O GRANDE TESTAMENTO DO JUDAS da cidade de Várzea Nova – BA

Na Praça de Cima hoje
Vai ter riso e confusão,
É tradição do Nordeste
Que anima o povão.
Chegou a malhação do Judas
Pra alegrar o coração.

Eu sou Judas Iscariotes
Conhecido no sertão,
Fiz besteira na história
E ganhei má reputação.
Hoje pago meus pecados
Diante dessa multidão.

Antes que o pau estale
E o boneco vá pro chão,
Resolvi deixar escrito
Minha última decisão:
Dividir meus velhos bens
Com o povo da região.

Deixo a Josemar Carneiro
Chapéu, berrante e limão,
Diz que vem ver o gado
Lá na fazenda onde está seu coração,
Mas o povo sabe bem
Que ele gosta de cerveja e resenha no balcão.

Para Zé e as filhas de Oldack
Deixo chave e recordação,
Que morando em Salvador
Guardam no peito a emoção
De voltar pra velha casa
Que marcou sua criação.

Deixo o carro de som velho
Com microfone e vibração
Para Normilson Oliveira
Que anima a feira do povão,
Vendendo peixe no sábado
E promoção no mercadão.

Pro Mudo deixo um rádio
Com grande antenão,
Pois mesmo não falando
Sabe da vida da população.
Notícia chega primeiro
Na sua informação.

Para Lelinho ou Olinézio eu deixo
Um alto-falante e um pratão,
Pra chamar Nailda de longe
Quando aperta o estômago e a fome vem então.
Que com quase oitenta e cinco
Ainda comanda a operação.

Pra prefeita Daiane Severina
Deixo espelho e cinturão,
Pois depois da tal cirurgia
Afinou mais que violão.
Agora corre pela cidade
Mais rápido que no tempo da eleição.

João da Verdura recebe
Espeto, aipim e carvão
Que na praça vende churrasco
Enquanto escuta discussão:
Política, futebol e fofoca
Que domina a reunião.

Ao doutor Jivanaldo
Conhecido como Tio Chico então,
Deixo livros de processo
E coragem no coração,
Pra brigar com a tal Coelba
E dar choque na situação.

Para Bally eu deixo
Panelas, temperos e o fogão,
Pois sua sopa famosa
Salva muita gente na ocasião,
Principalmente no sábado
Quando aparecem para comer o feijão.

Para Florisvaldo professor eu deixo
Caneta, papel e inspiração,
Que virou grande escritor
Contando história do sertão,
Guardando a memória viva
Do povo dessa região.

Para Caio César deixo
Manual de educação,
Pois vende plástico na feira
Com muita dedicação,
Mas dizem que esquece às vezes
De dar bença à população.

Rose da feira recebe
Bandeja, doce e pão,
Que vende bolo e salgado
Com muita disposição,
E no fim da feira ainda
Sai vendendo perfumação.

Nilda do Caldo eu lembro
Com panela, carrinhos e algum palavrão
Seus caldos são tão famosos
Que levantam até defunto no chão.
Quem prova diz logo:
“Isso aqui é coisa de campeão!”

As mulheres do artesanato
Recebem linha e criação,
Pois transformam coisa simples
Em arte de exposição,
Levando alegria e renda
Pra toda a população.

Flávio Montenegro recebe
Rede, peixe e profissão,
Que além de conselheiro
Também vende peixe no balcão,
Mostrando que em Várzea Nova
Trabalho não falta não.

Paulo Feitosa eu lembro
Com bicicleta e disposição,
Pedalando pelas estradas
Com Fel de Antônio Marceneiro então,
Mostrando que a saúde chega
Com pedal e dedicação.

PAUSA:
PENSA QUE ACABOU?
ACABOU, NÃO!

Mas como Várzea Nova
É cidade de invenção,
Judas que não perde nada
Nem fofoca do povão,
Resolvi deixar mais herança
Antes da surra e confusão.

Primeiro deixo um par
De tênis de corredor,
E uma garrafa de água
Pra quem tem muito vigor,
São as mulheres da pista
Correndo com muito ardor.

 

Virou febre na cidade
Essa turma na corrida,
Quem passar pela pista
Tem que ter muita medida,
Porque o pelotão feminino
Passa ligeiro na subida.

Falando em corrida agora
Deixo asas e precisão,
Um cronômetro novinho
Pra marcar cada ocasião,
Pra turma do Papa-Léguas
Que corre pela região.

Representando a cidade
Em prova e competição,
Mostrando pra todo canto
Com orgulho no coração,
Que o povo de Várzea Nova
Corre atrás de superação.

Agora deixo um presente
Que merece atenção,
Um despertador gigante
E um balde de solução,
Pra Zeca de Dona Lídia
Diminuir a gritaria então.

Porque seis horas da manhã
Ele começa o sermão,
Acorda galo e cachorro
Papagaio e cidadão,
E toda a vizinhança
Perde o resto do colchão.

Se continuar desse jeito
Com o gogó estourando o ar,
Qualquer dia alguém resolve
Sem muito tempo pensar,
Dar um banho de água fria
Pra ver se aprende a calar.

Agora deixo um capacete
E um troféu de campeão,
Pra Nei Cabeleireiro
Que virou piloto então,
Cortando vento na estrada
Com sua nova máquina na mão.

Desfila pelas cidades
Com coragem e alegria,
Mostrando que em Várzea Nova
Tem piloto todo dia,
E que o vento agora
Virou cliente da barbearia.

E como política sempre
Rende boa discussão,
Deixo mapa e bússola nova
Pra certa representação,
Tem vereador eleito
Que sumiu da população.

Foi votar e desapareceu
Que ninguém sabe onde está,
Nem na feira nem na praça
Ninguém consegue encontrar,
Quem sabe com esse mapa
Ele consegue voltar.

Também deixo um pente novo
E shampoo de qualidade,
Pra Valter de Nelito
E Jubilino na vaidade,
Que aderiram à prótese
E rejuvenesceram na cidade.

Ficaram mais elegantes
Com cabelo bem tratado,
Mais confiantes na rua
E com o pente preparado,
Mas cuidado com as esposas
Que cabelo novo é danado.

Agora deixo uma lanterna
E gerador de clarão,
Pra famosa Dona Coelba
Que vive na oscilação,
Hora apaga, hora acende
E aperreia a população.

Virou festa de pisca-pisca
Sem aviso e sem razão,
Prejuízo pra comércio
E também pra televisão,
O povo já anda dizendo
Que é teste de paciência então.

Pra completar a novela
Dessa dupla de emoção,
Deixo filtro e bomba de ar
Pra melhorar a situação,
Pra nossa Dona Embasa
Que também causa aflição.

Tem dia que manda água
Da cor de barro no chão,
Tem dia que manda vento
Rodando na tubulação,
E tem dia que a torneira
Só promete e não dá não.

Aí o povo abre a torneira
Esperando solução,
Mas fica olhando pro nada
Com balde na mão no chão,
Esperando que o milagre
Apareça no cano então.

ENCERRAMENTO

E ao povo de Várzea Nova
Deixo riso e união,
Pois cidade boa é aquela
Que se encontra na praça do povão,
Pra conversar, contar causos
E rir da própria situação.

Agora chegou a hora
Do castigo e da pressão,
Já vejo vara e chinelo
Levantado na multidão.
Quem se achou na herança
Vista logo a carapuça então!

Quem não se encontrou na lista
Nem precisa discussão:
Pegue um pau bem grosso
Com força no coração
E venha bater no Judas
Pra manter a tradição!

Autor: Florisvaldo Batista dos Santos

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