Está um sucesso só: EPISÓDIOS DO JUNHÃO VIII – “BORA PÁ” PRAIA, GALERA!!!

Sumário:

A mãe manda Junhão representá-la em uma festa grã-fina numa mansão à beira-mar. A enorme casa pertence a um conde italiano e irá reunir a nata da alta sociedade baiana. Então ele aproveita para levar seus amigos de uma favela de Salvador. Será que essa aventura vai terminar bem? 

MÃE

Cinquenta e um anos. Está radiante com a ligação telefônica que recebeu de uma sobrinha que há muito tempo não mantinha contato com ela.

JUNHÃO

Trinta e um anos. Estava na rua e chega despreocupado em casa. Percebe que há uma atmosfera diferente no ambiente. Ao contrário de outras vezes, a mãe está sorridente. Embora ele esteja curioso para saber o motivo de tanta tranquilidade, fica quieto.

MÃE

Não se contendo de contentamento, resolve contar a novidade:

– Sabe quem me ligou hoje? Foi a sua prima Cremilda! Ah, eu estou “tão” feliz!…

JUNHÃO

Enciumado, demonstra indiferença. Mas resolve falar com irritação:

– Sim!… E daí?!… O que ela queria? Você disse a ela que o apartamento aqui é pequeno e que já está lotado?! Que aqui não tem vaga prá mais ninguém?!… “Mande ela” se arranchar em outro lugar, porque aqui não é albergue!

MÃE

Está tão esfuziante que não ouve o que ele diz. Elogia a sobrinha:

– Ela sumiu esse tempo todo porque estava “ralando” na Europa. Coitada, saiu daqui “pobrinha” e deu sorte na vida. Casou com um conde italiano muito rico e vieram morar aqui em salvador. Agora ela é muito chique; é da alta sociedade!

JUNHÃO

Continua desinteressado pelo assunto e pergunta de modo rude:

– Sim, e daí?!… Já que agora é “ricona”, ela mandou uma grana pra gente?

MÃE

Está tão relaxada que não dá importância à forma grosseira da pergunta do filho e continua:

– E daí é que ela vai morar numa mansão enorme. É uma casa maravilhosa num bairro grã-fino, à beira-mar. No próximo domingo ela vai fazer uma grande recepção para inaugurar a casa com convidados da alta soçaite. Ela agora faz parte da alta-roda baiana. É a sobrinha que eu mais gosto.

JUNHÃO

Insiste na pergunta:

– Sim, e daí?!… O que isso vai mudar nas nossas vidas?!

MÃE

Ainda sem perder a paciência, explica:

– Ela me convidou para a festa, mas eu declinei o convite porque estou despreparada de roupas finas para uma recepção elegante. Mas você está preparado porque todo o dinheiro que pego é pra comprar suas roupas. Como é tudo “zero-oitocentos”, eu falei que você iria e ela ficou muito contente. Está doida prá conhecer você, o “priminho”, filho da querida tia Ceiça.

JUNHÃO

Fica animado de repente e, demonstrando o seu lado de interesseiro, exclama:

– Beleza! Vai ser show!…

MÃE

Satisfeita com a aquiescência dele, vai para a cozinha cantarolando, cuidar dos afazeres domésticos. Depois ela põe-se a pensar:

“O Júnior é muito carismático, possivelmente ele vai ser convidado para ocupar um alto cargo executivo numa grande empresa multinacional. É como eu sempre disse: é só estar no lugar certo, com as pessoas certas, para tudo dar certo. O meu filhinho é adorável e muito competente! Todos vão gostar dele.”

JUNHÃO

Assim que fica sozinho na sala faz uma série de telefonemas à “meia-boca” para os amigos que moram numa favela:

– Pois é “velho”… A festa vai ser “massa”! Minha prima é cheia da grana e é gente boa. Está se sentindo sozinha e nós vamos lá pra dar uma força a ela. Fale com a galera que o almoço de domingo vai ser de “arrombar”. Vamos fazer muita animação para agradar a coitada. Como ela é cheia do dinheiro, com certeza vai dar muita grana pra gente.

DIA DA RECEPÇÃO – Final da Tarde

MÃE

Está sozinha em casa descansando do almoço. Na realidade o descanso dela é na cozinha lavando os pratos. Nesse momento ouve a campainha tocar com insistência parecendo que vai estourar. Enquanto vai atender ao chamado, pensa no filho e comenta:

– Como é bom ser jovem… Agora ele deve estar se divertindo “à bessa”. O Júnior é muito inteligente e, nesse momento, deve estar sendo a atração dos figurões na festa.

Quando ela abre a porta do apartamento aquele “anjinho” sobre o qual comentava está ali na sua frente, enfezado, demonstrando estar com um mau humor terrível.

JUNHÃO

Está muito irritado e, antes que ela diga alguma coisa, ele se expressa de modo vulgar:

– Sai da frente que tou “retado”!

MÃE

Atônita, balbucia:

– Não vejo motivo para isso. Não “mim” diga que você se esqueceu de ir na festa da casa da sua prima!… Cadê a sua chave do apartamento?

JUNHÃO

Revoltado, resolve contar o que houve:

– A zorra dessa chave eu perdi na correria. E não me fale de parente, porque “parente é que rói a gente”. E não me peça mais pra ir nessas festas fuleiras! Eu fui lá para ajudar e terminei sendo mal interpretado. Pensei que a prima estava precisando de companhia por estar morando numa casa enorme com um marido estrangeiro, por isso eu chamei uma galera pra dar alegria a eles. Fiz tudo na maior boa-fé.

Continua com as queixas acerca da sua malfadada ida à festa da prima:

– Chegamos lá em dois ônibus clandestinos, do tipo “coração de mãe”, que a galera fretou. A turma chegou na maior alegria querendo ajudar. Tiziu já entrou na mansão tocando “timbau”; Buiú, o pandeiro; Fêu no cavaquinho e Kéu cantando pagode. Gracilene, Magnoiane, Janda e Lady Kely, quatro mulatas “gatíssimas”, estavam de “cordão cheiroso” e entraram na mansão sambando e rebolando. Alguns coligados, quando saíram do ônibus, deram um “bicudo” na bola arremessando-a por cima do muro e entraram portão correndo atrás da bola. Enquanto corriam, gritavam palavras de ordem: “raça mengão”! “é nóis, mano”! “baêeea, minha porra”! Os caras fizeram a maior zoeira…

Nesse momento ele para e sorri se lembrando do que aprontaram. Depois reinicia:

– A turma de ricaços saiu do casarão demonstrando surpresa, parecendo que nunca tinham visto pessoas alegres. A galera já estava jogando “baba” no gramado verdinho. Outros, junto com as garotas, pularam na piscina grandona, de água “azulzinha”. Foi a maior zorra… Quando pularam na piscina fizeram uma enorme onda e esparramaram água prá tudo que é lado. A galera era pura diversão.

Por instantes abaixa a cabeça e balança negativamente como se estivesse reprovando a situação vivida por ele. Depois continua a relatar com tristeza:

– Como a turma era grande e pra não dar “baque” no estoque da despensa da “prima-falsa”, nós levamos a nossa bebida, a carne para o churrasco e até o carvão. A gente já tava soprando o fogo que fizemos no tablado do deck da piscina prá assar as carnes, quando, de repente, ficamos sem entender nada: ela, a tal prima, estava gritando com histeria e dando faniquito. Fez o maior escândalo sem nenhum motivo. Os grã-finos de nariz empinado ficaram nos olhando de cima, parecendo que a gente era um bocado de favelado. Enquanto isso os seguranças estavam correndo atrás da galera para colocar a gente prá fora dos muros da mansão.

Amargurado com a situação de vexame que passou, continua falando do constrangimento devido à experiência negativa na casa da prima que sequer chegou a se apresentar:

– Alegaram que nós não tínhamos sido convidados e que éramos bregas; que levamos cachaça, e que tínhamos jogado as garrafas vazias à toa, por toda a área. Ora!… Lá tinha um monte de empregados que podiam catar as garrafas. Falaram que destruímos o gramado com o jogo; manchado as paredes pintadas recentemente com chutes violentos na bola melada com terra úmida; que o tablado do deck da piscina foi queimado com as brasas do churrasco; que quebramos os tampos de vidros das mesas que ornamentavam a piscina; que as meninas eram um bando de “piriguetes” que se jogaram na piscina sem tomar uma chuveirada antes para lavar o bronzeador barato; que a turma não usou o sanitário para urinar; que mijaram à toa  e que não-sei-o-quê; e que não-sei-o-quê. Não adiantou o nosso “kaô-kaô…”, porque os seguranças não “comeram régui”. “Rapaz” foi tanta reclamação que fizeram que até agora ainda estou zonzo.

Percebendo que a mãe está complacente sem questionar, conclui a fala fingindo ser a vítima da situação que ele mesmo causou:

– Aquele povo rico não sabe levar nada “na esportiva”. E o pior é que eu fiquei no maior prejuízo moral e financeiro. A turma “tá retada” comigo, porque mandei a galera comprar as coisas no fiado e fretar os ônibus pra pagar depois, achando que a prima rica ia ficar alegre e iria me dar muito dinheiro pra cobrir as todas as minhas despesas. O resultado da minha boa vontade foi a gente ter que sair de lá correndo feito bandido. Na confusão os ônibus pifaram e foram guinchados para o pátio do Detran e só serão liberados depois que pagar “não-sei-quantos mil”. Agora eu vou ter que ficar escondido aqui em casa por uns tempos, porque se a galera me pegar eu “tou frito”. A seguir, conclui:

– Se a tal prima telefonar pra você não dê importância ao que ela vai dizer, porque ela é uma pessoa do mal. Você promete isso ao seu filhinho querido?

MÃE

Não responde, porque a infeliz está quieta, inerte. Desmaiou na poltrona depois de ouvir os desatinos cometidos pelo filho na elegante festa da sobrinha.

JUNHÃO

Olha e vê a mãe desfalecida. Comenta com desgosto:

– É por isso que o “mundo está de cabeça pra baixo”. A gente está falando de um assunto sério e essa preguiçosa aproveita para dormir. Ou então isso é manha pra não me dar razão. “Destá jacaré, que a sua lagoa vai secar!” – Ameaça demonstrando rancor.

A seguir se retira para o quarto para se esconder da galera.

Autor: Joswilton Lima

Joswilton Lima é natural de Ilhéus-Ba, mas é domiciliado há mais de vinte anos em Morro do Chapéu. Tem formação em Ciências Econômicas, mas sempre foi voltado para as artes desde a infância quando começou a pintar as primeiras telas e a fazer os seus primeiros escritos. Como artista plástico participou de salões onde foi premiado com medalhas de ouro e também de inúmeras exposições coletivas nos estados da Bahia, Sergipe e Pernambuco. Possui obras que fazem parte do acervo de colecionadores particulares e entidades tanto no Brasil, quanto em países do exterior, a exemplo dos E.U.A, Portugal, Espanha, França, Itália e Alemanha. Possui o site www.joswiltonlima.com onde tem uma mostra de algumas de suas pinturas em diferentes técnicas e estilos, sendo visualizado por inúmeros países.

Em determinada época lecionou pintura em seu atelier no bairro de Santo Antonio Além do Carmo, em Salvador, e foi membro de comissões julgadoras em concursos de pintura. Nesse período exerceu a função de Diretor na Associação dos Artistas Populares do Centro Histórico do Pelourinho (primitivistas e naif’s), em Salvador.

Como escritor também foi premiado em diversos concursos de contos tendo lançado um e-book com o título “Enigmas da Escuridão”, com abordagem espiritualista, tendo obtido a nota máxima de 5 estrelas de leitores do site www.amazon.com.br Outros contos e romances estão sendo escritos.

Concomitante às atividades artísticas sempre exerceu funções laboriosas em diversos setores produtivos, tendo se aposentado recentemente na Secretaria da Fazenda do Estado da Bahia, onde trabalhou por muitos anos na Fiscalização.

As obras impressas, você, pode adquirir pelos endereços eletrônicos:

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