Episódios do Junhão: ‘VIDA NA CASERNA.’

JUNHÃO

Vinte anos de idade. Levanta-se da cama perto de meio-dia e sai do quarto vestido apenas com uma cueca samba-canção de algodão, branca, com listras amarelas na horizontal. Aparenta estar ainda com muito sono. Tem os cabelos em desalinho e se dirige ao banheiro limpando os olhos vermelhos. Quando avista a mãe na cozinha reclama irritado, num tom ameaçador:

– Ninguém pode dormir em paz nesta casa! Você faz uma zoada danada com esse baticum de pratos e panelas na pia! E não me diga nada, porque eu “tou” retado!

CEIÇA

Quarenta anos de idade. Está vestida com o seu uniforme diário: um vestido leve em tecido de algodão, ornado com pequenas flores em tom pastel e a cabeça cheia de enormes bóbis, cobertos por um lenço de seda barata. Pouco tempo antes do filho acordar havia acabado de usar o liquidificador preparando um suco de jenipapo que será servido durante o almoço. Ao ouvir os desaforos do filho, fica enfezada e responde de imediato:

– “Peraí” mocinho! Você sabe que horas são?!… Já vai dar meio-dia! Não tenho culpa se você perde a noite inteira grudado no computador, isso quando não está na farra.

Revoltada com a vida irresponsável do filho, reclama alegando:

– Você deveria acordar cedo para ir procurar um emprego! Gastei uma fortuna com os seus estudos e olha aí o resultado: não conseguiu nem entrar na faculdade, porque vive na malandragem!

JUNHÃO

Ao ouvir o dichote, para na porta do banheiro, coça a cabeça e olha para ela. Com a verdade dita, fica com receio das consequências que poderão advir, então fala com a voz suave:

– Aí você “tá pegando pesado”, mainha! Eu ainda nem acordei direito e lá vem com esse papo chato de trabalho. Até parece que eu não estou me esforçando. No momento estou aguardando o resultado de uns currículos que enviei por e-mail para arranjar um emprego…

CEIÇA

Apesar do esporro que havia dado, fica preocupada com a situação do filho e relata fatos do passado:

– Eu sempre fiz “de um tudo” para lhe proteger. Quando você tinha dezessete anos falou que não queria se alistar no exército. Rebelde e cheio de rompante, disse que o motivo da recusa era porque não queria receber ordens de ninguém.

Continua a falar queixosa:

– Se você tivesse se engajado, poderia ter seguido a carreira militar e hoje não estaria mendigando nenhum “empreguinho”. A sua vida seria outra: a de um homem honrado e responsável.

Para um pouco e depois comenta:

– Mas a burra sou eu, porque fiquei com pena de você. Na realidade eu também não queria que servisse o exército. Na época eu imaginei que você, sendo subordinado, iria ser judiado por sujeitos que tinham patente superior. Eu detestaria saber que estariam obrigando o meu filhinho a marchar o dia inteiro debaixo de chuva e do sol a pino.

A seguir diz com soberba:

– Por isso mandei você ir se alistar no interior para poder ser dispensado do serviço militar. Devo esse favor ao primo Erisval que ajeitou tudo pra você lá em Baixa Grande.

Depois lamenta:

– Infelizmente o coitado não aguentou as suas travessuras e assim que você acabou de se alistar ele lhe mandou de volta a toque de caixa. Era para passar uma semana se divertindo no meio da parentada, mas devido ao seu mau comportamento, foi “inxotado” de lá.

Incoerente nas atitudes, de repente ela fica espumando de raiva. Está indignada quando se lembra da opinião que o primo lhe dera a respeito do filho. Fala demonstrando ter muito rancor:

– Depois que o miserável lhe embarcou de volta, ligou pra mim cheio de arrogância dizendo: “Ceiça, você precisa botar o seu filho na linha. Esse rapaz ainda vai lhe dar muitos desgostos na vida. Pelo que eu vi, ele não vai dar pra nada que preste”.

Muito zangada, continua o relato:

– E o sujeito “defamador” ficou o tempo todo “mim” acusando de não ter lhe dado uma boa educação doméstica. Inclusive inventou que você havia soltado gases fedorentos quando todos estavam jantando e ainda ficou sorrindo, aparentando se vangloriar do malfeito.

Revoltada com o primo, tenta justificar a atitude do filho:

– Mas pra mim ficou parecendo que ele fez o obséquio a contragosto. A gente percebe quando uma pessoa faz um favor de má vontade, porque depois fica botando defeito em tudo.

Completa a queixa com revolta, demonstrando estar magoada:

– Ele mentiu o tempo todo dizendo que você era mal-educado, mau elemento, insubordinado e um bocado de coisa ruim. Fiquei com tanto ódio do sujeito que bati o telefone na cara dele e estou “de mal” até hoje. É cada parente ruim que a gente tem… Ele que vá cuidar da família dele, porque da minha, cuido eu!

E a seguir exclama com raiva:

– Olha a petulância daquele indivíduo: querer interferir na educação do meu filho!!!!…

Depois conclui com resignação:

                – Ainda bem que você tem uma mãe protetora.

JUNHÃO

Sentindo-se confortado, bate palmas e exclama:

– Muito bem mainha!!!… Gostei de ver!… É assim que se age com esses sujeitos intrometidos! Realmente eu fui enxotado e difamado por aquele mau elemento.

Querendo inflamar ainda mais a raiva da mãe contra o primo, diz:

                – A senhora tomou uma atitude louvável, porque senão, daqui a uns tempos vai haver uma fila aí na porta com um monte de gente fofoqueira querendo dar opinião sobre a minha vida.

Oportunista, aproveita a situação para bajular Ceiça:

                – Ninguém entende a simbiose entre nós. O que esse pessoal tem é muita inveja, porque a senhora é a melhor mãe do mundo!

Ainda no intuito de obter apoio da mãe, dá a sua versão sobre os fatos ocorridos na desditosa viagem ao interior:

– Você fez certo em ter ficado inimiga dele, porque aquele seu primo é um carrasco. Ele ficou com raiva de mim só porque fiquei até de madrugada na rua tomando umas pingas com uma galera que eu conheci lá. Quando voltei pra casa o sujeito me esculhambou. Acho que se eu fosse filho dele teria tomado uma surra braba.

Ainda querendo incriminar o hospedeiro, diz sem rodeios:

– Pense aí, num sujeito mal-encarado!… Quando cheguei da farra, ele abriu a porta da casa enfezado e quase não o reconheci por causa da carranca dele. Parecia a cara de um bicho. Não vi nenhum motivo para aquele elemento ficar irado daquele jeito.

Fazendo-se de ofendido e demonstrando ter mágoa, diz:

– Ainda bem que não preciso conviver com o tal do Erisval. Até que gostei da cidade, mas eu não piso os meus pés lá nunca mais, só pra não ter que olhar pra cara de certos tipos de parentes.

Ainda buscando inimizar a mãe com o primo, diz com ênfase:

– Inclusive, ele disse que se você não fosse uma boca-aberta iria mandar uns galhos de cansanção para que me desse uma surra para que eu ficasse com o corpo coçando pelo resto da vida!

Para continuar infernizando o juízo da mãe, ele completa:

– E ainda disse mais: que a senhora também merece tomar cipoadas com vergalho de boi pra ficar toda moída! A surra era para você deixar de ser boboca e aprender a ter tino na vida. Aquele cara é muito perverso!

CEIÇA

Indignada com o que ouve, arregala os olhos, bota as mãos nas cadeiras e o interrompe perguntando nervosa:

– Ele disse isso, foi?!!!… Ah, que sujeito ordinário!… Ele que venha “mim” bater! Ainda mais com vergalho de boi! Aquele elemento está pensando que sou filha dele?! Ainda não nasceu um homem pra triscar a mão em mim!

Muito zangada e soltando fogo pelas ventas, indignada com a fofoca que ouviu, vocifera:

– Se ele gosta esfolar os outros na porrada, que espanque os filhos dele! Não vou agredir o meu filhinho só porque ele quer! Estou preparando você pra ser um “dotô” e não um surrado.

Estando muito revoltada, continua falando espumando de ódio:

– Onde já se viu um parente do interior querer ensinar como devo criar o meu filho, nascido e criado aqui na capital?!… Não vou deixar ninguém interferir, porque eu sei muito bem de como cuidar de você!

Depois conclui raivosa:

– Ora, essa!… “Mim” deixe, viu?!!!…

JUNHÃO

E para conseguir azoar ainda mais o juízo da mãe, continua com a queixa:

– Ele vive no interior acostumado a dormir cedo “com as galinhas”. Não compreende que eu sou soteropolitano, que vivo na capital e o meu ritmo de vida é outro. Eu gosto é de curtição, mas aquele elemento é muito bruto e não entende os jovens.

Ainda fazendo fuxico, sempre buscando a razão para si, diz:

– E o pior de tudo é que ele não respeitou nem a minha ressaca! Cheguei na casa às três horas da madrugada e o sujeito, na maior selvageria, às seis horas da matina empurrou a porta com tanta violência que ela bateu na parede estrondando tudo. Aturdido com a zoada eu acordei assombrado com ele gritando: “levanta logo da cama rapazinho pra ir se alistar!”.

CEIÇA

Ao ouvir o relato do filho, os olhos ficam esbugalhados na hora e coloca as mãos nas cadeiras e cisca o chão com a ponta do pé que não está apoiado no piso. Está revoltada com a atitude rude do primo para com o filhinho dela, então reage com veemência:

– Foi mesmo?!!!… Mas que sujeito descabido! Isso é jeito de acordar uma criança numa brutalidade dessa?!… Ainda bem que eu não estava lá! Porque, senão, ele ia ver!

Ainda com raiva, conclui:  

– Ai, ai!… Eu, Ceiça, ver um brutamontes desse maltratando o meu neném?!… Nem sei qual seria a minha reação!

JUNHÃO

Estando confortado com o apoio da mãe, continua o relato demonstrando estar ofendido:

– Depois do café da manhã o sujeito perverso me mandou pegar a mochila com grosseria, porque depois do alistamento militar eu tinha que chispar de lá.

Ainda não satisfeito com a fofoca que está fazendo e, querendo incriminar o primo da mãe, ele entorta a boca, amolece a língua e arremeda Erisval com trejeitos:

                – Olhe, a culpa de você ser assim é de Ceiça, aquela tonta, que não soube lhe criar no padrão dos bons costumes. Por isso você vai embora agora, porque “quem pariu Mateus que balance”.

E conclui enfezado:

– Imagine que primo abusado você tem! Sujeitinho ruim, aquele!…

CEIÇA

Fica mais indignada ainda com a queixa do filho. A seguir exclama com arrogância:

– Não “mim” diga mais nada, porque senão, sou capaz de pegar um ônibus e ir lá em Baixa Grande só para encher aquele fulano de deboche. Ele que “mim” aguarde! O meu Deus é o Senhor do tempo. Mas, enquanto eu tiver vida e saúde, você nunca mais vai precisar daquele sujeito enjoado e pernóstico!

De repente começa a revelar fatos da família e nem uma parente já falecida escapa da sanha dela:

– Ele é assim desse jeito porque puxou ao ranço da tia Miúda que era “o cão em figura de gente” pra arranjar confusão com todo mundo. A sujeita era tão birrenta que armava o maior barraco por qualquer coisa. Na época era um “Deus nos acuda” com ela brigando com a vizinhança. Era tanta desavença que só Jesus na causa. Ela era minha tia, mas a verdade tem que ser dita.

JUNHÃO

Fica contente com o suporte integral da mãe e tudo volta a ficar normal dentro do apartamento.  Aliás, não há tranquilidade naquele lar, porque de uma hora para outra pode surgir um novo bafafá.

CEIÇA

Depois de relembrar a viagem do filho que rendeu a inimizade entre os parentes, ela está ansiosa para contar uma novidade a ele. Demonstrando satisfação, diz-lhe:

– Você não vai mais precisar de ficar na esperança de conseguir um “empreguinho” qualquer. Esse “pobrema” já tá resolvido. Hoje eu fui ao supermercado e encontrei um tio do seu pai que é coronel aposentado da polícia. Ele ficou contente em “mim” ver e perguntou por você. Queria saber como você estava e fez sugestões.

JUNHÃO

Ao ouvi-la falar do encontro rebate com raiva:

– O que é isso rapaz?!… A sua vida é arranjar problema para mim. Eu não acredito que vocês foram pedir emprego para que eu seja empacotador do mercado!

Enfezado com a informação, brada:

                – Não adianta vocês armarem seus planos, porque não vou empacotar nada!

 CEIÇA

Está calma e fala aconselhando-o:

– Ouça primeiro para poder contestar depois. Não sei por que você fica nervoso toda vez quando ouve falar em trabalho. Mas, se esse fosse o caso de você se empregar para empacotar as compras dos clientes no mercado, eu não veria nada de mais, porque é um bom emprego e com a sua inteligência e competência, logo estaria sendo promovido a gerente. E num futuro próximo chegaria ao cargo de diretor geral de uma grande rede de supermercados.

A seguir volta ao assunto inicial informando qual foi o teor da conversa que teve com o tio do seu esposo:

– Lembra-se do tio Terêncio Fagundes? Você tinha dez anos de idade quando foi passar as férias na casa dele. Ele trabalhava num quartel lá no interior e pediu a seu pai para você ir ficar uns tempos com ele. Apesar de muito velho, cheio de doenças e com lapsos de memória, não se esqueceu das suas traquinagens até hoje.

E continua relatando as lembranças daquela época:

– Mesmo você ainda sendo uma criança, aprontou uma bagunça tão grande na vida do coitado que tive de ir buscá-lo às pressas. Por isso ele sempre “mim” culpou pela sua falta de educação. Aproveitando a oportunidade da conversa, ele perguntou se você ainda continuava encapetado ou se já havia criado juízo. Eu, é claro, elogiei muito o seu bom comportamento e a sua inteligência. Ele ficou encantado com a sua mudança.

JUNHÃO

Fica irritado e reclama:

– “Peraí”, criatura!… Não tinha outro assunto para o velho broco se lembrar? Eu sou o “Cristo”?!… “Tudo é eu”?!… E você é culpada, porque ficou dando trela à conversa mole dele. Não tinham outro assunto para resenhar, a não relembrar uma merda que dizem que eu fiz quando ainda era criança?! Será possível uma coisa dessa?!…

CEIÇA

Ainda está calma e tenta amenizar a situação:

– A vida é assim mesmo; nem todo mundo tem paciência com uma criança. Mas a lembrança dele é sinal de que se preocupa muito com você. Inclusive, na nossa conversa, sugeriu que eu fizesse a sua inscrição no concurso que vai haver para soldado da polícia. Ele disse que as provas iam ser moleza pra você, já que é formado no segundo grau.

JUNHÃO

Arregala os olhos, faz bico de quem está com muita raiva e grita:

– A senhora “tá” pensando que eu sou marionete, pra um velho gagá querer dar “pito” na minha vida?!… Eu não vou “sentar praça” em lugar nenhum, porque não quero virar samango! E não adianta ficar querendo forçar a barra para eu fazer o concurso, porque não quero ser alvo de gozação da galera me chamando de milico!

CEIÇA

Irrita-se quando ouve o que ele fala e aconselha-o cheia de esperança, dizendo:

– Essa tal de galera só quer o seu mal! Não são seus amigos. Quem lhe dá comida sou eu, portanto sei muito bem o que é bom pra você. Além do mais você ficaria lindo fardado, marchando no dia sete de setembro, todo enquadrado, com boas maneiras e tendo uma boa formação. Adoraria te ver desfilando no Campo Grande, todo garboso… – Conclui com a voz melosa.

JUNHÃO

Está furioso com o rumo da conversa e contesta:

– Poxa!… Quando você “encarna” num assunto, não me deixa em paz! Parece grude de chiclete mascado! Esqueça isso, porque eu não tenho a menor vocação para o militarismo.

Para reafirmar o seu ponto de vista, diz:

– Eu não quero ser policial! Você só está nessa empolgação porque não é quem vai ficar marchando o dia inteiro debaixo de ordem-unida.

CEIÇA

Ainda calma, tenta convencê-lo:

– A vocação chega depois… Além do mais, esse negócio de chamar soldado de meganha era antigamente. Hoje um “puliça” ganha um bom salário e, para ser um soldado, precisa ter muito estudo. Por isso o ordenado compensa.

E para entusiasmá-lo, diz:

– Com o seu estudo e a sua inteligência subirá rápido de posto. Vai ser bom para você e melhor ainda pra mim, quando você estiver recebendo o seu soldo.

De repente ela tem um estalo mental, coloca as mãos nas cadeiras, balança o corpo e diz em tom de zombaria:

– Espere aí!… Qual é mesmo a sua vocação, que até hoje eu não entendi?!… Você não quer estudar e também não quer trabalhar… Pelo jeito que estou vendo vai ficar velhinho sem nunca ter arranjado um trabalho!

Continuando preocupada com o futuro do filho, diz:

– Quero ver como você vai ficar, quando eu me for dessa para a outra vida. Tenho certeza de que vai ficar decaído sem saber o que fazer sem a minha proteção.

 E conclui sentenciando:

– Sozinho na vida logo vai vender barato o apartamento, gastar todo o dinheiro em farras com as quengas e depois vai virar um sem-teto à toa. A seguir vai invadir as propriedades alheias, alegando que nunca teve oportunidades na vida. É isso que você quer para o seu futuro?!…

JUNHÃO

Fica desesperado com os ataques pouco sutis e argumenta:

– Termina sobrando pra mim essas suas idas ao supermercado; parece que você só vai fazer compras pra ficar fofocando sobre a minha vida.

CEIÇA

Sentindo que está convencendo o filho, completa:

– Hoje em dia está tudo mudado. Não existe mais esse preconceito. Ser policial é ter uma boa profissão, com estabilidade, possibilidade de ascensão vertical e aposentadoria por tempo de serviço.

E para empolgar o filho a se esforçar para fazer o concurso, fala:

– O tio Fagundes, por exemplo, foi subindo de patente até se aposentar como coronel. Hoje ele tem um bom rendimento mensal, mora num ótimo apartamento no Itaigara e tem uma boa casa de praia lá na Linha Verde em um condomínio fechado. Ele vive no conforto que merece após ter trabalhado por longos anos.

JUNHÃO

Ao ouvir a informação começa a se interessar pelo assunto. Empolgado e demonstrando ganância, arregala os olhos cheios de cifrões e pergunta:

– Já que o tio é um velho com o pé-na-cova e está interessado em meu futuro, peça para ele me colocar no testamento para herdar a casa de praia e o apartamento!

CEIÇA

Muda as feições, cerra as sobrancelhas e fala em tom de repreensão:

– Claro que não vou pedir nada disso! Ele tem os filhos que serão os herdeiros. E você deixe de ficar de olho-grande nas coisas dos outros! Isso é usura, sabia?!… Por isso vá trabalhar pra construir o seu próprio patrimônio.

Irritada, diz:

– Em tempo: já fiz a sua inscrição no concurso para soldado. Portanto, vá para o quarto estudar! E só saia de lá quando estiver com as lições na “ponta da língua”!

Depois conclui, demonstrando ressentimento:

– Você vai me pagar o desgosto que deu com a mentirada sobre estar estudando na faculdade. Eu juro que se você perder essa oportunidade, todas as suas mordomias vão acabar e ainda vou falar com seu pai pra te deserdar.

JUNHÃO

Arregala os olhos e, afligido com o que ouviu, volta quieto para o quarto sem ter ido ao banheiro. Está enfurecido. Senta-se na cama e resmunga:

– Castigo miserável esse!… Que velha ranzinza! Vou ter que ficar trancado no quarto por vários meses sem ter o direito de ir à rua para farrear. A galera vai ficar retada comigo.

Depois comenta com preocupação:

– Eu não acredito que consiga ser aprovado no concurso, porque nunca consegui passar em nada…

A seguir lamenta, enquanto busca encontrar uma saída:

– Estou enrascado com um problema enorme: se eu for reprovado, a galera vai ficar fazendo gozação da minha cara, me chamando de burro, por eu não ter conseguido ser “manga lisa”.

Porém, o temor maior é das amigas de Ceiça:

– Rapaz, eu fico arrepiado só de pensar que aquelas “zé povinho” vão tocar terror nas fofocas. Vão espalhar que eu tenho deficiência intelectual. A não ser que no dia do concurso eu saia de casa e não compareça para fazer as provas…

Mas, a seguir raciocina rápido e conclui:

– Essa última alternativa é inválida, porque a coroa é pior do que cola grudenta. Tenho certeza de que no dia do concurso ela vai me acompanhar até o local onde irei fazer as provas. A peste incomodativa vai ficar me aguardando na porta do colégio até a hora da minha saída. A sujeita não me dá escapatória…

Desorientado devido ao problema, ele se deita na cama sem saber como resolver o seu dilema. Ainda pensativo, analisa uma saída para a situação. Depois resmunga:

– Que vida difícil essa minha!… A velha não me dá sossego. Parece uma sarna perebenta. Eu não tenho paz aqui nesta casa com ela querendo me obrigar a fazer o que não quero. Ela é tão burra que ainda não se convenceu de que eu detesto esse papo de trabalhar.

CEIÇA

Estando sozinha, comenta prometendo:

– Dessa vez ele entra “na linha”; “ou vai ou racha!”. Ou ele se conserta de vez ou eu não me chamo Ceiça! Não estou disposta a carregar um “peso morto” pendurado no meu “rabo de saia” pelo resto da vida.

JUNHÃO

Após muito esforço pensando, fica entusiasmado e exclama:

– Já achei uma saída que irá resolver o problema de todo mundo!

Depois completa sorrindo:

– Essa coroa é abobalhada. Vou inventar um fuxico envolvendo o tio Terêncio, aí ela vai ficar enraivada com o velho e vai me dar razão por desistir do concurso.

A seguir coça a cabeça e pergunta-se:

– Mas qual será o defeito que aquele velho gagá tem?!…

Após raciocinar muito, conclui satisfeito:

                – Esse plano é infalível.

CEIÇA

Está convencida de que o filho acolherá o seu conselho para seguir num bom caminho. Diz enternecida:

– Que glória, meu Deus! Ainda vou ver o meu soldadinho ostentando uma tarjeta bem grande colada no bolso com o nome: SD JUNINHO A+. – Pensando bem, o A Positivo do tipo sanguíneo dele seria A-Peritivo?

Empolgada com a profissão que o filho poderá ter no futuro, fala enternecida:

– Apesar de eu detestar tatuagem, quando o Júnior for promovido a sargento irei mandar tatuar as divisas do posto militar, bem grandes, nos braços dele para que todos saibam que ele é uma autoridade de patente, mesmo estando de folga e usando camiseta. Estou tão orgulhosa do meu filhinho…

JUNHÃO

Os olhos brilham quando ele acredita que achou uma solução para se safar do problema que a mãe está querendo lhe envolver. Fala empolgado:

– Vou dizer à besta velha que o tio Terêncio vivia me beliscando e me dava um monte de cascudos quando eu era menino e estava na casa dele. Aí ela vai ficar possessa e irá desistir dessa ideia absurda. A velhota não aguenta saber que alguém me maltratou.

CEIÇA

Está encantada com a futura profissão do filho. Sonha com os olhos abertos almejando um futuro brilhante para ele e fala para si:

– Assim que ele se engajar, vou pedir ao tio Terêncio para transferir o meu filho daqui de Salvador. Quero mandar o Júnior pra bem longe dessas más amizades. Esses maloqueiros que se dizem amigos, a tal da galera, estão botando o meu Juninho a perder. – Ela sempre joga a culpa nos outros pelos desvios de conduta do filho.

Ainda empolgada, determina:

– Com certeza o tio Terêncio irá falar com o colega dele que é comandante da polícia na região de Irecê para recepcionar o meu Juninho lá. Devido ao pedido, por certo o Coronel irá proteger o meu filhinho… – Conclui com a voz melosa.

Depois continua:

– Acredito que ele vai ficar encantado com a excelente criação que dei ao meu filho. Todos vão ver que o Júnior tem uma excelente formação moral. As fofocas que fazem aqui a respeito do caráter dele é por pura inveja. Todo mundo gostaria de ter um filho educado e adorável “que nem” ele.

A seguir suspira fundo e diz:

– O comandante vai ficar tão admirado com a educação do menino que irá colocar o soldado Juninho para ser o chefe da sua guarda pessoal. Tenho fé em Deus que o Júnior vai ser admirado por toda a corporação.

JUNHÃO

Embora enraivado, conclui sorrindo:

– Amanhã vou falar com ela, no macete. Ela vai ficar injuriada quando eu mentir dizendo que o pobre do tio Terêncio me judiou quando eu era criança.

Dia seguinte

CEIÇA

É meio-dia quando ela ouve o falso relato do filho que acabara de acordar. Fica revoltada ao saber que o tio Terêncio havia dado cascudos e beliscões no filho. Arregala os olhos, fica espumando de ódio e exclama:

– “Népussivel” uma coisa horrorosa dessa!!!… Ele fez isso quando você ainda era uma criança, foi?!!… E agora que está gagá fica “tirando onda” de bonzinho, dizendo que está preocupado com o seu futuro. Já vi que a gente não pode confiar em ninguém; nem nos parentes. Primeiro foi o primo Erisval e agora o tio Terêncio. Vou contar ao seu pai todas essas maldades que fizeram com você. Aí eles vão ver com quantos paus se faz uma cangalha!…

Na mesma hora fica ofegante, faltando-lhe o ar, enquanto fala com raiva:

– Mas que sujeito ordinário! Agora vem com a cara de santinho querendo que você seja soldado. Já manjei qual é a maldade dele: o vagabundo velho, “judiador” de criança, quer que você seja soldado pra mandar os colegas espancarem o meu filhinho. Estou de olhos bem abertos para o mau-caratismo daquele velho safado.

Quase sem fôlego de tanta raiva, conclui:

– Fique tranquilo meu filhinho. Você não vai mais ser soldado. É uma pena, porque a polícia perdeu um grande cidadão trabalhador e exemplar!

JUNHÃO

Vai para o quarto, sorrir e se vangloriar dizendo:

– Está brincando comigo?!… Trabalhar pra quê?! Eu sou “ninja”, velha coroca!…

Autor: Joswilton Lima

Joswilton Lima é natural de Ilhéus-Ba, mas é domiciliado há mais de vinte anos em Morro do Chapéu. Tem formação em Ciências Econômicas, mas sempre foi voltado para as artes desde a infância quando começou a pintar as primeiras telas e a fazer os seus primeiros escritos. Como artista plástico participou de salões onde foi premiado com medalhas de ouro e também de inúmeras exposições coletivas nos estados da Bahia, Sergipe e Pernambuco. Possui obras que fazem parte do acervo de colecionadores particulares e entidades tanto no Brasil, quanto em países do exterior, a exemplo dos E.U.A, Portugal, Espanha, França, Itália e Alemanha. Possui o site www.joswiltonlima.com onde tem uma mostra de algumas de suas pinturas em diferentes técnicas e estilos, sendo visualizado por inúmeros países.

Em determinada época lecionou pintura em seu atelier no bairro de Santo Antonio Além do Carmo, em Salvador, e foi membro de comissões julgadoras em concursos de pintura. Nesse período exerceu a função de Diretor na Associação dos Artistas Populares do Centro Histórico do Pelourinho (primitivistas e naif’s), em Salvador.

Como escritor também foi premiado em diversos concursos de contos tendo lançado um e-book com o título “Enigmas da Escuridão”, com abordagem espiritualista, tendo obtido a nota máxima de 5 estrelas de leitores do site www.amazon.com.br Outros contos e romances estão sendo escritos.

Concomitante às atividades artísticas sempre exerceu funções laboriosas em diversos setores produtivos, tendo se aposentado recentemente na Secretaria da Fazenda do Estado da Bahia, onde trabalhou por muitos anos na Fiscalização.

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