Carlos Karoá escreve: ‘CAMINHADA DA SERESTA’

Os ingleses, na maioria esnobes e ausentes de simpatia, reivindicam para os súditos da rainha, a invenção da seresta. Apregoam de peito estufado, a lenda secular de que foram eles os primeiros a andarem pelas ruas nas madrugadas frias de Londres, com as tripas mergulhadas em whisky, enfrentando o “fog” londrino e entoando canções de amor para suas eleitas, fossem elas namoradas ou não. Evidente que esta pretensão fantasiosa não é verdadeira, pois é sabido que em qualquer lugar do mundo, onde houvesse paixão e vinho, os enamorados estariam “trinando” versos musicados para os amores das suas vidas. Aqui, por estas bandas de cá abaixo dos trópicos, onde as noites são bem mais acaloradas e referendam passeios noturnos tendo por companhia um violão e alguns goles de cachaça, esta reverência amorosa sob o manto das estrelas, é bem mais pertinente do que lá, onde as alvoradas cobram pesados tributos de aquecimento, para os notívagos de plantão. A seresta não é uma invenção inglesa, é um patrimônio ungido em amores, de toda a humanidade. Assim falou Zaratustra.

5 de setembro de 2026, numa “caliente” noite de sábado nesta nossa cidade fria, um “tantão bem grandão” de homens e mulheres, sem distinção de dias vividos, misturando credos, cores e ideologias, paramentados em tons de preto e branco, eles exibindo suspensórios, gravatinhas borboleta, chapéus a “lá Michael Jackson” e elas, elegantérrimas em “fatiotas” negras a “lá Liza Minelli”, fez da música seresteira um hino de adoração. Não eram estes apaixonados boêmios, dezenas ou centenas, eram milhares de almas felizes, enchendo ruas e ares, de delírios de paixão.

No passado, em eras distantes quando o velho lampião de gás ou a luz lunar se fazia “alumiar”, as serestas eram tributos solitários de jovens enamorados, quando se avizinhava o alvorecer. Hoje, com a luz elétrica espantando o romantismo, violões dolentes voltam a alegrar as ruas sem o cunho solitário e pessoal dos enamorados, porém com uma manifestação fervorosa da coletividade. Esta onda de harmonia sonora e noturna, teve os seus primórdios no circuito barroco mineiro: Diamantina, Congonhas, Mariana e Ouro Preto, a antiga Vila Rica e está se espalhando com a lepidez das “semifusas”, se aninhando em corações amorosos com a morosidade das “semibreves”, ou seja, o matrimônio é maravilhosamente perfeito.

O lusco-fusco do cair da noite fora embora fazia um tempinho só, quando aportamos no limiar da rua do fogo. Rostos conhecidos mostravam os dentes em sinal de boas-vindas, com beijinhos de “Que bom que você veio” e bicotas de boas intenções ou não, estalavam a todos os instantes. Rostos desconhecidos, certamente de visitantes, exibiam sorrisos de encantamento e toda a energia de um cosmo distante, poderia ser sentida em pensamentos ou nos olhinhos brilhantes de quem por lá ia e vinha, a ruazinha famosa nunca estivera tão rutilante.

Dezenas de violões, um criativo trombone, um trompete vibrante, pandeiros zuadentos, zabumba mantendo o ritmo constante, acordeons, o primogênito da família “Sax”, o sax-alto, até a nobreza do violino se fez presente, a música enfim por merecimento e justiça, foi o mimo de muita gente.  Próxima festança, de “caniço e samburá” todo mundo irá estar de volta, acredito eu que bolereando sambando ou curtindo marchinhas, todos com vontade de dançar, porque nesta primeira cantoria, eu honrosamente estava lá.

Carlos Karoá, amante de música e cinema, também tem paixão pelo universo das letras. Em 1970, deixou Morro do Chapéu com destino a Salvador, como fazia todo jovem interiorano daquela época. Hoje aposentado, retorna à nossa cidade em busca de uma vida mais tranquila. Gosta de escrever crônicas e pequenos contos, sejam eles verdadeiros ou não.

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