Carlos Karoá escreve: ‘O CAVALO DE PAU MILAGROSO’

Era ainda de manhã bem cedinho, quando o avô de Carlinhos lhes cutucou pra sair da cama, o moleque, escondido sob as dobras das cobertas, ressonava como se estivesse em sono profundo. O netinho de apenas nove anos, pedira ao avô para levá-lo consigo, quando fosse labutar na roça, onde no plantio de milho e feijão, o velho Zezé, tirava o sustento diário com a nobreza e a valentia de quem enfrenta a árdua lida do trabalho da terra, para sobreviver. O menino sempre ia passar dias na casa do avô, quando havia folga nos seus afazeres escolares ou período de férias. Adorava a companhia do vovô e o velho tinha o maior carinho e zelo pelo seu único netinho.

Logo depois do café, ajeitou um boné de proteção solar no garoto, pegou seu velho chapéu de palha, uma espingarda calibre 12 e o inseparável facão e lá foram eles pro meio do roçado, viver mais um dia de trabalho pro velho e diversão pro menino.

O sol morno da manhã, era prenúncio de abafamento no resto do dia, quente como sempre eram, os dias de verão no sertão da Bahia. Quase uma hora depois, estavam na entrada da cancela da roça, com o netinho já enxugando a testa, molhadinha de suor, coisa normal para quem não tinha o costume de fazer diariamente uma caminhada de pouco mais de um quilômetro. Assim que fecharam a cancela, foram pra casinha da roça, onde o avô guardava as roupas e as ferramentas de trabalho, onde gastaria alguns minutos até o início de labutar a terra.

Saíram da choupana e o avô tomou o rumo do campo do milharal, já em espigas “embonecadas”, quase prontas pra colheita. Antes, porém ajeitou o netinho que ele sabia, iria para as nascentes do riacho temporal que ficava nos fundos da casinha e que não oferecia perigo algum para o menino. As águas eram mansas e rasas, com árvores frondosas ao redor, areia e pedras roliças no leito transparente do riacho que permanecia com águas correntes por pouco tempo, só quando era estação das chuvas. O menino ficava a chafurdar nas águas “avinhadas” que cobriam as pedrinhas e areias brancas e de vez em quando ouvia o grito do avô, perguntando se estava tudo bem. Era o cuidado do vovô com o netinho que ele tanto amava e o garoto sempre gritava também pro vovô, dizendo que tudo seguia sem motivos de afobação. Usava um badoque de borracha apenas para alvos naturais, não mirava em pássaros ou pequenos animais rasteiros, que vinham matar a sede no pequeno regato, pois para o menino, eles eram seus amiguinhos. Calangos, lagartixas, passarinhos coloridos, estavam sempre por perto, comendo bichinhos e matando a sede. O riachinho era um paraíso.

Pertinho do meio dia, o vovô Zezé foi pra choupana preparar o almoço. Em alguns minutos, o gostoso fogão de lenha crepitava com as marmitas e panelas que a vovó havia preparado para eles e esta barulheira de pratos e talheres, era a parte do passeio, que o menino mais gostava.

A tarde foi de trabalho pro vovô e traquinices pro netinho. Correu, trepou em árvores, banhou no regato e a tardezinha na volta pra casa, alegou cansaço e exaustão no corpo, não tinha forças pra andar, queria que o avô o colocasse nos ombros no caminho de volta. Mas, o avô estava também de ossos moídos e sem querer magoar o netinho, teve uma ideia de quem conhece a matreirice da infantilidade: Vou lhes dar um cavalo que vai fazer você voar lá nos céus, disse sorrindo pro menino que já estava de olhos brilhando de curiosidade.

Cortou um galho de São João, aquela planta de lindas flores amarelas, limpou os raminhos e deixou um pouco na ponta, como se fosse uma imensa vassoura. Fez de tiras da casca, uma rédea poderosa e mandou o menino montar.

Nessa hora o cansaço do garoto desapareceu e surgiu um vaqueiro dos mais destemidos. Colocou o “cavalo” entre as pernas, deu alguns saltos e corcovas e partiu na estrada fazendo poeira com o rabo do alazão. O cansaço desaparecera como por milagre, um cavalo de pau, fez o moleque dar asas à sua imaginação.

O vovô só foi botar os olhos no netinho, quando horas depois chegou em casa e o encontrou deitado na cama, do mesmo modo que o encontrara pela manhã, agora, porém, não estava dormindo, estava feliz com o seu lindo cavalo de pau milagroso.

Carlos Karoá, amante de música e cinema, também tem paixão pelo universo das letras. Em 1970, deixou Morro do Chapéu com destino a Salvador, como fazia todo jovem interiorano daquela época. Hoje aposentado, retorna à nossa cidade em busca de uma vida mais tranquila. Gosta de escrever crônicas e pequenos contos, sejam eles verdadeiros ou não.

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