Nos EPISÓDIOS DO JUNHÃO: ‘AULA VAGA’

O início dos episódios

As estórias desse seriado são comédias onde os capítulos relatam tramas que ocorrem em um ambiente familiar. Os debates entre mãe e filho ocorrem dentro de um apartamento de dois quartos no bairro da Pituba, em Salvador, capital da Bahia, Brasil. Alcebíades é o chefe dessa família, porém viaja muito numa rota pelo sertão da Bahia porque é vendedor de produtos para lojas de materiais de construção. Devido ao alto custo para manter a esposa e o filho, ele trabalha muito, quase não tendo tempo de ir para casa. Graças ao seu esforço no trabalho conseguiu comprar na “época das vacas gordas”, tempo em que fez boas vendas, um apartamento de classe média onde a família mora.

Por estar sempre viajando a trabalho ele teve que deixar a educação do filho sob o encargo da esposa Ceiça. Ela é uma mulher franzina, simples, bem-disposta, nascida no semiárido baiano, com o curso primário incompleto. Na realidade ela pouco estudou porque morava na roça. Conheceu Alcebíades quando ele foi trabalhar na região em que morava.

Naquela época ela era uma mocinha sorridente de dezessete anos, saliente, de cabelos negros e cacheados. Ao ver o rapaz alto, alourado e bem falante se apaixonou à primeira vista. Faceira, logo se achegou dele e um ano depois estavam casados. Houve uma festança com muitos comes e bebes na casa da família dela.

Felizes, após o casamento foram morar em Salvador. Quando Ceiça tinha vinte anos pariu o seu rebento. Orgulhoso com o nascimento da criança, Alcebíades coloca o seu nome no registro do filho por acreditar que o Júnior seguiria os passos do pai, sendo no futuro um homem decente e trabalhador. Enquanto o pai viaja muito para trabalhar, o filho vai crescendo sendo paparicado pela mãe e tendo todas as suas vontades atendidas. Por causa do excesso de proteção de Ceiça o menino cresce se tornando imperioso; um verdadeiro reizinho dentro de casa. Tudo que ele fazia de errado a mãe sempre achava graça e ainda se vangloriava com as amigas sobre a esperteza do filho.

Ceiça mostra-se uma zelosa dona de casa, mas, no entanto, erra ao criar o filho sem limites. Enquanto isso, o tempo vai passando e aquela criancinha agora já está grande e dando muito trabalho e preocupações à mãe. E as despesas que o pai tem para manter o lar estão enormes exigindo que ele sempre trabalhe mais, quase sem folgas.

Apesar da esposa perceber a índole perdulária do filho, ela esconde do marido para onde está desviando o dinheiro das despesas. Alcebíades não tem conhecimento dos desmandos que há em sua casa e, principalmente, que de nada adiantou colocar o seu nome no filho porque Ceiça modificou a formação do caráter do menino com muitos mimos. A mãe também esconde do marido todos os malfeitos, artimanhas, trambiques e malandragens praticadas pelo filho.

Apesar do conteúdo apresentar semelhanças, no entanto são meras coincidências.

 JUNHÃO

Dezoito anos de idade. São sete horas da manhã e ele ainda está no quarto deitado em sua cama. Havia chegado da farra às quatro horas da madrugada. Dorme profundamente como se estivesse desmaiado. Ainda está vestido com as roupas que saiu na noite anterior. Estando bêbado não conseguiu nem tirar os sapatos antes de se deitar. Devido ao excesso das misturas alcoólicas que consumiu, sentiu tanto calor durante a noite que empurrou o edredom para o chão. De vez em quando ressona alto e exala um mau odor terrível de bebida alcoólica que incendeia o quarto.

O despertador toca diversas vezes até parar por completo. O seu sono está tão pesado que nem mesmo o som estridente da campainha do relógio conseguiu acordá-lo.

MÃE

Trinta e oito anos de idade. Usa um vestido barato com florezinhas em tom pastel. Os cabelos mal-amanhados estão presos de forma displicente por enormes bóbis. Para concluir a desarrumação dela, usa um lenço de seda barata cobrindo a cabeçorra o que lhe dá a aparência de um ser extraterrestre zanzando dentro do apartamento. A sua ocupação diária é cozinhar e cuidar da casa se esmerando na limpeza. Muito zelosa ela passa um pano aqui, uma vassourada acolá e assim ela preenche o seu dia.

Porém, na realidade, a sua ocupação principal é cuidar do filho, um jovem folgado, despótico, cheio de direitos e que foi criado desde a tenra infância sem saber o que é limites. Cresceu sendo satisfeito em todos os seus desejos e sem saber quais eram os seus deveres. Por causa dessa criação ele se tornou um senhor absoluto dentro de casa. E Ceiça continua se esforçando para atender a todas as vontades do Júnior. Por falar nele, a mãe se lembra do Junhão ao olhar o relógio na parede da cozinha. Vê que o horário dele sair de casa para ir à aula já está ultrapassado e toma um susto. Nesse momento ela fica enfezada e as suas feições mudam de repente: arregala os olhos, solta fumaça pelo nariz e joga a vassoura de lado.

Está enfurecida porque ainda não ouviu nenhum ruído que indicasse de que ele já havia se levantado da cama. Muito nervosa, vai ligeiro para o quarto do filho espumando de raiva. Quando chega junto à cama dele, esbugalha os olhos e fica desesperada ao ver que ele ainda está dormindo, roncando e nem se mexe. Fica revoltada e dá um grito estrondoso:

– Ô criatura, você não ouviu o despertador tocar, seu merda?!!!… Levanta logo porque já passou da hora de ir pra faculdade!…

A seguir tapa o nariz com a mão e exclama:

– Misericórdia!!!… Que fedor miserável de cachaça é esse?!… O quarto “tá impistiado” com o seu bafo de onça!… “Crém-Deus-pade”, que homem fedorento!

JUNHÃO

Está ressonando sem ouvir nada. Continua inerte, apesar da zoadeira que a mãe está promovendo dentro do quarto.

MÃE

Ainda apertando as narinas para não sentir o fedor que irradia no quarto, continua brava, soltando fogo e fumaça por todos os poros. Percebendo que ele não se levanta, esbraveja:

– Ô seu folgado, levanta logo da cama porque senão perde o horário da aula!… Acorda, cachaceiro “duma figa”!

JUNHÃO

Depois de muito barulho ele acorda e abre os olhos remelentos. Mas, ao contrário do que a mãe espera que se levante rápido, ele muito lentamente se estica, espreguiçando-se na cama. Tenta se levantar, mas não consegue porque a cabeça está “rodando”. Percebe que está com ressaca da bebedeira na noite anterior. Por isso continua deitado e, tranquilamente, volta a dormir.

MÃE

Irritada com a demora dele em se levantar, grita:

– Ô “miséra”, você é surdo?! Não “tá mim” ouvindo não, é?!… Levante logo traste, porque senão eu vou ser obrigada a te quebrar no pau!…

A seguir completa:

– Se eu estivesse dizendo que tinha uma “piriguete” te telefonando, você levantaria correndo pra ir atender, mas como é para os estudos fica aí na “espinha mole”, sem querer se levantar.

JUNHÃO

Embora ainda esteja sonolento, ele acorda a pulso e fica mal-encarado devido ao bolodório alto no seu “pé do ouvido”. Tenta aparentar calma e responde com a voz rouca:

– Calma, já acordei… Não vou levantar, porque hoje é aula vaga.

MÃE

Muito nervosa, esbraveja:

– Aula vaga o quê, preguiçoso!… Você é um cara de pau! Já liguei pra faculdade e disseram que hoje tem aula, sim!

JUNHÃO

Sentindo que a desculpa falhou, fica dissimulado e tenta arranjar outra saída:

– Devo ter me enganado com a data da aula vaga… Ainda não consegui me adaptar com os horários malucos deles.

MÃE

Zangada, contesta:

– Engano nada, malandro!… Você perdeu a noite na farra e deve “tá” com ressaca, pinguço!…

Depois comenta lamuriando:

– Não sei a quem esse pé de cana puxou. Ele deve ter aprendido esse vício maldito com as más companhias dos colegas. Um menino criado com tanto zelo… E não foi por falta de conselho, porque eu sempre adverti: cuidado com certas amizades…

Ainda enfezada ela fala:

– “Taí” o resultado; não adiantou os meus conselhos! Sempre dei a minha vida por ele. E olhe o troco que recebo em casa: um biriteiro, um futuro “pé inchado”, um sem futuro.

Desiludida, conclui demonstrando alívio:

– Ainda bem que seu pai, coitado, trabalha viajando, porque senão morreria de desgosto ao ver você nesse estado todos os dias.

JUNHÃO

Acuado, argumenta tentando reverter a situação:

– Eu só tomei um suco de maracujá e cheguei cedo essa noite. Às vinte e duas horas já estava em casa e fui dormir.

MÃE

Está irada e contesta de imediato:

– Mentira sua!… Eu esperei por você até uma e meia da madrugada!… Depois cansei de tanto esperar, fui dormir e você ainda não tinha chegado em casa!… O suco que você tomou foi de pinga! Que cabra sem-vergonha e mentiroso!

JUNHÃO

Ainda calmo, inventa outra desculpa:

– Então o problema é que esse relógio meu está com defeito. Mas a culpa é sua que compra relógio contrabandeado pra mim, só porque é mais barato.

MÃE

Ao ouvir a acusação ela procura corrigir o seu erro falando:

– Oh, meu filhinho, realmente a culpa é minha! Pode escolher um relógio porreta que eu compro.

JUNHÃO

Percebendo que está convencendo a mãe ele dá a última cartada fazendo uma queixa:

– Além do mais, estou com muita dor de cabeça. Não aguento nem me mexer.

MÃE

O rosto dela transmuda ao ouvi-lo dizer que está doente. Abaixa a cabeça e mostra um semblante tristonho, pesaroso, decaído. Angustia-se com a dor simulada por ele. Fala resignada:

– Tá bom… Não precisa se levantar. Vou trazer um “remedinho” pra te dar, meu filhinho… Jamais irei deixar você sofrendo de dor de cabeça. Num instante estarei de volta com um chá pra você tomar. Trarei a chave da porta para você segurar apertando na mão para evitar que tenha ânsia de vômito por causa do gosto ruim.

JUNHÃO

Ao ouvir isso, continua deitado. Quando a mãe sai do quarto ele vibra comemorando: balança simultaneamente os braços e as pernas pra cima exaltando a sua vitória por ter enganado a besta da mãe. Depois faz o “V” da vitória com os dedos e fica quieto aguardando a mãe voltar com o chá. Certamente irá enganá-la mais uma vez, jogando fora o líquido pela janela do quarto.

E comenta sorrindo:

– Essa amalucada pensa que é sabida e tem o controle da minha vida.

MÃE

Enquanto isso está na cozinha remexendo todos os armários. Não consegue encontrar as folhas curativas para fazer o chá. Está muito nervosa e diz tristonha:

– Coitado do meu filhinho. O “pobrezinho” está morrendo de dor de cabeça e eu não consigo achar umas folhas para fazer um chá.

Demonstrando revolta ela diz:

– Mas que merda! Aqui eu deveria ter pelo menos o chá de boldo para curar o meu menino. O coitado vai ficar sofrendo por causa da minha incompetência.

Penalizada com a dor de cabeça do filho ela afirma:

– É o jeito eu dar um “compromido” pra aliviar a dor que ele está sentindo. Eu fico com dó quando vejo o “bichinho” sofrendo…

Depois deduz o motivo do sofrimento dele:

– Essa dor de cabeça deve ser causada por uma sinusite que ele pegou devido à friagem e ao sereno que ele toma todas as noites nessas farras que faz. Tenho tanta pena quando vejo o meu menino sofrendo…

Autor: Joswilton Lima

NOTA DO AUTOR

Apresento aos leitores dos “Episódios do Junhão” o meu livro de contos “Enigmas da Escuridão”. São quatro estórias com finais surpreendentes. Os contos relatam com minúcias situações dramáticas de seres humanos e, às vezes, divertidas. Esse livro obteve a nota máxima de leitores do site amazon, por isso acredito que será uma boa leitura para todos. Para ler, acesse o link abaixo:

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