa, para evitar prisão.

Vinte e um anos depois, a ditadura finalmente nos deixou, a revolta e a resistência popular foi maior que a vontade de continuidade dos generais e de forma pacífica entregaram o “leme”, capitularam.

Surgiram em bandos vorazes, os políticos carreiristas, que perceberam as oportunidades douradas que a vida pública lhes oferecia: pulamos de dois partidos, o MDB e a ARENA, para 32 legendas partidárias e neste bojo de “ôba ôba”, a diversidade de caráter sempre foi farta, se antes a corrupção se mostrava insípida, em poucos anos se transformou em um monstro voraz e insaciável, somos de um modo triste, um dos países mais corruptos do mundo.

Politicamente não evoluímos, somos eleitores tipo “gado de curral” se o capim lhes chega, o destino pode ser o abatedouro.

Mas, acho que o dia de amanhã, o brilho do sol vai ser bem mais intenso.

 

Carlos Karoá, amante de música e cinema, também tem paixão pelo universo das letras. Em 1970, deixou Morro do Chapéu com destino a Salvador, como fazia todo jovem interiorano daquela época. Hoje aposentado, retorna à nossa cidade em busca de uma vida mais tranquila. Gosta de escrever crônicas e pequenos contos, sejam eles verdadeiros ou não.

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