Carlos Karoá escreve: ‘A FIFA É FOGO’

‘Do tempo do ronca” quando ainda usava suspensórios, alimentava ansiedades por coisas que demorava um pouquinho, mas eu sabia que mais cedo ou mais tarde, elas viriam pra mesa. As festas juninas com suas guloseimas típicas, o Natal de surpresas únicas, as férias escolares com o alívio dos deveres discentes, o tempo do reinado de “Momo” com o tamborilar de sambas e marchinhas e já um pouco mais crescido, a espera da acirrada disputa da taça Jules Rimet, pelos campos continentais, a nossa Copa do mundo. Hoje, talvez porque os dias vividos me tornou familiarizado com tudo isto. A Copa tá chegando, mais uns dias e esbarramos nela,

A turma lá do “Tio Sam” quando ainda não tinham a percepção do poderio deste esporte Bretão, torciam o nariz quando notícias a respeito lhes chegavam. Para eles, o futebol tinha bola oval e se jogava com as mãos. Demorou até a sua rendição, quando resolveram seguir o curso mundial e em 1994, organizaram a sua primeira Copa, de um esporte que eles estranhamente chamam de “Soccer.”

A diferença entre o poderio comercial do chamado futebol americano e o futebol de campo de 90 metros, é comparável tal e qual a luta entre peixinhos ornamentais e um “octopus” matreiro e faminto num aquário doméstico, as chances de escapar são nulas. Em todos os aspectos, ganha o futebol tradicional. Disparado na frente.

Na América do Norte, só o México namorava o futebol do mesmo jeitinho que o resto do mundo: Babas e peladas em Campinhos de várzea, com lapidação para tornar pernas de pau, em canelas de vidro.  Não tem títulos mundiais, mas vez em quando, um devoto de Nossa Senhora de Guadalupe, tem o seu nome gritado em estádios, como se gênio “sêsse”.  Javier “Chicharito” Hernández e Hugo Sanchez, fizeram por merecer esta louvação.

A Copa do Mundo de agora, perdeu o encanto de pureza esportiva do passado, o fisiologismo que lhes banha o corpo, desde a escolha do país sede, do mercantilismo escancarado que vaza na imprensa e que se percebe o interesse mercenário de quase todo o segmento envolvido, isto apaga um pouco o luzidio dos Campos. Mas, a paixão de quem ama o futebol, de quem se arrepia na hora do hino pátrio ser entoado mundo afora, acredito que vai sempre existir, o amor é sempre o mesmo. No final da festa, nada sobra para o torcedor, porém para quem usou a “camiseta”, a premiação é bastante expressiva: Leva pra casa uma taça de ouro maciço e a bagatela de cinquenta milhões de dólares. Nada mal para quem não tem nenhuma formação acadêmica ou queimou pestanas, debruçado em livros. “C’est lá vie”.

No início do sonho dourado do visionário Jules Rimet, apenas 13 seleções pisaram os campos de Montevidéu. Sete Sul-americanas, quatro europeias e duas norte americanas.

Igual a um monstro intocável, de apetite voraz, a FIFA transformou o torneio num “sonho de Ícaro” todos os países queriam voar e cada vez o seu caderninho de pretendentes, mais e mais se avolumou em adeptos. Ter o nome ovacionado em estádios do mundo, era uma honra inquestionável, valia a pena o suor derramado nas eliminatórias.

O certamente de 2026, orgulhosamente terá 48 postulantes, é a maior versão em todos os tempos. México, Canadá e Estados Unidos, dividirão as honras como bons anfitriões, e, se remotas são as probabilidades de um deles arribar o “Caneco”, pelo menos neste tempo, o tilintar de moedas nas registradoras será relevante, afinal, durante os jogos, eles serão o centro do planeta.

Com o aumento de bandeiras hasteadas, quatro estreantes em Copas terão seus hinos cantados evidentemente, pela primeira vez. Cabo Verde, Curaçau, Jordânia e Uzbequistão. O detalhe em lágrimas copiosas, é a ausência espantosa da tetracampeã Itália, pela terceira vez consecutiva, fora dos gramados. Vergonhosamente foi eliminada pela recém emancipada politicamente, Bósnia Herzegovina. Nem os deuses do futebol acreditaram. Se pasmo ficaram eles, imaginem eu.

Quer queiramos ou não, a Copa do Mundo é e sempre será uma festa colossal, tendo como adereços nas arquibancadas, o colorido das raças. Na campanha de 70, o escrete canarinho saiu daqui desacreditado, contudo no desembarque de volta, tinha nas mãos o mais cobiçado prêmio desportivo da Terra. Havia uma diferença, entretanto, para o que agora se apresenta. Tínhamos sete craques e sobrando deles, três gênios: Gérson, Rivelino e Tostão. Um semideus vaticinado a encantar estádios: Edson Arantes, o Pelé. Único, “Hors Concours” perfeito.

Em 2002, quando nos sagramos pentacampeões, tínhamos vestidos de amarelo, cinco ganhadores da “Bola de ouro”:  Ronaldo Fenômeno, Ronaldinho gaúcho, Rivaldo, Roberto Carlos e Kaká. Hoje, paramentados de um amarelo desbotado, nenhum deles tem sequer uma bola de meia.

Resta-nos a imprevisibilidade do esporte, que vez em quando aparece nos gramados verdes, um troço chamado “Zebra’, pintada de listras em preto e branco e se ela aparecer desta vez, o “Caneco” é nosso.

Carlos Karoá, Carlos Karoá, amante de música e cinema, também tem paixão pelo universo das letras. Em 1970, deixou Morro do Chapéu com destino a Salvador, como fazia todo jovem interiorano daquela época. Hoje aposentado, retorna à nossa cidade em busca de uma vida mais tranquila. Gosta de escrever crônicas e pequenos contos, sejam eles verdadeiros ou não.

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