Temporariamente os Episódios do Junhão serão substituídos por textos de contos do autor Joswilton Lima. O primeiro livro que vai iniciar a jornada literária e será publicado em capítulos aos domingos é a estória fantasiosa com o título de “O Cigano Violeiro”.
As situações hilárias e as malandragens do Junhão vão continuar, porém em outro estilo. A ficção certamente irá agradar os leitores na medida que a narração do conto avançar para terminar com um final fantástico.
SINOPSE

O título do conto é fictício e narra uma estória fantasiosa, onde um sujeito bem-falante disfarçado de cigano visita fazendeiros ingênuos para vender belíssimos cavalos. Muito convincente e astucioso, consegue despertar neles a ganância para ficarem ávidos em comprar os animais.
O enredo é iniciado em uma zona rural do sertão baiano e relata a vida simples de quem mora na roça e também sobre as superstições existentes nas comunidades do interior. A estória narra o desespero dos compradores ao perceberem que foram ludibriados pelo esperto mercador de cavalos, que sumiu depois de receber todo o dinheiro que eles tinham guardado em casa.
O final do conto é surpreendente, quando descobrem que nada poderão fazer diante de forças ocultas para recuperar o dinheiro perdido. Estão amargurados porque caíram na lábia do hábil vendedor e ficou apenas a lição de que devem desconfiar de conversa-fiada que oferece grandes vantagens.
O autor
Capítulo 5
A RECEPÇÃO NA CHEGADA
Seu Gastão ao entrar na área da feira tangendo os seus jericos, imediatamente é alvo da zombaria dos feirantes ao vê-lo naquela situação constrangedora tentando empurrar os jegues amuados até o cercado destinado aos animais que serão vendidos. Na hora imagina que o Malaquias esteve na feira bem cedo e havia contado a todos que o fazendeiro Gastão era um idiota, porque havia comprado jumentos velhos pensando que eram cavalos. Está enfezado com a avacalhação pública e, apesar da enorme dificuldade, consegue enxotar os jumentos para dentro do cercado. Ele fica abismado quando vê que a área já está cheia de muitos jegues velhos iguais aos dele. A seguir volta para a rua e atravessa a feira por entre as barracas muito envergonhado de cabeça baixa, porque as pessoas sabem que ele foi enganado pelo cigano e estão rindo às suas custas por causa da sua compra malfeita.
Durante o trajeto é acompanhado por alguns homens debochando dele, mas pouco tempo depois é informado que eles são fazendeiros e haviam caído no golpe do Malaquias. Estão na feira para também tentarem vender os jegues velhos. O capeta disfarçado de cigano violeiro enganou todos eles vendendo jumentos velhos como se fossem garanhões de raça pura.
Ao ficar sabendo que não havia sido o único a ser enganado pelo cigano, seu Gastão parou com a sua zanga e se junta aos outros fazendeiros roubados pelo cigano e logo estavam juntos dando gargalhadas. Cada um narra qual foi a conversa-fiada que o astucioso Malaquias inventou para roubar eles. Seu Gastão, apesar do seu enorme prejuízo financeiro fica aliviado por saber que o cigano aplicou o mesmo golpe em vários fazendeiros. Todos estão desiludidos porque não sabem o que vão fazer para conseguirem vender os jegues velhos, por causa das condições físicas dos animais e do excesso de oferta.
Um indivíduo intrometido se aproxima do grupo e emite uma opinião desaforada afirmando que só um sujeito sendo muito burro para cair no golpe de um cigano que só vende animais imprestáveis. Esse tipo de declaração deixa os donos dos jegues muito irritados e expulsam o intrometido de perto deles. Os fazendeiros estão revoltados e comentam entre si que o sujeito que chegou para esculhambar as vítimas dos roubos não foi ludibriado, porque não tinha dinheiro para comprar os cavalos. Logo depois se esquecem da ofensa e resolvem ir lamentar sobre os prejuízos que tiveram em um bar localizado na frente da feira, cuja fachada fica do outro lado da rua.
Ao chegarem no amplo estabelecimento, vão para o balcão para continuarem a conversa. O local é o único bar e restaurante do povoado, fato deixa o proprietário muito orgulhoso por ter clientela garantida nos dias em que são realizadas as feiras, porque fica repleto de fregueses. O dono do comércio é Melquíades, um senhor idoso de apelido Mega, que é muito usurário, rabugento e vive permanentemente zangado com tudo, mesmo que não tenha motivo. O velho Melquíades é ranzinza e sempre reclama, principalmente das suas finanças, apesar de ser o único comerciante no seu ramo que existe no lugarejo. Sempre atento a tudo que ocorre no local, fica curioso sobre o motivo da algazarra que os fazendeiros estão fazendo e aproxima-se do grupo para saber a causa de tanta zoada. Ao ser informado sobre o trambique de Malaquias que roubou todos eles, o velho fica nervoso e resolve contar que ele também havia sido enganado pelo cigano. Nesse momento o velho Mega esbraveja:
– Esse Malaquias é um caloteiro! Na semana passada chegou aqui todo posudo montado num cavalo preto. O sujeito passou o dia todo bebendo e comendo. Eu fiquei contente ao ver um ricaço bem à vontade no meu ambiente simples.
E prossegue falando:
– O malandro não parava de gabar a sua riqueza e ficava alardeando para quem quisesse ouvir que possuía um bocado de dinheiro.
Sentindo que agiu feito um idiota durante a conversa que teve com o falastrão, relata:
– Na hora fiquei preocupado e disse ao sujeito que não devia ficar se gabando, porque poderia despertar a cobiça de algum ladrão. Sem saber eu estava aconselhando um bandido, por isso ele olhou para a minha cara e ficou sorrindo com cinismo.
O velho Mega continua narrando que no meio da tarde, depois do cigano beber e comer muito e ter ficado charlando o tempo inteiro, ordenou que trouxesse a conta da sua despesa. Ao ouvir que o cigano iria quitar a conta, Melquíades disse que os seus olhos brilharam diante da perspectiva de ver moedas de ouro tilintando à sua frente, devido ao enorme consumo e à riqueza do freguês. Imediatamente correu esbaforido para o balcão do caixa a fim de somar as comandas com as despesas efetuadas pelo Malaquias. Após fazer o somatório da conta, voltou contente e entregou ao cigano um papel com a anotação do alto valor do débito. O cigano ao receber a conta com a escrita malfeita, olhou rápido e não questionou o valor. A seguir ele disse sorridente ao velho Mega:
– O coronel é um homem de muita sorte…
O velho Mega ficou curioso para saber o motivo:
– O senhor fala porque não sabe da minha luta para conseguir vender de comer há quarenta anos. Mas, disse isso por quê?
O Malaquias sorri e responde:
– Porque o seu estabelecimento é o primeiro que vai inaugurar o meu novíssimo cartão de débito, o famoso e internacional Expresso de Ouro!
A seguir tira um cartão dourado da carteira e, sempre sorridente, solicita:
– Traga a sua maquininha que vou passar o cartão no débito para pagar todas as minhas despesas.
O velho Mega não entende o linguajar do cigano, porque é um homem leigo sobre assuntos modernos. Na sua ignorância nunca tinha ouvido falar nas tais maquininhas e muito menos sobre pagamento no débito. No entender do velho, débito significa fiado e ele teme que vai sofrer um calote, então fica pensativo analisando como pode um homem tão rico não ter dinheiro nos bolsos. Desconfiado com a proposta do freguês ele fica muito enfezado em pé na frente da mesa onde o cigano está sentado. O Malaquias fica irritado ao vê-lo calado e reclama:
– Como é gajão, vai ficar aí parado? Traga logo a maquininha, porque estou apressado!
Timidamente o velho responde:
– Moço, a gente não tem esse tipo de objeto.
Ao ouvir isso o cigano demonstra incredulidade, fica sisudo e reclama:
– Não é possível?!… Não acredito que aqui não tem wi-fi!
O velho Mega fica encabulado e fala:
– Não senhor. Já tenho muitos anos no ramo de restaurante e nunca ouvi falar nesse tipo de comida.
E completa:
– Se o senhor me ensinar como preparar o tempero eu posso tentar fazer.
O Malaquias sorri da inocência dele e informa:
– Não vai ser problema, porque agora vou ao banco na cidade sacar o dinheiro e volto para pagar a conta. E garanto que vou lhe dar uma gorjeta polpuda por ter feito companhia a mim com a sua prosa muito boa.
No momento em que ouviu o elogio e a promessa de receber uma gorda gratificação, o velho Mega ficou lisonjeado e quase não se contém de satisfação. Finalmente ele havia encontrado um cidadão de bem que iria lhe gratificar por ter ouvido o seu falatório. Ele soube que as pessoas residentes na região comentavam à boca miúda que ele tinha uma prosa ruim e demorada, por isso evitavam ouvir as suas estórias repetitivas. Malaquias percebendo que ele está bem-agradecido com a sua presença, sugere falando manso:
– Eu sei que as pessoas que moram longe da cidade guardam o dinheiro em casa, correndo o risco de serem roubadas. Como estou indo agora ao banco, posso levar a grana que o coronel tem para fazer o depósito.
Sem dar tempo para o velho raciocinar, ele continua falando:
– É só anotar o seu nome completo num pedaço de papel e me entregar o montante do dinheiro, porque vou num pé e volto no outro.
E rapidamente conclui com firmeza:
– Pode cuspir no chão, porque antes da terra secar, estarei de volta! O meu cavalo é rápido igual a um raio!
O velho Mega confiando que o cigano é um homem distinto e riquíssimo, vai rápido nos fundos do estabelecimento buscar no quarto as suas economias que estão escondidas embaixo do colchão. Retorna ligeiro e entrega a Malaquias o embornal contendo todo o dinheiro que tinha guardado. O cigano recebe o volume e fica sorridente. A seguir afirma:
– Não vou conferir a grana porque sei que o gajão é um homem decente. Vou deixar esse trabalho para o caixa do banco contar o dinheiro. Não se preocupe que trarei o recibo do depósito bancário para entregar em suas mãos.
Logo depois faz uma solicitação demonstrando estar apreensivo:
– Sem querer abusar da boa vontade de vosmecê, quero que me empreste um dinheiro para eu pagar uns débitos que fiz em uns povoados antes de chegar aqui. Não é muita grana, acredito que o gajão tem no caixa a quantia que preciso.
A seguir finaliza dizendo para que o velho Mega não fique desconfiado:
– É porque na ida eu quero ir quitando os débitos e na volta do banco não vou parar em lugar nenhum. Quero vir avoando para pagar tudo que devo ao meu amigo, que é muito hospitaleiro.
O velho Mega está contente por estar sendo tratado com muita distinção e poder servir emprestando dinheiro a um homem muito rico. Entusiasmado, não tem tento para o fato de que o cigano estava lhe aplicando mais um golpe com muita astúcia. A sua mente gananciosa deduz que o cigano é um homem muito rico que irá pagar a conta e ainda vai lhe dar uma boa gorjeta. Então ele vai na gaveta do balcão e recolhe todo o dinheiro do caixa para entregar ao cigano a título de empréstimo. Estando com a posse de todo o dinheiro do velho, Malaquias monta sorridente em seu cavalo preto e parte velozmente na direção da cidade. Agradecido com a gentileza da nova amizade, o velho Mega fica esperançoso que em breve o cigano irá voltar e observa ele romper viagem com velocidade até sumir, deixando para trás um rastro de poeira na estrada.
Nota: a estória fantasiosa continua no próximo domingo com mais surpresas.









