Temporariamente os Episódios do Junhão serão substituídos por textos de contos do autor Joswilton Lima. O primeiro livro que vai iniciar a jornada literária e será publicado em capítulos aos domingos é a estória fantasiosa com o título de “O Cigano Violeiro”.
As situações hilárias e as malandragens do Junhão vão continuar, porém em outro estilo. A ficção certamente irá agradar os leitores na medida que a narração do conto avançar para terminar com um final fantástico.
SINOPSE

O título do conto é fictício e narra uma estória fantasiosa, onde um sujeito bem-falante disfarçado de cigano visita fazendeiros ingênuos para vender belíssimos cavalos. Muito convincente e astucioso, consegue despertar neles a ganância para ficarem ávidos em comprar os animais.
O enredo é iniciado em uma zona rural do sertão baiano e relata a vida simples de quem mora na roça e também sobre as superstições existentes nas comunidades do interior. A estória narra o desespero dos compradores ao perceberem que foram ludibriados pelo esperto mercador de cavalos, que sumiu depois de receber todo o dinheiro que eles tinham guardado em casa.
O final do conto é surpreendente, quando descobrem que nada poderão fazer diante de forças ocultas para recuperar o dinheiro perdido. Estão amargurados porque caíram na lábia do hábil vendedor e ficou apenas a lição de que devem desconfiar de conversa-fiada que oferece grandes vantagens.
O autor
Capítulo 7
O FISCAL DA ORDEM PÚBLICA
Tempos depois, quando os fazendeiros estavam bem descontraídos, entra no salão do bar um sujeito de cor negra e baixa estatura, aparentando ter uns quarenta anos de idade. Observam que o estranho é cambota, anda coxeando e caminha muito risonho olhando para todos que estão no bar. O elemento tem um sorriso misterioso, cínico, que logo se desfaz quando chega no meio do salão. Sentindo-se bem situado, ele para, cruza os braços e fica sisudo observando o ambiente. Os fazendeiros ficam curiosos e fazem um círculo em volta do recém-chegado para analisar quem seria aquele cidadão esnobe. Apesar disso, o desconhecido aparenta não se incomodar com aqueles olhares perscrutadores.
O indivíduo continua posudo e começa a caminhar devagar com passos curtos dentro do círculo formado. Após dar três voltas como se estivesse meditando, ele para na frente de um dos fazendeiros e, sério, levanta as vistas olhando fixamente para o homem. Após alguns segundos aterrorizando o fazendeiro, o sujeito se dirige ao próximo que está no círculo, deixando de lado o que foi analisado paralisado de medo. E assim ele procede com todos que estão em volta dele, um a um, sem pronunciar uma única palavra, com os beiços arqueados demonstrando raiva e desdém por todos durante a averiguação. Os fazendeiros ficam intimidados com aquela criatura estranha fitando-os com altivez.
Os fazendeiros estão pávidos e ficam inertes por estarem sendo observados de modo inconveniente pelo desconhecido, que após fazer a vistoria fica posicionado no centro do círculo demonstrando prepotência. Os fazendeiros ficam atentos a fim de saber qual é o motivo daquele homem austero ter atitudes que está constrangendo todos. Depois de um longo silêncio, o sujeito fica com um sorriso sarcástico nos lábios e, insolente, apresenta as suas credenciais aos presentes dizendo em voz alta:
– Eu sou Petrônio, o rigoroso fiscal da ordem pública! Ninguém escapa da minha caneta punitiva, porque não tenho dó e nem piedade de alguém que infringe a lei. O meu apelido é Pepe, portanto podem se dirigir a mim dessa forma.
Nesse momento os fazendeiros se entreolham tremendo de medo do rigoroso funcionário público. Jamais haviam tido contato com uma autoridade daquele quilate. E, apesar de serem matutos, sabem que devido ao cargo que ele tem deve ser respeitado. O sujeitinho que chegou se apresentando como fiscal está sempre sorrindo, menos na hora em que se dirige a alguém. Carrancudo, ordena que os proprietários dos jegues velhos se apresentem imediatamente. Os fazendeiros ficam calados com medo de se denunciarem. Eles têm receio de que sejam autuados por aquele fiscal severo. Temem pelo futuro das suas famílias caso sejam multados, porque o ardiloso cigano Malaquias levou até o último centavo das suas economias.
O Pepe fica irado com o silêncio deles e sapateia manquejando no salão dando voltas em torno de cada um dos proprietários dos jumentos, olhando-os de cima a baixo. O sujeitinho faz beiço de zanga e novamente olha detidamente com a cara enfezada para cada um deles. Essa atitude do fiscal deixa os pobres coitados ainda mais apavorados. Então o Petronio resolve falar com arrogância, alegando que os jumentos estão sujando a rua da feira de bosta e que os proprietários vão pagar multas pesadas porque são responsáveis pela imundície dos asnos. Com a voz impostada ele fala aos fazendeiros:
– Não adianta se esquivarem das suas responsabilidades, porque eu sei o nome e endereço de todos os infratores da lei. Vocês estão enquadrados e serão punidos por praticarem crime ambiental!
A seguir informa que do alto da sua autoridade irá autuar todos com base em inúmeros artigos da lei. Depois diz que a prefeitura do município não tolera bagunceiros e nem os seus asseclas jumentos que estão sujando de merda as ruas do povoado. Os fazendeiros ficam atônitos com a informação e não acreditam que os jegues velhos que não aguentam andar estejam emporcalhando a praça da feira. Sabem que os animais não tinham ânimo para comer capim e certamente os estômagos deles estão vazios, por isso vão para o lado de fora a fim de verificarem se os animais estão realmente sujando as ruas com excrementos. Ao chegarem ficam abismados ao verem os jumentos com as orelhas arriadas e beiços caídos se movimentando de um lado para outro com os rabos levantados. Ao invés da sonolência que demonstravam antes, os jegues estão com uma incrível disposição para despejarem ininterruptamente montes e mais montes de fezes por onde passam. Os animais, indiferentes ao caos que estão promovendo, caminham despejando rumas de bosta. Os fazendeiros ficam assombrados porque sabem que o fiscal tem razão e certamente não terá pena deles quando for aplicar as pesadas multas.
Revoltados com a fraude praticada pelo cigano Malaquias, pensam em pedirem ao fiscal Pepe que perdoe a dívida das multas e, em troca, eles farão a limpeza de toda a sujeira que os jumentos estão fazendo. Porém, logo desistem da ideia, porque os jegues continuam sem parar fazendo as montoeiras de merda e eles iriam passar o resto das suas vidas fazendo a faxina na praça. Para conseguirem se livrar do problema que está deixando-os aflitos, pensam em dizerem ao fiscal Petronio que todos os jegues imprestáveis pertencem ao velho Zeca Piau, devido ao fato dele ser muito rico e teria condições de arcar com o prejuízo. Porém nada dizem por decência e também porque não iria adiantar, já que o esperto Pepe já tinha cadastrado todos os proprietários. Por isso decidem que cada um terá de assumir a sua tropa de jericos perante ao rígido fiscal, embora não sabem como irão pagar os impostos devidos.
Os fazendeiros estão muito intimidados pelo fiscal, por isso não argumentam que é obrigação da prefeitura do município realizar o serviço de limpeza pública, afinal a população paga muitos impostos. Preocupados com o futuro nebuloso que terão, eles ficam emudecidos e observam a alegria do fiscal Petrônio sapateando desengonçado com as pernas cambotas por todo o salão. O sujeitinho se diverte fazendo ameaças dizendo aos fazendeiros que não irá ter compaixão ao aplicar as multas, porque eles são os responsáveis pela sujeira na feira.
O fiscal Pepe é intransigente e afirma que após a cobrança dos impostos irá deixar todos os fazendeiros pedindo esmolas nas ruas, porque são um bando de desordeiros que estão na feira para praticar vandalismo com aqueles jumentos que defecam muito. Ao ouvirem a ameaça, os proprietários dos jegues ficam se espremendo de medo. Seu Gastão está apavorado porque viu ruir por terra os seus sonhos de um novo plantio depois que comprou os cavalos e agora não sabe o que fazer para conseguir se livrar desse fiscal desumano. Todos estão com medo das ameaças e não sabem como argumentar para se livrarem do problema, porque o Pepe é sagaz e bem preparado no seu ofício de cobrador de impostos.
Os fazendeiros estão sem alternativas e só resta a eles comentarem entre si:
– Não adiantou o velho Zeca Piau ter ido embora, porque o fiscal é esperto e vai na fazenda dele cobrar a pesada multa. O velho avarento vai perder a fortuna, porque o Pepe não vai ter pena do fujão.
Um deles fala com descrença:
– Ele não vai pagar nada, porque é rico. Todo mundo sabe que o sujeito que tem muito dinheiro nessa terra não paga imposto. Os pobres é que sustentam uma corja cheia de mordomias que manda esse fiscal para extorquir a gente.
Apesar de comentarem em tom baixo, o rigoroso Pepe ouve tudo que é dito e finge não perceber a crítica dos presentes. O fiscal da ordem pública continua sorrindo com cinismo, na falsidade. Depois fecha a cara e continua com as ameaças descrevendo sobre leis, artigos e alíneas que irá aplicar em todos os proprietários dos jumentos.









