Carlos Karoá escreve: AS ARMAS DE FOGO

A manhã estava radiante, aquecida com o sol de verão, dos meses de começo de ano. Pequenos bandos de andorinhas do norte do mundo, davam mostras no zigzaguear nos céus, avisando que logo logo teria um monte delas assentadas nos fios elétricos beiradeiros da torre da igrejinha do lugar. Era lá que, quando em revoadas e trinados barulhentos, se arranchavam de vez, quando chegavam do lado frio da terra.

Beirando os lajedos da represa de água doce que servia a cidade ribeirinha, uma jovem adolescente de profundos olhos verdes, ora agachada, ora em passinhos apressados, manejava com admirável destreza uma espingarda de caça da marca “lefauchet”, abatendo marrecos e galinhas d’água, naquele barrigão de águas escuras. Cheinho que estava, escoava pelo sangradouro de segurança, as correntes negras do Gramacho e as aguas vermelhas do rio  do Marrão. Não havia naquele tempo, de liberdade para o uso de armas de fogo, consciência ecológica na cabecinha da jovem, de olhos esmeraldinos, advertindo que preservar a vida, era mais importante.

Também eu, andava com uma arma pendurada no pescoço, nos meus tempos de guri. Não fazia estalidos secos quando disparava as minhas balas em direção a qualquer alvo. Não tinha pólvora no sistema dos disparos dos projéteis da morte, era uma simples baladeira de borracha. Naquele tempo sem consciência ecológica nas cacholas juvenis, quase todo garoto tinha bodoques de forquilha de madeira e borracha de câmera de ar de Caminhões, para abater qualquer coisa que não fosse gente. Meu amigo Neguinho de Cera, não perdoava nem Garrincha e gatinhas, nem tampouco os répteis da família dos tropiduros, conhecidos como calangos e lagartixas, que tivessem o infortúnio de cruzar nosso caminho. Eu também, vergonhosamente cúmplice dessa desdita.

Mil anos depois, que Cristo andou sobre as águas do Jordão, um Chinesinho que não sei o nome, descobriu de modo acidental, que se juntasse uma parte de salitre, outra de carvão, outra de enxofre, teria nas mãos um poderoso explosivo. Aquele pozinho da cor do chumbo, que o povo costuma dizer que se fizer com ele um rastilho e pregar fogo, a fumacinha corre mais rápido que um ratinho calunga, receberia o nome de pólvora. Essa coisa, metaforicamente de pavio curto, é capaz de levar um prédio pelos ares. A pólvora está para as conquistas dos homens como o cimento está para a construção. Sem pólvora as brigas só nos tapas e empurrões, sem cimento, as casas só no chão.

Com a invenção da pólvora, sua utilidade passou a campear as necessidades da vida.  Tudo que fosse necessário a solução brusca e embrutecida, tinha no pozinho milagroso, o remédio “tiro e queda” como rápida conclusão.

Uma “leva” de carência e solvência, tiveram no uso da pólvora, a redenção esperada. Um cabedal invejável de elogios e batimento de palmas, para o homenzinho de olhinhos repuxados.

Dentre as coisas que a pólvora tinha o protagonismo do projeto, as armas de fogo, pela importância no quesito viver ou morrer, foram as de maior relevância. Sem o questionamento da razão pelos atos praticados, fossem eles as conquistas de cidades, terras ou mesmo da imposição de um governo contra a vontade dos gentios, foram os dedos nos gatilhos, os elementos de número um, nestas empreitas de coragem e aventura, tivessem sim ou não, responsabilidades humanitárias.

No início do século XIII, apareceram os canhões, objeto bélico de destruição devastadora, quando as batalhas eram ainda decididas no fio da espada. Esse trabuco de boca de sapo cururu gigante, veio dar o tiro de misericórdia nas tropas vencidas. O canhão, foi o protótipo grosseiro para se cuspir fogo por um cano, de possibilidades reais de causar a morte. Dois séculos depois, os arcabuzes começaram a aparecer nas mãos dos conquistadores. A ferro e fogo, tribos e nações inteiras, capitularam sob os estampidos certeiros deste poderio bélico. Flechas, lanças e tacapes, contra espoletas e chumbo, pareciam brinquedos de anjinhos dos céus.

Horace Smith e Daniel Boiad Wesson, armeiros americanos, em 1852, lançam no mercado dos aficionados por gatilhos, o mais famoso e eficiente revólver de seis balas. O “Smith Wesson”. A América tinha pressa em ordenar os seus estados e isto não se fazia só com reuniões e cumprimentos de mãos. Tinha que ser com sangue suor e lágrimas. A pistola prateada de agora, estava no coldre das cinturas dos homens que precisavam de coragem e determinação. Era e é mais famosa arma de cuspir fogo, desde a época do velho oeste dos cow-boys americanos.

Em 30 de novembro de 1810, nascia em Massachusetts, na América, um garoto que viria a se chamar, Oliver Fisher Winchester. Iria no futuro, revolucionar o mercado de armas nas terras do Tio Sam. Apaixonado por coronhas e gatilhos, sempre estava em débito consigo mesmo, na procura de uma criação armamentista, que fizesse diferença nos quesitos rapidez e precisão. A resposta finalmente veio, no ano de 1873 com o rifle de repetição “Winchester 73”, com calibre 44-40 WCF.

Esta carabina de cuspir balas repetidas vezes sem a necessidade de recarregar, era sinônimo de alegria por um lado e desespero por quem estava em sua mira. Contribuiu enormemente na conquista do oeste americano. Usada pelo exército nos combates aos povos indígenas, que vergonhosamente foi aniquilado do solo dos seus antepassados, desde a poderosa Califórnia, até o velho e truculento Texas.

Impossível precisar um número pelo menos aproximado com a quantidade de vidas ceifadas por armas de fogo. Quem sabe, acima de um bilhão de pessoas. Mas, também é preciso por outro lado, quantificar a afluência de vidas poupadas pelo uso deste fantástico cuspidor de balas, em defesa da razão. Lacerar a pele sadia, preservar o corpo em possível agonia, esta é a natureza das armas de fogo.

Uma arma, em qualquer circunstância, nos fascina pelo poder que exerce sobre a vida e a morte. Segurar um “Smith Wesson” pela coronha ou empunhar uma “Winchester 73″ em posição de tiro, nos remete a uma aventura ilusória de que somos os mocinhos, enfrentando e eliminando proscritos e bandidos. Ilusória mesmo, porque a distância entre ficção e realidade com uma arma de fogo nas mãos, pode significar se você vai estar vivo ou morto, no minuto seguinte, após o espocar da pólvora, do cartucho da ilusão.

No Brasil, o revólver Taurus, é o mais famoso. A indústria bélica nacional, é uma das mais importantes do mundo, fabricando desde a espingarda de cartucho até misseis, blindados e aviões de uso militar. Eu, particularmente, sou mais meu bodoque de borracha de câmera de ar de caminhão.

Carlos Karoá, amante de música e cinema, também tem paixão pelo universo das letras. Em 1970, deixou Morro do Chapéu com destino a Salvador, como fazia todo jovem interiorano daquela época. Hoje aposentado, retorna à nossa cidade em busca de uma vida mais tranquila. Gosta de escrever crônicas e pequenos contos, sejam eles verdadeiros ou não.

2 comentários em “Carlos Karoá escreve: AS ARMAS DE FOGO”

  1. Olivia da Rocha Bezerra

    Continue destemido Carlos Karoá! Suas histórias nos remetem ao passado sem nos deixar presos lá. Você está sempre presente revisitando o passado com olhos no futuro! Parabéns pelas viagens que nos proporciona em seus textos! Sucesso sempre! Olivia da Rocha Bezerra

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

plugins premium WordPress