Episódios do Junhão: ‘O NOIVO BOMBA’

CEIÇA

Quarenta e oito anos de idade. Aguarda ansiosa o filho acordar, porque pretende contar a ele uma ótima novidade. Já são dez horas da manhã e ela percebe que ele ainda dorme profundamente, ao ouvi-lo roncar muito alto. Angustiada com a espera, resolve fazer barulho para acordá-lo enquanto faz a faxina do apartamento. Então começa a bater nervosamente a vassoura com força pelas paredes externas do quarto de Junhão simulando estar fazendo uma limpeza bem-feita.

JUNHÃO

Vinte e oito anos de idade. Acorda irritado com a zoada promovida pela mãe. Destranca a porta e sai do quarto enfezado. Ao passar pela mãe expõe a sua revolta:

– Será possível que ninguém consegue dormir em paz nesta casa!!!… O dia ainda nem amanheceu direito e você já começa com esse baticum infernal! Mas que diabo de tanta limpeza é essa?!… Garanto que é de propósito, só pra me incomodar! Que merda!…

CEIÇA

Não se importa com o esporro dele e fala demonstrando satisfação:

– Oh, filhinho, estou tão feliz!… Você devia era me agradecer…

JUNHÃO

Ainda zangado, ele para e olha para ela com a face severa. A seguir indaga:

– Agradecer porquê?!… Por você ter me acordado ainda de madrugada, no meio do sono?!… “Abra logo o jogo” e conte o que aconteceu pra você estar assim, porque essa sua alegria já está me incomodando.

CEIÇA

Está radiante e diz o motivo do seu contentamento:

– Dias antes, conversei com a minha amiga Nerinha, que mora no interior, e eu disse a ela que você já estava na idade de se casar. Ela ficou empolgada quando falei que você era muito educado, trabalhador e que ainda estava solteiro porque era muito seletivo em relação às pretendentes.

Demonstrando muita felicidade, relata:

– Ontem ela “mim” telefonou mandando lhe convidar para apresentar você a uma moça muito direita, filha única de uma família decente. Nerinha garantiu que já está tudo ajeitado com os pais da moça. Eles estão aguardando você no final desta semana, porque querem conhecer o futuro genro para dar o aval deles para o casamento.

Depois de falar dá um longo suspiro, olha para cima e exclama demonstrando felicidade:

– Deus ouviu as minhas preces!… O pai da moça é o coronel Clemente, um fazendeiro muito rico. Ele tem muitas fazendas de cacau, de gado e de café. Só de gado nos pastos ele tem pra mais de quinze mil cabeças. O homem colhe mais de trinta mil arrobas de cacau e umas vinte mil sacas de café. Ele tem terras a perder de vista, além de possuir grandes lojas e supermercados em toda a região.

A seguir, referindo-se ao filho, confidencia demonstrando alívio:

– Graças a Deus arranjei alguém pra tirar esse peso morto de dentro da minha casa. Quem sabe, quando o Juninho for um fazendeiro rico ele mude esse estilo de vida?…

 JUNHÃO

Ainda irritado, olha enfezado para a mãe e diz:

– Você para com essa armação, porque não sou “moeda de troca”; além do mais eu não sou doido de me envolver com filha de polícia, ainda mais o pai sendo um coronel.

CEIÇA

Sorri e diz contente:

– Não é nada disso! O título de coronel é porque lá no interior quem tem muito dinheiro recebe essa patente, mas não tem nada a ver com “puliça”. O mais importante é que você vai se casar com uma moça muito rica e filha de uma família tradicional.

Gananciosa, fala cheia de esperança:

– Se você der a sorte de cair nas graças do velho e da família dela, vai estar feito pelo resto da vida. E também porque a Eugênia é uma excelente moça; além de linda é muito prendada. A união de vocês dois vai dar muito gosto às nossas famílias. Irão formar um lindo casal e “mim” dar muitos netinhos. A vida de vocês com muito dinheiro vai ser um mar de felicidades!  

Depois para um pouco e fala com ressentimento:

– Se você conseguir casar com essa moça vai compensar a jubilação que sofreu no colégio. Na época em que foi expulso, eu fui igual a uma besta pra reclamar sobre o porquê de rejeitarem você. Fiquei “com a cara no chão”, quando afirmaram que foi reprovado por insuficiência intelectual.

E conclui pesarosa:

– Mas até hoje ainda não engoli o que “mim” disseram. Logo você, um menino tão inteligente, pra ser “defamado” ao receber um atestado de burro! Mas, apesar dos pesares, eu vivo sofrendo de desgosto por causa da sua inaptidão para os estudos. 

JUNHÃO

Fica revoltado porque a mãe o fez relembrar desse fato e diz enfezado:

– Lá vem você usando golpe baixo. Quando quer alguma coisa ilegal sabe jogar pesado. Isso é mau-caratismo, sabia?!…

Mas, sentindo-se rendido ante o argumento da mãe sobre os estudos, ele concorda com o casamento arranjado. Então fala resignado:

– Tudo bem… Se é assim que você quer, então eu vou pro matadouro. Já estou acostumado a ser a vítima nesta casa.

De repente fica animado e pergunta:

– Mas, e aí, já comprou a passagem?!… Já arrumou as minhas roupas na mochila?

Ao ouvir a confirmação, conclui com um largo sorriso:

– Vai ser “massa” curtir uma viagem indo ao interior!…

Ceiça não percebe, mas nesse momento aflora o instinto de malandragem do Junhão.

CEIÇA

Subserviente, continua na sua empreitada para terminar de convencer o filho:

– Nerinha garantiu que a moça é a mais linda e educada do sul da Bahia. Ela estudou nos melhores colégios de Salvador. O coronel deu a ela uma educação muito rígida.

A seguir diz para demonstrar a sua competência:

– Não se preocupe com nada: a passagem já está comprada e a sacola, bem arrumada.

E fala como será a viagem do filho:

– O motorista do coronel Clemente vai buscar você na rodoviária de Ibicaraí. Toda a família da moça vai lhe esperar na sede de uma das fazendas dele em Floresta Azul. Farão um lauto jantar, que será preparado com esmero só para recepcionar o meu querido filhinho.

JUNHÃO

Nesse momento interrompe a mãe e diz com empolgação:

                – Que legal, “véio”!… Caio disse que já foi com o primo Bruno naquela região passar umas férias na fazenda do avô deles e falou que o mulherio de lá é no “meio da canela”!

CEIÇA

Imediatamente fica irritada e o repreende:

                – Nada disso, sujeito! Você está indo para noivar e não para “raparigar”, ouviu bem, seu desmiolado?!

Depois continua falando com empolgação:

– A minha amiga informou que havendo a confirmação do noivado, o coronel irá mandar matar vários bois pra fazer um grande churrasco. Ele pretende promover uma festança para toda a região, pois terá o orgulho em apresentar o futuro genro para que todo mundo lhe conheça.

Contente com a bem-aventurança que aguarda o filho, ela diz com felicidade:

– A fazenda vai estar lotada de gente importante: empresários, políticos, fazendeiros, médicos, “adevogados” e muitas pessoas de boas condições financeiras. Depois do casamento, com o tempo ele pretende que você vá assumir a direção de todos os negócios para ser o sucessor dele. Estou tão orgulhosa de você, meu Juninho…

Suspira fundo e sonha:

– Ah, como vai ser maravilhoso eu e o Alcebíades termos um filho milionário!…

E afirma convicta para si:

– Isso significa que os meus esforços com a excelente educação que dei a ele não foram em vão. Por isso o Júnior é um menino de ouro.  

A seguir completa fazendo uma advertência:

– Mas veja como se comporta, ouviu?!… Não vá jogar tudo fora por “água abaixo” com os seus desatinos. Lá não é a sua casa, portanto seja educado e gentil, porque você estará o tempo todo sendo analisado por todas as pessoas da família da moça. Proceda com decência, porque a depender do seu comportamento o seu futuro vai estar garantido.

De repente ela fica em êxtase e começa os louvores:

– Glória a Deus! O sangue de Cristo tem poder! Até que enfim, Jesus!… Que felicidade enorme estou sentindo! Esse Juninho veio do céu! Vou na igreja para agradecer esse milagre bendito com muitas preces e aumentar o valor do dízimo que pago pela graça alcançada.

DEPOIS DA VIAGEM DELE AO INTERIOR

JUNHÃO

Na mesma noite em que chegou à fazenda em Floresta Azul, ele foi embarcado de volta, à força. No dia seguinte pela manhã ele chega em Salvador. Está cabisbaixo, apenas resmunga, atribuindo o fracasso da sua viagem à mãe:

– Desde o início eu sabia que esse negócio arranjado não ia dar certo… E o pior é que você usa golpe baixo nos seus argumentos fajutos para ficar alcovitando. Tinha nada de ficar me lembrando dos estudos para “forçar a barra”?!…

E continua a insinuar para culpar a mãe:

– Sabia que hoje em dia a gente tem que namorar muito para poder o relacionamento dar certo?! Não se pode juntar e misturar duas pessoas na mesma hora! Mas você é das antigas e não entende nada disso. Com a sua cabeça de vento quis me empurrar a torto e a direito nos “peitos” de um “coroné” do interior e o resultado é que deu nisso…

Ainda revoltado e querendo avocar a razão para si, diz para desmerecer a pretendente:

                – Você ficou o tempo todo com a boca-mole fazendo elogios à “sujeitinha” branquela com cara de songamonga, só pra me influenciar a entrar na “barca furada”.  

CEIÇA

Mesmo estando chorosa, reage com veemência à acusação arrogante do filho:

– Você é um ingrato! E ainda quer “mim” desmerecer! Eu faço “de um tudo” pra ver você se dar bem na vida e esse é o meu erro. A sina desse infeliz é descambar pro lado errado!

A seguir continua relatando sobre a viagem dele:

– Você foi muito bem recebido lá. O coronel Clemente não mediu as despesas para lhe conhecer… A minha amiga Nerinha me contou que ele estava muito contente e até “fazia gosto” do seu casamento com a filha dele. Ele já estava convencido mesmo sem lhe conhecer, só baseado nas informações dela.

Depois completa desgostosa:

– Mas isso foi antes de você chegar lá e fazer aquele papelão de moleque…

A seguir para o relato e coça a cabeça tentando atingir o couro cabeludo com a ponta do dedo indicador por cima do lenço que cobre os bóbis. A cabeça não para de fumaçar como se estivesse em chamas. Depois faz um bico com os beiços e franze a testa balançando a cabeça em sinal de desaprovação. Logo após continua contando o motivo da sua decepção:

– Nerinha contou que você “tocou terror” desde a hora em que chegou. A família da moça não quer nem ouvir falar no seu nome. Ficaram tão revoltados com as suas presepadas que lhe enxotaram de lá na mesma noite em que chegou. E você ainda “pegou o boi” porque o coronel Clemente foi condescendente e não mandou os jagunços dele lhe darem uma surra bem dada. Ele só não fez isso em consideração à Nerinha.

Depois complementa aparentando estar penalizada:

– Nerinha, coitada, ficou desmoralizada perante àquela família porque empenhou a palavra dela dizendo que você era um moço muito educado e fino. Ela está muito decepcionada com o seu comportamento desregrado.

JUNHÃO

Intervém na fala da mãe tentando argumentar:

– Ora, eu não fiz nada de errado!… O que fiz lá todo mundo faz: do pobre ao rico.

CEIÇA

Fica nervosa com o cinismo do filho e reage contando o que soube em relação ao desastroso noivado:

– Você é uma pessoa sem limites… Não adiantou eu lhe pedir pra você se comportar bem… Todo mundo faz, mas tem que ter educação. Certas coisas a gente faz quando está só no banheiro.

Continua a repreendê-lo enraivada:

– Se você não queria assumir o compromisso de casamento com a moça deveria ter sido honesto, não fazendo a viagem. Mas como é um oportunista descarado, se aproveitou da ocasião só pra viajar. Ah, sujeito!!!…

E lamenta suplicando:

– Oh, meu Deus!… Eu não sei mais o que fazer com a falta de tino desse menino!

Depois se pergunta:

– Como é que um cidadão com a consciência normal enjeita um casamento vantajoso desse?!… Você é um cabeça de bagre!

Depois afirma:

– Maluco eu tenho certeza que você não é!

Para alguns segundos raciocinando e depois fala para si:

– Estou começando a acreditar que o atestado de burro que deram a ele na escola é verdadeiro.

A seguir continua com as queixas:

– Nerinha disse que os seus desatinos começaram quando você desembarcou do ônibus. Deixou o motorista do coronel esperando na porta da rodoviária por horas, ao invés de ter ido logo para cumprir com o seu compromisso já acertado. No entanto o meu reizinho “tirado a barão” foi encher o rabo de cachaça num boteco. Quanto desvario, meu Deus!

Tristonha, fala do comportamento anti-social do filho:

– Por isso chegou atrasado e bêbado para o jantar. Ao invés de se apresentar cordialmente feito gente para todas as pessoas que estavam ali para conhecê-lo, entrou na casa “endemoniado” gritando feito um alucinado:

– Cadê o rango?! Estou morrendo de fome! Vim aqui só por causa da comida! Eu adoro comer galinha caipira com pirão de parida! Também quero cachaça destilada do alambique!

Nesse momento fica muito irritada, com os olhos esbugalhados. O rosto está vermelho em brasas e a veia do pescoço a ponto de explodir por causa da raiva que sente. Nervosa, acusa:

– Você nunca viu comida não, sua “disgraça”?! Ir pra a casa dos outros pra “mim” fazer uma desfeita dessa, “miséra”! A geladeira e o freezer daqui de casa vivem entupidos de comida por sua causa! E, no entanto, você quer aparentar para outras pessoas que anda esfomeado!

Incisiva, reclama:

– A sua vida é querer desmoralizar a nossa família, seu peste! Se a Nerinha nunca tivesse vindo aqui em casa, também ia pensar que nós vivemos passando fome, seu ordinário!

Amargurada por ver os seus sonhos desfeitos, fala:

– A família requintada da moça ficou horrorizada com a sua falta de educação. E a Nerinha ficou “sem ter chão pra pisar” porque foi ela quem lhe recomendou para o noivado.

Demonstrando um certo arrependimento ela relata:

– Também pudera… A coitada narrou aos pais de Eugênia tudo o que eu disse a ela sobre você. Falei que era um rapaz lindo, muito educado e elegante. E comentei que o meu filhinho era muito estudioso, inteligente, obediente, responsável e compenetrado. Completei os elogios afirmando que você era honesto, trabalhador, diligente, respeitoso, que detestava amizades ruins e bebedeiras. Enfim, afirmei que o Júnior era o sonho de filho que todas as mães desejariam ter um igual ao meu.

Amargurada, comenta:

– O que falei para Nerinha é a pura verdade. Se ela aumentou a conversa para se vangloriar isso é “pobrema” dela. Deus sabe que eu não minto. Se você tem algum defeito eu ainda não enxerguei.

Ela para um pouco demonstrando tristeza e depois continua a narrar:

– Como se o seu alvoroço na sua chegada não bastasse, você começou a comer parecendo que nunca tinha visto comida na vida. Em seguida passou a arrotar muito alto, depois que engolia algumas porções. Vez por outra soluçava aparentando ter náuseas seguidas de ânsias de vômito; nesses momentos parecia que ia expelir tudo o que estava comendo em cima da mesa.

Para a narração fazendo cara de nojo e depois reinicia:

– Devido a essas atitudes inconvenientes, a família da moça ficou abismada e constrangida. Ninguém teve vontade de jantar com asco de você. As pessoas estavam pávidas e ficaram impassíveis apenas observando a sua falta de modos. Nerinha não sabia aonde escondia a cara dela vendo você dando uma de “cavalo doido”.

E continua historiando o que ouviu da amiga:

– O pior veio depois, quando você terminou de jantar sozinho. Só não comeu toda a comida, porque não aguentou; mas desperdiçou bastante o que estava na mesa. Nerinha disse que em volta do seu prato, a toalha da mesa, de linho branco e toda rendada, estava muito suja parecendo que você era um bando de “papagaio comendo cuscuz”. Ficou tudo melado onde você comeu, inclusive o chão.

A seguir lamenta:

– Você sempre fez essas coisas erradas aqui e eu nunca reclamei. Mas antes da viagem eu lhe alertei de que lá não era a sua casa; que tivesse modos de gente. Com sua desobediência você agiu totalmente ao contrário, parecendo que queria “mim” pirraçar. Todos da família ficaram silenciosamente censurando como você era um mal-educado e sem costumes.

Depois continua a expor:

– Perguntaram a Nerinha se o indivíduo que estava sentado ali na mesa era realmente o mesmo rapaz requintado sobre o qual ela tinha feito muitos elogios e havia dado boas referências. A coitada “ficou num beco sem saída” achando que o motorista levou você por engano, já que eu tinha dito à minha amiga que o meu filho era uma pessoa totalmente diferente do sujeito mal-educado que estava lá fazendo aquela lambança.

Suspira ofegante como se estivesse se refazendo da amargura e depois continua a lamuria:

– Como se não bastasse tudo o que estava aprontando, levantou-se da mesa urrando feito bicho e saiu correndo agoniado já desabotoando o cinto e a braguilha da calça, ainda na sala de jantar. Ela disse que a visão foi pavorosa.

Novamente para e respira soprando com raiva. Depois conta:

– As pessoas ficaram atônitas com a sua pressa, mas logo entenderam que você corria em direção ao sanitário, porque estava soltando gases estrondosos durante o trajeto até o banheiro. A partir daí a fedentina empestou toda a casa. Todo mundo teve de sair ligeiro para o lado de fora para aguardar o mau cheiro amenizar.

Desgostosa com as atitudes do filho continua a relatar:

– O fedor desagradável vindo do banheiro se alastrou pela mansão inteira. Por causa disso tiveram de jogar fora o restante da comida e os docinhos de sobremesa que fizeram para o jantar. Até o doce suspiro de noiva, um manjar dos deuses, feito à base de claras de ovos e polvilho, foi para o lixo por causa da contaminação fétida.

A seguir lamenta a perda de tanta comida deliciosa:

– Que pena!…

Mas, ainda amargurada continua narrando:

– E você, seu “burraldo”, ao invés de ter ficado com vergonha, quando saiu do banheiro e não viu ninguém dentro da casa foi até o alpendre principal da varanda. Assim que viu as pessoas no terreiro teve a insensatez de gritar com cinismo:

– Não foi nada não, gente! Foi só um “barro” que soltei lá na privada! E ficou sorrindo enquanto batia na barriga para mostrar onde era o barreiro da sua sem-vergonhice.

Ainda triste, continua expondo o que ouviu da amiga:

– Com a maior falta de consideração, você continuou a constranger as pessoas dizendo: merda é assim mesmo; quando a gente acaba de comer alguma coisa estragada, ela fede muito.

E a queixa continua:

– Não satisfeito com todas as inconveniências que praticou, ainda teve a cara de pau de falar: comi pra caramba e a barriga está empanzinada, por isso fiquei com o corpo esmorecido pedindo cama; digam logo onde fica a suíte de luxo onde vou me hospedar.

Sentindo-se pouco à vontade em narrar as atitudes do filho, mesmo assim prossegue:

– Com a sua cara-lisa, mesmo estando na casa dos outros, você continuou ditando ordens com petulância dizendo: e tem mais, falem aos serviçais que o meu desjejum deverá ser servido às doze horas e o almoço às treze; no período em que estiver nos aposentos o meu sono não deve ser perturbado por ninguém.

Para um pouco enquanto inspira forte parecendo que o ar está lhe faltando. Sente palpitações no coração. Pouco depois se restabelece e continua a contar as impertinências do filho:

– Ainda achando pouco tudo o que fez, continuou com o disparate de ordenar aos donos da casa: digam às cozinheiras para prestarem atenção no serviço porque eu não quero ter outra dor de barriga amanhã, ouviram?!…

Apesar de tristonha com a falta de compostura do filho, continua a expor:

– Nerinha contou que nessa hora o coronel Clemente quase perde as estribeiras de tão nervoso que estava. Os bigodes do homem estavam tremendo de tanta raiva que tinha. Então ele chamou os capangas para lhe rebocarem de lá.

 Convencida de que o filho teve um livramento, conta:

– Você deu muita sorte porque eles não triscaram a mão em você e ainda compraram a sua passagem de volta. Nerinha disse que os jagunços acompanharam o coletivo até a cidade de Itabuna para verem se você estava realmente seguindo viagem. Temiam que você saltasse do ônibus no trajeto e voltasse para atazanar a família.

Ainda demonstrando desgosto fala:

– Quando lhe mandou embora, as únicas palavras que o coronel Clemente disse a Nerinha foram: é melhor que ele volte para a mãe, porque “quem pariu Mateus, que balance”!    

E aconselha afirmando:

– Você precisa saber que, quando o fígado está chiando depois de tanta cachaça, ele dá esse aviso. Jamais você deveria ter dito nada daquilo, porque a comida de lá foi feita com muito primor.

E prossegue demonstrando a sua amargura:

– Coitada daquela família… Se esmeraram tanto para receber em casa um rapaz aristocrático, no entanto quem chegou para a recepção foi um “peça peba”, embriagado para estragar o jantar requintado de todos. Esse é o troco que recebo por estar criando um mau elemento que só “mim” dá desgosto.

Depois fala zangada:

– O fedor na mansão foi tão grande que até as cozinheiras não aguentaram ficar na cozinha. O motorista também contou que durante o percurso da rodoviária até a sede da fazenda você não se comportou bem. Disse que a sua flatulência fedorenta tornou a viagem insuportável. Ele falou que não sabe como conseguiu dirigir sufocado pelo mau odor. Ainda mais porque a caminhonete estava com os vidros fechados, devido ao ar condicionado estar ligado. Não lhe reclamou porque estava conduzindo um convidado especial do coronel Clemente. Ele disse que ficou com muita raiva porque você ao ver o mal-estar dele por causa do fedor, ficava sorrindo com cinismo logo após soltar a bufa. Ele guardou o segredo e só revelou depois que a bomba explodiu.

E continua com as mágoas:

– Que vergonha que estou sentindo, meu Deus! Até os empregados do coronel perceberam o seu descaramento. Onde foi que você perdeu o juízo, menino?!…

Mas as queixas são muitas sobre o seu filhinho. Por isso, prossegue a falar magoada:

– Nerinha disse que na hora que você chegou e ela viu a sua falta de educação, queria que “o chão se abrisse” para que ela sumisse de imediato para sempre. Você envergonhou a minha amiga que empenhou a palavra dela por você. A coitada até hoje está acabrunhada diante daquela família e me acusa de ter mentido sobre a sua formação doméstica.

E fala acreditando ser ciente de que é uma mãe exemplar:

– Também pudera, quem vai acreditar que te dei uma boa orientação moral depois do arregaço que você fez lá no interior na presença de pessoas distintas?!

Depois completa:

– Eu ia lá imaginar que você era uma bomba pronta para explodir a qualquer momento?!… Ah, se arrependimento matasse, eu já “tava mortinha da silva”!

JUNHÃO

O relato da mãe faz com que ele relembre dos fatos. A cada momento que ela conta um trecho do que ocorreu durante a estada dele na fazenda da família Junqueira Belvedrowisky, Junhão sorri demonstrando satisfação pelo que fez. A seguir ele conta a sua versão buscando a razão para si:

– Ora, aquela comida me deu uma disenteria braba e eu comecei a me borrar na sala. Não sei por que tanta polêmica; só fiz dar uma “barrigada” no vaso sanitário. Se não corro para a privada na hora que senti a dor de barriga, tinha feito o serviço lá na frente de todo mundo…

Depois diz em tom de ressentimento:

– Aqui pra nós, essa sua amiga, a tal da Nerinha, é muito fofoqueira… Estou para ver uma linguaruda igual a ela. É a verdadeira língua de trapo, aquela moça velha.

Depois conclui:

– Agora vou descansar porque estou com uma ressaca terrível e muito cansado por causa da viagem miserável que fiz de volta.

CEIÇA

Ouve a fala dele em silêncio. Depois de alguns instantes que Junhão foi para o quarto, ela busca justificar as atitudes do filho:

– Ele é um bom menino. Só fez essas besteiras lá por causa de algum capeta invejoso que endemoninhou o meu Juninho…

Mesmo ele tendo confessado o seu mau comportamento, ela lança dúvidas acerca do que a amiga lhe disse sobre as atitudes do filho e comenta com a cara enfezada:

– Eu dei esse esporro nele, mas estou sem acreditar em tudo que a Nerinha “mim” disse. Esse povo rico não gosta de gente pobre, por isso inventaram essa estória pra “botar gosto ruim” e desmancharem o casamento dele. Eu conheço o meu filho; ele é incapaz de cometer tantas barbaridades como essas que ela fofocou.

Depois, aparentando “bipolaridade”, choraminga. Está ressentida, porque o seu filhinho perdeu a grande chance de se dar bem na vida. Continua falando consigo, mas demonstrando uma tristeza profunda:

– Ainda bem que o pai não vai ficar sabendo de nada dessa aleivosia do Júnior. Eu vou orar muito pra ver se Jesus aponta uma falha minha, por menor que seja, que eu tive em relação à criação desse menino.

Com uma amargura muito grande, conclui:

– O resultado de tudo isso é que perdi uma grande oportunidade de “mim” livrar dessa criatura.

Na realidade Ceiça deu uma criação totalmente errada ao filho e depois queria empurrar o abacaxi malformado para outras pessoas descascarem. Afinal, como ela mesma diz, só Jesus na causa… (só que para ambos).

Autor: Joswilton Lima

Joswilton Lima é natural de Ilhéus-Ba, mas é domiciliado há mais de vinte anos em Morro do Chapéu. Tem formação em Ciências Econômicas, mas sempre foi voltado para as artes desde a infância quando começou a pintar as primeiras telas e a fazer os seus primeiros escritos. Como artista plástico participou de salões onde foi premiado com medalhas de ouro e também de inúmeras exposições coletivas nos estados da Bahia, Sergipe e Pernambuco. Possui obras que fazem parte do acervo de colecionadores particulares e entidades tanto no Brasil, quanto em países do exterior, a exemplo dos E.U.A, Portugal, Espanha, França, Itália e Alemanha. Possui o site www.joswiltonlima.com onde tem uma mostra de algumas de suas pinturas em diferentes técnicas e estilos, sendo visualizado por inúmeros países.

Em determinada época lecionou pintura em seu atelier no bairro de Santo Antonio Além do Carmo, em Salvador, e foi membro de comissões julgadoras em concursos de pintura. Nesse período exerceu a função de Diretor na Associação dos Artistas Populares do Centro Histórico do Pelourinho (primitivistas e naif’s), em Salvador.

Como escritor também foi premiado em diversos concursos de contos tendo lançado um e-book com o título “Enigmas da Escuridão”, com abordagem espiritualista, tendo obtido a nota máxima de 5 estrelas de leitores do site www.amazon.com.br Outros contos e romances estão sendo escritos.

Concomitante às atividades artísticas sempre exerceu funções laboriosas em diversos setores produtivos, tendo se aposentado recentemente na Secretaria da Fazenda do Estado da Bahia, onde trabalhou por muitos anos na Fiscalização.

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