Dor, falta de apoio e dificuldades após o parto podem interferir no aleitamento. Psicóloga explica o que ajuda
Durante o Agosto Dourado, mês dedicado ao incentivo à amamentação, é comum que mães recebam orientações sobre os benefícios do leite materno e a importância de manter o aleitamento. O que nem sempre aparece com a mesma força são as condições necessárias para que essa mulher consiga amamentar.
Dor, fissuras nas mamas, dificuldade na pega do bebê, exaustão, internações, falta de orientação e retorno ao trabalho podem interferir nesse processo. Para a psicóloga perinatal Rafaela Schiavo, fundadora do Instituto MaterOnline, colocar toda a responsabilidade sobre a mãe pode transformar incentivo em cobrança.
“Quando uma mulher não consegue manter o aleitamento como gostaria, é preciso perguntar o que aconteceu antes de culpá-la. Ela teve assistência? Recebeu orientação desde o pré-natal? A dor foi investigada? Havia apoio em casa?”, questiona.
A psicologia perinatal é a área voltada às questões emocionais relacionadas à gestação, ao parto e ao período depois do nascimento do bebê.
O que está por trás
Segundo Rafaela, algumas dificuldades podem começar ainda na maternidade. A falta de apoio para colocar o recém-nascido no peito, a separação entre mãe e bebê, a ausência de orientação sobre a pega e a oferta de outros leites sem necessidade avaliada pela equipe de saúde podem interferir na continuidade da amamentação.
A pega corresponde à forma como a boca do bebê se encaixa na mama para retirar o leite. Quando isso não acontece adequadamente, a mulher pode sentir dor, apresentar fissuras ou sangramento e encontrar dificuldades para manter as mamadas.
Outro momento importante é o início da amamentação após o nascimento. Quando mãe e bebê estão em condições clínicas, o contato próximo e a tentativa de colocar o recém-nascido no peito ainda nas primeiras horas podem favorecer o processo.
Também existe o chamado alojamento conjunto, modelo em que mãe e bebê permanecem no mesmo quarto durante a internação, quando não há impedimento médico. Essa proximidade permite que a mulher observe os sinais de fome e tenha mais oportunidades de oferecer o peito.
Para Rafaela, por isso, as ações do Agosto Dourado não deveriam falar apenas com as mães. Profissionais de saúde, maternidades, locais de trabalho e familiares também fazem parte desse processo.
“Não basta explicar à mãe que ela precisa amamentar. É necessário observar quais condições foram oferecidas para que isso acontecesse”, ressalta.
Quando o incentivo vira cobrança
Frases como “toda mulher consegue”, “é só insistir” ou “você precisa ter força de vontade” podem parecer estímulos, mas desconsideram as condições físicas, emocionais e sociais enfrentadas pela mulher.
De acordo com a psicóloga, muitas mães relacionam a capacidade de amamentar ao próprio valor materno. Quando encontram dificuldades, podem interpretar a situação como sinal de que falharam com o filho ou não se esforçaram o suficiente.
O sofrimento pode ser ainda maior quando a mulher sente dor intensa durante as mamadas, passa a antecipar aquele momento com medo ou desenvolve aversão ao contato com a mama. Nessas situações, insistir sem investigar a causa pode aumentar a exaustão e a culpa.
Entre os sinais e situações que merecem atenção estão:
- Dor intensa ou persistente durante as mamadas.
- Feridas, fissuras ou sangramento nas mamas.
- Dificuldade na pega do bebê.
- Medo ou ansiedade antes de amamentar.
- Choro frequente durante ou depois das mamadas.
- Aversão ao contato com a mama.
- Exaustão física e emocional.
- Culpa constante por não conseguir amamentar.
- Sinais de ansiedade, depressão ou isolamento.
- Retorno ao trabalho sem condições para retirar e armazenar o leite.
Segundo a psicóloga perinatal, esses sinais não devem ser interpretados como falta de esforço. Médicos, enfermeiros e profissionais especializados em amamentação podem avaliar a pega, investigar a dor e observar a saúde da mãe e do bebê. Quando houver sofrimento emocional, o acompanhamento psicológico também pode ser necessário.
O que pode ajudar
O apoio começa ainda na maternidade, com orientação sobre a pega, ajuda durante as primeiras mamadas e investigação de dores ou outras dificuldades. Depois da alta, a participação da família pode evitar que todo o cuidado com o bebê e a casa recaia sobre a mulher.
Parceiros e pessoas próximas podem preparar refeições, assumir tarefas domésticas, cuidar do bebê em outros momentos e garantir períodos de descanso. No retorno ao trabalho, ter condições para realizar a ordenha, nome dado à retirada do leite das mamas, e armazená-lo adequadamente também pode ajudar quem deseja continuar amamentando.
A amamentação pode favorecer a proximidade entre mãe e bebê, mas não é a única maneira de construir vínculo. A relação também se desenvolve no colo, no banho, nas conversas, nas brincadeiras e na resposta às necessidades da criança.
Quando houver necessidade de complementar ou substituir o leite materno, a decisão deve ser tomada com acompanhamento profissional e sem julgamentos, levando em consideração a segurança da alimentação do bebê e a saúde física e emocional da mulher.
“A amamentação não deveria ser uma missão solitária entregue à mãe depois do parto. Ela depende de apoio, orientação e condições que protejam a mulher e o bebê”, conclui.
Imagem: Crédito: Magnific

Sobre Rafaela Schiavo
Profª-Dra. Rafaela de Almeida Schiavo é psicóloga perinatal e fundadora do Instituto MaterOnline. Desde sua formação inicial, dedica-se à saúde mental materna, sendo autora de centenas de trabalhos científicos com o objetivo de reduzir as elevadas taxas de alterações emocionais maternas no Brasil.
Possui graduação em Licenciatura Plena em Psicologia e em Psicologia pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho. Além disso, concluiu seu mestrado em Psicologia do Desenvolvimento e Aprendizagem e doutorado em Saúde Coletiva pela mesma instituição. Realizou seu pós-doutorado na UNESP/Bauru, integrando o Programa de Psicologia do Desenvolvimento e Aprendizagem.
Tem experiência na área de Psicologia, com ênfase em Desenvolvimento Humano, atuando principalmente nos seguintes temas: Desenvolvimento pré-natal e na primeira infância; Psicologia Perinatal e da Parentalidade.