No mundo dos sonhos eu tudo posso. Posso acordar sem mesmo dormir, posso morrer e tempos depois voltar a viver, posso ressuscitar sem mesmo ter nascido, posso conversar com quem ainda não veio ou já foi embora, posso mandar recados pelo vento que me afaga sem cobranças ou pelas nuvens que viajam sossobradas por ele. Posso viajar em cirros prateadas, mutantes que transladam desde o amanhecer até quando o sol está do lado do mundo e só a luz mercuriana lunar, mostra a beleza noturna estelar que tanto nos encantam. Já não me lembro mais, quando as fantasmagorias mentais começaram a me visitar. Sei que foi na minha infância. Mensurar as datas destes devaneios humanos é evidentemente impossível, mas lembro que ainda garoto, as minhas noites por vezes, eram ponteadas com ilusões vivas dentro da cachola, ainda de castidade infantil. Eram tão incríveis e absurdamente beirando a incompreensão, que era mais sensato esquece-las por completo, mal os primeiros raios de sol, aquecessem o telhado do meu quarto. A liberdade de também poder sonhar, é uma dádiva divina, não nos custa nada.
Deveria existir, a chave para as terras das imagens holográficas, presa numa correntinha feita apenas de ilusão. Seria pessoal e intransferível, desde a hora da concepção, admitindo-se, que a vida é uma dádiva divina e no florescer do corpo no universo do ar, água, fogo e terra, esta quimera dos deuses da vida, seria um passaporte para adentrarmos este mundo, sempre que quiséssemos. Se assim fosse ou se assim sesse, porque lá na maioria das vezes o errado está absolutamente certo, passaríamos mais tempo dormindo do que de olhos arregalados, pois mais felizes seríamos, desfrutando daquilo que na realidade não existe. Pode estar parecendo complicado, mas o complicado que não existe, é uma coisa deverasmente muito simples. A coisa iria funcionar mais ou menos assim: Hora de dormir, o cidadão daria uns tapinhas no travesseiro e faria a opção de visitar o reino do Deus “Morfeu” para ver o que estaria a sua espera. Saberia que aqueles devaneios de projeção mental seriam ilusórios, mas ao acordar no outro dia, iria estar feliz e pronto pra lida real do seu dia a dia. Se assim fosse ou se assim sesse, dependendo evidentemente das venturas que vivesse, acordaria com o pé direito de quem viu passarinho verde no seu amanhecer, o que evidentemente seria bem melhor do que acordar com o pé esquerdo e não escutar nenhum chirriar de juriti ou zabelê, quando chegasse a hora do sol alvorecer. O universo onírico, tem nuances próprias. Únicas. Improbabilidade, irracionalidade, bestealidade, inviabilidade, tudo que está fora das garras do cérebro.
Não ache estranho estar bebendo água, quando no copo só existe vinho. A coisa muda do vinho pra água, ou da água pro vinho, como a conveniência lhes convier.
Havia bandeirolas praticamente em todas as ruas do país. Um burburinho apaixonante se ouvia em bares e restaurantes ou onde houvesse um telhado cobrindo gente, apaixonada por futebol. Não era só aqui no Brasil, mas na Itália também, trabalhadores das “Vinhas”, condutores motorizados, gondoleiros e até nos corredores dos templos de “Dio”, os sussurros eram arrebatados como cochichos proibitivos, afinal faltavam apenas dois dias para a hora do jogo e a decisão da FIFA, a respeito de uma petição impetrada pela CBD, federação brasileira e a FIGC federação italiana ambas de futebol, ainda não tivera a resposta. Era copa do mundo e a contenda final tinha horas contadas. O pedido de apreciação das regras do esporte, solicitando uma mudança no caso de final de campeonato, era pra inclusão de mais um atleta no time, passando de 11 para 12, o número de jogadores na equipe. O país inteiro queria que fosse eu, o camisa 12 que por sinal não era eu, porque eu, na verdade, era “Areia Branca”, um atleta nascido num povoado do mesmo nome, perto da cidade de Lapão. Já pelo lado da Itália, as preferências eram por um atacante chamado José João Altafini, mais conhecido por Mazola, que apesar da origem italiana, era brasileiro piracicabano da gema. Talvez por este perrengue de nascença, a coisa tava demorando pra ser deferida. Comigo vestindo a camisa 12, o esquema de jogo do velho lobo, o Zagalo, sofreria alteração. Nada de 4 -2- 4, seria 4-3-4, eu faria o tripé mágico com Clodoaldo e Gerson. A cozinha continuaria a mesma. Felix, Carlos Alberto, Brito, Piazza e Everaldo e o ataque também seria preservado. Jairzinho, um negão do Santos que agora esqueci o nome, Tostão e Rivelino. Me lembro que tudo foi acertado, a FIFA deu sinal verde, com uma aquiescência inédita nos anais esportivos, alegando tornar a partida mais jubilosa. Estádio derramando torcedores pelas beiras, e dentro de campo eu fui a estrela maior da festa. Recebendo um cruzamento da esquerda, feito por Rivelino, eu subi, parei no ar, levitei e acertei de cabeça, o canto esquerdo do goleiro Albertosi. Até hoje, lá na Itália, eles dizem que eu não poderia ter feito aquilo, ficar alguns segundos flutuando, se não fosse com a ajuda de “Dio”. Também fiz o segundo, fiz o terceiro e o quarto gol foi um passe meu pro zagueiro Carlos Alberto. Como eu estava nas arquibancadas me assistido jogar, as vezes ficava sem saber se era Areia Branca, se era o negão do Santos ou se era eu, o filho de seu João Karoá. Ganhamos a briga, humilhamos os dançarinos da tarantela, trouxemos a taça, aquela que foi pro Rio de Janeiro e sumiu de um modo tão misterioso que nem se fez investigação a respeito. Disseram que alguém roubou, mas no Brasil roubar já faz parte da cultura, já é tradição e a coisa não deu em nada. Fizemos um carnaval num mês que de fevereiro não tinha nem uma lantejoula prateada ou multicolorida.
Era junho de 1970 e houve São João antecipado no país inteiro. Ganhei um Fusca de presente do prefeito paulista, Sr. Paulo Maluf, aliás, todos os jogadores foram presenteados com um fusquinha, pra variar, comprados com dinheiro público, mas, alguém descobriu que eu estava sonhando e lógico, não poderia trazer o carro. Houve protestos por ser eu o responsável pela Vitória, mas não teve jeito, o certo é que quando acordei não tinha carro nenhum na porta lá de casa. Morava perto do velho Avelino, na hoje “praça da música” pai da nossa querida “Mana”.
Ajudei na preparação da camionete de Moreno, pra eu mesmo desfilar em carro aberto quando aqui chegasse, mas não deu tempo porque Acordei antes da hora. Sonho é bom, porque se for pra gente morrer, se morre, mas quando a gente acorda, a gente tá vivo. Também se acordasse e estivesse morto, o sonho ainda estaria rompendo a madrugada. Tá difícil entender, mas as vezes nem mesmo eu entendo. A coisa é assim mesmo, tenha paciência.
No dia 08 de agosto de 1969, eu tinha saído da estação de metrô St. John’s Wood, em Londres e caminhava apressado pela rua Abbey Road em busca de um restaurante pra almoço, perto dos estúdios de gravação da EMI. Passava das onze da manhã e a fome vinha vindo de avião. Parei na frente da faixa de pedestres, quando quatro rapazes aproveitaram a ausência de trânsito e começaram a atravessar a rua. Um deles, todo de branco, virou pra mim e perguntou: Você sabe tocar bateria? Sim, acenei com a cabeça afirmativamente.
Onde aprendeu? Insistiu.
Eu tocava maraca e bongô no conjunto Columbia do meu amigo Tota. Respondi.
E isso é aonde?
No Morro. Perto de Jacobina.
Tá bem, venha conosco, vamos gravar agora, mas Ringo tá com o pé quebrado.
O interessante é que eles falavam em inglês, eu respondia em português e todo mundo se entendia. A partir daí, comecei as desconfiar que estava sonhando, mas não tinha jeito de acordar. A energia que emanava daqueles garotos era suficientemente dominante, para deixá-los senhores das ações. O de branco se chamava John, o de preto com o pé machucado era Ringo, o de blazer marrom se chamava Paul e o cabeludo, usando jeans, se chamava George. Logo, logo ficamos amigos. Sendo inquirido várias vezes, comecei a falar das belezas da Chapada Diamantina, o que os deixou bastante curiosos. Queriam conhecer “Ferro doido” e perguntar a Tota se “lá sustenido e si bemol” eram a mesma coisa. Fizemos um ensaio e um moço bonito, chamado Samuel Brian Epstein, nos levou numa camionete amarela pra tocar na cidade de Roterdã na Holanda. Na hora de atravessar o Canal da Mancha, a camionete simplesmente voou, eu não sabia que estava sonhando e morria de medo do carro cair no mar. Coisa de gente besta mesmo. Lá da Holanda, adulei o grupo pra gente vir a tocar aqui na Minerva, num assustado, pois era 20 de outubro e um colega meu do Colégio Nossa Senhora da Graça fazia aniversário naquele dia. Mas, havia um botão da conexão de primeiro mundo para o terceiro, que quando a gente apertava, em vez de ficar verde ficava da cor da “bonina” e isto impedia a transmutação de um ambiente pra outro. Não entendi muito bem, mas o que sei mesmo, é que o grupo que estava tão empolgado pra conhecer a ilha de Friandes, que na verdade, era uma porção de água cercada de terra, não pode vir. Por isto meu amigo não teve The Beatles tocando na festa dos seus inesquecíveis 15 anos. Toda vez que lembro disto, dá vontade de chorar, só de raiva.
Em meados de maio de 1970, a seleção brasileira de futebol arribou as malas com o bico do avião apontado pro México. Seu destino, a cidade de Guadalajara, capital do estado de Jalisco, no oeste mexicano. Sua finalidade, disputar a nona copa do mundo, seu dever e objetivo, trazer a taça Jules Rimet em definitivo. A Itália, campeã de 1934 em seus domínios e 1938 na França e o Brasil vitorioso em 1958 na Suécia, campeão em 1962 no Chile, eram os dois únicos que estavam em estado de direito para levar pra casa o biscuit dourado, caso fossem vencedores. Eram os únicos bicampeões do mundo nesta modalidade esportiva. Saímos desacreditados, com o fiasco anterior na Inglaterra ainda tinindo nos ouvidos. A demissão do treinador João Saldanha, técnico que classificou a seleção, denunciava também falta de harmonia entre os membros da comissão técnica e isto talvez, pudesse ter contribuído para falta de confiança dos futebolistas brasileiros na sua seleção. O comentarista esportivo jamais havia calçado uma chuteira, e isto não tinha a simpatia do preparador físico Ademildo Chirol e também do médico Lídio Toledo. Mas, havia entre as quatro linhas, sete craques, três gênios e um semideus. A possibilidade de uma derrota, nem podia ser cogitada. O rei Pelé vivia.
REALIDADE
Foi divertido pra mim, um pouco de deboche respeitoso sobre os instantes finais da copa de 70. Eu os vivi, no Alto do Saldanha em Brotas e os meus sentimentos na hora do apito final, foram de admiração, alegria, gratidão e acima de tudo, respeito pela minha pátria. Pós esta copa do mundo, todas as vezes que o Brasil ia entrar em campo, em concurso por alguma coisa ou até mesmo um amistoso, o recesso coletivo era quase obrigatório. O civismo junto com o sangue, corria nas veias, o futebol arte era o nosso orgulho. Aos poucos, o futebol foi se tornando um excelente negócio, com os atletas trocando de camisa a cada temporada e o encanto, antes de uma chama incandescente foi se tornando uma mortiça labareda, tipo sapeca, mas não queima. De alguma forma, perdemos um pouquinho do encanto, Jogadores e torcedores, já não se fazem como antigamente.
Dizem que um raio não cai duas vezes no mesmo lugar. Um raio parido, estalado e incandescente, quando duas nuvens carregadas de sinais opostos, se chocam pesadamente. Mas, na Inglaterra, quatro raios do mais puro cintilar dourado, derramaram-se dos céus, em um só lugar. Em Liverpool, uma cidade praiana, localizada no sudoeste do estuário do Rio Mersey, cuja arte em pureza santificada, explodiu para o mundo em forma de canção. Curiosamente, a virtuosidade quase sempre tem origem suburbana. Não fugiram à regra, mas traziam consigo uma carga excessiva de talento, criatividade, carisma e uma sensibilidade beirando as raias do jamais visto, até poderem mostrar o que vieram fazer no planeta Terra. John Lennon, começou a sua caminhada de luz, com amiguinhos do colégio num grupo chamado Quarrymen, tocando “Skiffle, um tipo de rock inglês, já na companhia de Paul McCartney. O baterista chamava-se Pete Best. Um garoto chamado Stuart Sutcliffe era o baixista do grupo. O jovem guitarrista George Harrisson, iria se juntar ao grupo, por ser amigo de Paul e mostrar habilidades, dedilhando acordes que nem mesmo os outros conheciam. O dono do contrabaixo perdeu o interesse e abandonou o grupo, forçando Paul a assumir a marcação de ritmo. Pete Best foi dispensado pela gravadora EMI, na pessoa crítica do diretor de gravação da EMI, George Martin, por considera-lo, abaixo do nível dos outros. Ringo Star foi chamado para assumir a bateria. Agora sim, o quarteto mágico estava pronto para encantar o mundo: The Beatles. A essência diamantada da música mundial, vaticinada à imortalidade. Quem viver, verá.
Para mim, foi uma diversão respeitosa, imaginar loucuras sadias sobre a seleção brasileira de futebol e a banda The Beatles, como se sonhando estivesse. Mesmo neste mundo onírico, seria uma honra vivenciar momentos ao lado de pessoas deste calibre. Vi pessoalmente a alguns metros de distância, o bom e velho Paul McCartney no Rio de Janeiro, mostrando a sua arte. Seria inimaginável naturalmente, se estivessem todos eles. Imaginar uma seleção brasileira no nível da copa de 70, é perfeitamente possível, temos milhões de anos pela frente. Imaginar uma banda de rock romântico, com o prestígio mundial alcançado pelos rapazes de Liverpool, acho simplesmente, conscientemente, racionalmente impossível.

Carlos Karoá, amante de música e cinema, também tem paixão pelo universo das letras. Em 1970, deixou Morro do Chapéu com destino a Salvador, como fazia todo jovem interiorano daquela época. Hoje aposentado, retorna à nossa cidade em busca de uma vida mais tranquila. Gosta de escrever crônicas e pequenos contos, sejam eles verdadeiros ou não.