Episódios do Junhão: ‘NAS GARRAS DA JUSTA’

JUNHÃO

Trinta e oito anos de idade. Indiferente aos problemas com a paternidade dos filhos que deveriam deixa-lo aflito, no entanto, está tranquilo no quarto ouvindo música e dançando. Ao som do rock, agita-se requebrando o corpo e balançando a cabeça de modo aleatório, enquanto simula tocar uma guitarra. Nem de longe tem o comportamento de um homem que já colocou quatro filhos no mundo. Está envolvido com a sua diversão esquecido do mundo, quando, de repente…

CEIÇA

Cinquenta e oito anos de idade. Abre a porta do quarto de modo abrupto. Furiosa, está com os olhos esbugalhados, envolta em labaredas e expelindo fogo pela boca. Muito irritada com a zoadeira, grita:

– Que tormento é esse, seu peste?!… Esse tipo de música horrorosa é pro diabo ouvir lá nos quintos dos infernos! Desliga logo a zorra desse som, vagabundo!…

E continua com a reclamação:

– Você não mora sozinho neste quarteirão! Esse som diabólico mata qualquer cristão dor de cabeça, infeliz!…

JUNHÃO

Abaixa um pouco o som e continua dançando sem se importar com os esporros da mãe. Para ele a vida parece ser um mar de rosas e apenas resmunga:

                – Poxa!… Parece que a diversão dessa coroa é viver perturbando a minha paz de espírito.

CEIÇA

Tendo a impressão de que foi atendida ao vê-lo abaixar um pouco o volume do som, fica conformada e ameniza as feições. Volta para a sala e senta-se na poltrona. Nesse momento o telefone toca. Ao atender a ligação, ela ouve a voz de um homem que se identifica como sendo advogado. O mesmo afirma que irá dar entrada de uma queixa na justiça contra ela para que seja obrigada a pagar as pensões alimentícias devidas aos netos. Na conversa, ouve-se apenas o que ela fala:

– Então, quer dizer que o senhor é “adevogado” de uma tal associação de mães solteiras dos filhos de Júnior? E o que eu tenho a ver com isso?!…

O advogado esclarece que as mulheres vão prestar queixas contra ela para que seja responsabilizada pelo pagamento das pensões que nunca foram pagas. Ceiça fica escandalizada com o que ouve e exclama raivosa:

– Aquelas almas sebosas deram parte de mim na justiça, foi?!… Acabei de crer que hoje em dia o errado virou certo. Agora eu vi “merda aumentar de preço”!…

Ele dá outra informação que a deixa enervada. Ceiça grita assustada:

– O quê?!… O senhor tem certeza disso?! Então essa presepada é verdade?!… Quer dizer que as quatro malandras se uniram pra “mim” extorquir na Vara de Família?

O advogado diz alguma coisa de forma incisiva e ela tenta se defender:

– Mas “dotô”, eu não fiz filho em ninguém!… Pra seu governo eu sou mulher, entendeu?!… Por isso não tenho obrigação de pagar pensão alimentícia pra ninguém.

A seguir volta a ficar calma e começa a contar a sua versão da história tentando avocar a razão para si:

– Vou contar a verdade de como foi que iniciou essa balbúrdia em minha vida. O meu filho é um estudante inocente que está sendo vítima dessas vagabundas.

Ele a repreende por causa do termo usado e Ceiça, desaforada, contesta:

– É cada uma que eu vejo!… Que injustiça é essa?! Então, quer dizer que eu posso responder a um processo só porque estou dizendo a verdade? Pois, elas são isso mesmo que falei e pronto!

Depois comenta injuriada:

– Hoje em dia ninguém pode dizer mais nada que aparece um infeliz da boca-mole ameaçando processar. Isso é fim de mundo!

Resolve parar com a agressividade e, demonstrando uma certa humildade, argumenta sobre o fato com a voz lânguida:

– Olhe “dotô” Aroldo, eu sou uma mulher de prendas do lar; portanto não tenho ocupação remunerada. Por isso não tenho condições financeiras pra andar distribuindo dinheiro a torto e a direito pra essas fulanas maliciosas que seduziram o meu filhinho.

Angustiada com a situação, prossegue falando:

– Primeiro chegou aqui em casa uma sujeita parideira, uma tal de Marlene, que abandonou um pivete na minha porta; dava pena de ver o bichinho… Era só o osso e o couro, coitadinho…

O homem volta a falar alguma coisa e ela se irrita com a interrupção e reclama:

– “Peraí”, “deixa eu” falar!… Porque senão eu morro entalada! Quando o pestinha estava gordinho de tanto comer, ela veio aqui no maior atrevimento.

Ainda zangada ao se lembrar do fato, continua a falar:

– Pra enrola não ir adiante, dei um dinheiro pra não ficar olhando pra cara nojenta dela. Assim que pegou a grana, a miserável escanchou o “mandú” nas cadeiras e se picou com a cara enfezada. Portanto, agora ela que se vire pra dar “de comer” ao filho.

Ao se lembrar de Marlene, fica tremendo de raiva e sente falta de ar. Logo depois reinicia a fala:

– Quando eu pensei que o “pobrema” tinha acabado, apareceram mais três vigaristas querendo dar um golpe de estelionato em mim.

Logo depois ela fala suplicando no intuito de defender o filho:

– Isso tudo que elas falam é mentira, moço! O Juninho é um aplicado estudante universitário e não tem tempo a perder pra ficar andando atrás de vadias. A prova do que digo são as excelentes notas dele na faculdade de engenharia.

Tentando sensibilizar o interlocutor, informa:

                – Acredite senhor, o meu filho é um desempregado crônico, por isso não tem condições de pagar pensão às quengas que forçaram ele a fazer os filhos nelas.

Novamente o homem diz algo e Ceiça contesta:

– Já lhe disse que o Júnior é inocente! Se ele fez algum “inxame” de paternidade eu nunca soube. Com certeza essas fuleiras devem ter falsificado os resultados para darem positivos.

O advogado comenta sobre a lei de pensão alimentícia e ela não gosta do que ouviu e refuta:

– Pra cima de mim, não, jacaré!… Se quiser fazer justiça que procure as mães delas, que também são avós! Pra resolver o “pobrema” mande o Juiz obrigar as “véias” a cumprirem as obrigações delas.

Achando pouco o que diz, completa:

– As velhas corocas são culpadas por largarem as filhas à toa no mundo. Por causa dessa facilidade, as fulaninhas viram parideiras e vão explorar pessoas inocentes. E o pior é que ainda acham malandros pra apoiar os erros delas. Inclusive você!

O advogado fica nervoso e diz que vai lhe impor os rigores da lei através da justiça. Quando ela percebe que será obrigada a assumir a responsabilidade, tenta sensibilizar:

– Meu senhor, eu sou apenas a avó, então porque tenho que pagar a pensão judicial a filhos que eu não fiz?…

Nesse momento, o advogado, que já está zangado, é firme ao esclarecer sobre as leis nas quais poderá enquadrá-la e ela fica indignada. Esquece-se de que ainda não é idosa, mas argui a seu favor gritando feito uma desvairada:

– Hem?!… Isso é lei aonde?!… Que lei é essa que diz que o Estatuto do Menor é maior do que o Estatuto do Idoso?!… Nunca vi na vida criança ter mais poder do que um adulto.

Ao perceber que seus argumentos estão falhando, fica embrutecida e ameaça:

– Por causa desse absurdo não vou pagar nenhuma pensão; quem fez a vagabundagem foram eles!!!…

O advogado já não está aguentando as trapalhadas dela e afirma que não adianta ela ficar choramingando porque a punição é certa. Temerosa com o que ouviu, fica resignada e fala:

– Pode deixar que eu já entendi tudo… Infelizmente, por causa dessas leis fajutas, o errado virou certo.

Demonstrando desgosto porque o resultado da conversa não saiu do seu agrado, conclui a conversa com desaforo, aproveitando para ofender o advogado:

– Você que é rábula da tal associação mixuruca, não se preocupe porque o responsável pelas falcatruas vai assumir o erro dele. Passar bem, sua carniça!

Imediatamente desliga o telefone com medo da resposta e fica encolerizada. Lança fogo e fumaça para todos os lados. Está explodindo de raiva e berra desesperada:

– Venha aqui na sala, canalha!… E desligue o diabo desse som infernal!…

JUNHÃO

Sem entender o motivo da convocação aflita, desliga o som e vai para a sala aparentando estar assustado. Chega confuso com os olhos arregalados temendo pelo pior.

CEIÇA

Está vermelha de ódio. Raiventa, vocifera:

– Tome as providências urgentes!… Assuma os seus erros, “fela da puta”! Já estou cansada de tanta aleivosia que você faz! Não aguento mais os erros estourando nas minhas costas!

JUNHÃO

Fica calado sem entender a causa da reclamação. Isso porque está tranquilo por achar que deve ser alguma piração da mãe, já que acredita não ter feito nada de errado.

CEIÇA

Exalta-se com o silêncio dele e esculacha:

– Depois que faz o malfeito fica aí com a cara de songamonga. Não adianta você ficar feito tolo fingindo que não entende nada, porque eu te conheço muito bem!

E determina:

– Escute bem!… Eu estou mandando você ir logo procurar as suas quengas e garanta a elas que vai assumir os seus filhos, entendeu agora, seu ordinário?!…

JUNHÃO

Continua sem entender a angústia dela e assusta-se com o xingamento, porém permanece calado.

CEIÇA

Está possessa com a possibilidade de vir a ser punida pela justiça. Grita colérica:

– Você quer “mim” arrombar, seu corno leviano?!… O resultado das suas esbórnias está sobrando pra mim, seu peste!

JUNHÃO

Ainda confuso, arregala os olhos e olha para os lados sem parar. Está atônito tentando entender o motivo de tanta confusão.

CEIÇA

Está furiosa, soltando fogo pela boca. Continua gritando:

– As suas periguetes de “ponta de rua” estão querendo mandar “mim” prender na penitenciária de “Pedra Preta” por sua causa, seu desnaturado!…

Depois esbraveja determinando:

– Vá conversar com aquelas imundices pra “mim” tirar do “pobrema”. E arranje com urgência um emprego, um “bico”, uma “viração” ou qualquer coisa que dê pra pagar as pensões alimentícias dos seus bastardos!…

Ainda enraivada, conclui:

– As sujeitas birrentas estão com essa picuinha comigo porque você é um “malandrão” que fez o errado nelas e depois tirou o corpo fora!…

JUNHÃO

Surpreso com a declaração de Ceiça, esbugalha os olhos demonstrando estar assustado. Fica nervoso ao ouvir a ordem para que arranje um emprego. Para se vingar, manga dela dizendo:

                – Não é uma má ideia você passar uns tempos no presídio, pelo menos voltaria ressocializada…

CEIÇA

Fica revoltada e rebate zangada:

                – Quem merece ir pra cadeia é você, “miséra”!

Ainda furiosa, ameaça:

– Ou você arranja a zorra de um trabalho ou vai ter que ir morar nas casas das sogras, está “mim” entendendo, Júnior?!…

Não satisfeita, debocha:

– Aí elas vão ver com os próprios olhos o “bicho preguiça” que você é!…

E continua zombando:

                – Diga às velhotas, com a sua vigarice, que elas fiquem sustentando você até o dia em que o seu pai, que é fazendeiro milionário, comece a mandar dinheiro pra bancar vocês.

A seguir dá uma sonora gargalhada mangando dele.

JUNHÃO

Fica apreensivo; olha para ela com um sorriso maroto e encolhe os ombros, como se estivesse dando pouca importância ao assunto. Deixa Ceiça falando sozinha e volta para o quarto. Despreocupado, liga o som com o volume bem alto. Depois comenta com cinismo:

– Pô! Que velha mais desgraçada… Parece que não quer que eu tenha paz. A sujeita vive fazendo bafafá sem necessidade.

A seguir diz com raiva:

– Agora deu para querer ficar empurrando as broncas dela pra cima de mim. É cada disparate dessa criatura aluada que eu tenho que aturar…

 Não suportando as queixas e zombarias da mãe, resmunga enfezado:

– Por causa desses desatinos, acho que ela precisa de um tratamento psiquiátrico. Só não providencio o internamento dela no Juliano Moreira, porque preciso dela aqui em casa.

Sorridente, afirma sobre os deveres da mãe:

– Afinal, quem vai lavar as minhas roupas, fazer a comida e me dar dinheiro para as farras?  

A seguir faz queixa sobre a sua situação:  

– Eu sou um sofredor aqui nesse apartamento. Se eu não mantiver a calma sou capaz de endoidar com as maluquices dela.

Depois fala demonstrando satisfação:

– Essa coroa é incoerente; nunca trabalhou e agora quer me obrigar a arranjar um serviço. Ela não quer enxergar que eu não sou afeito a trampo e que a obrigação de pagar as pensões é dela.

Não satisfeito com o escrache, continua debochando da mãe:

– Eu não pedi pra nascer; me pariu porque quis. Portanto, como ela mesma diz: “quem pariu Mateus que balance”.

E conclui sorrindo com cinismo:

– É a mulher mais burra que já vi. Até hoje ela ainda não entendeu que eu sou um ninja!…

Autor: Joswilton Lima     

Joswilton Lima é natural de Ilhéus-Ba, mas é domiciliado há mais de vinte anos em Morro do Chapéu. Tem formação em Ciências Econômicas, mas sempre foi voltado para as artes desde a infância quando começou a pintar as primeiras telas e a fazer os seus primeiros escritos. Como artista plástico participou de salões onde foi premiado com medalhas de ouro e também de inúmeras exposições coletivas nos estados da Bahia, Sergipe e Pernambuco. Possui obras que fazem parte do acervo de colecionadores particulares e entidades tanto no Brasil, quanto em países do exterior, a exemplo dos E.U.A, Portugal, Espanha, França, Itália e Alemanha. Possui o site www.joswiltonlima.com onde tem uma mostra de algumas de suas pinturas em diferentes técnicas e estilos, sendo visualizado por inúmeros países.

Em determinada época lecionou pintura em seu atelier no bairro de Santo Antonio Além do Carmo, em Salvador, e foi membro de comissões julgadoras em concursos de pintura. Nesse período exerceu a função de Diretor na Associação dos Artistas Populares do Centro Histórico do Pelourinho (primitivistas e naif’s), em Salvador.

Como escritor também foi premiado em diversos concursos de contos tendo lançado um e-book com o título “Enigmas da Escuridão”, com abordagem espiritualista, tendo obtido a nota máxima de 5 estrelas de leitores do site www.amazon.com.br Outros contos e romances estão sendo escritos.

Concomitante às atividades artísticas sempre exerceu funções laboriosas em diversos setores produtivos, tendo se aposentado recentemente na Secretaria da Fazenda do Estado da Bahia, onde trabalhou por muitos anos na Fiscalização.

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