Episódios do Junhão II: ‘O DIABO É O ZAP-ZAP!’

JUNHÃO

Cinquenta anos. Não sai mais do apartamento e também não dorme a noite inteira. Taciturno, não conversa com a mãe que se sente totalmente sozinha dentro de casa. Ela sente falta da convivência atritada com o filho. Absorto, ele não atende ligações no telefone fixo; aliás ele nem ouve o telefone tocar. Por causa da sua desatenção, a mãe tem que correr da cozinha até a sala atropelando tudo pela frente para ver se é algum parente que está ligando. Indiferente ao que se passa em derredor ele passa o tempo todo com o aparelho celular na mão, olhando-o como se estivesse hipnotizado. Constantemente digita alguma coisa ao ouvir o aparelho assobiar.

MÃE

Setenta anos. Está cismada com a calmaria que está reinando em casa. Com o mesmo ímpeto de curiosidade que tinha quando era mais nova, faz conjecturas acerca do atual comportamento do filho. Pensa:

“O silêncio dessa criatura está me deixando enervada. Já “tou” com saudade das briga e da zoada daquele som horroroso que esse miserável ligava a toda altura, sem se incomodar com ninguém. O único barulho que ouço dia e noite é o som irritante desse assobio emitido pelo celular dele. Depois que eu comprei o aparelho para ele, acabou o homem…”

A seguir conclui para si:

“Com certeza ele está doido varrido. Será que esse celular botou uma doença mental nele? O único jeito vai ser levar esse menino a um médico de cabeça pra dar um remédio para curar essa doença infame.”

JUNHÃO

Meio-dia ele sai do quarto e passa pela cozinha para ir ao banheiro. Nem sequer dá um bom dia à mãe. Está com um aspecto horrível: olheiras, olhos bem vermelhos, cabelo desgrenhado, barba crescida, deixando à mostra uma quantidade enorme de fios brancos. Não nota a mãe, porque anda com o olhar fixado no celular. No pequeno trajeto, a obsessão em ficar olhando o celular faz com que ele esbarre em alguns móveis. Ao entrar no banheiro não fecha a porta. A todo o momento o aparelho assobia indicando que novas mensagens estão chegando. Ao ouvir o sinal sonoro ele fica ávido para saber as novidades que estão sendo enviadas para ele.

MÃE

Curiosa, ela vai andando devagar nas pontas dos pés e os olhos arregalados para verificar o que está ocorrendo dentro do banheiro. Fica horrorizada com o que vê: o filho, enquanto escova os dentes tem os olhos fixos no celular e digita no teclado; tudo ao mesmo tempo. Continua observando e fica abismada ao vê-lo tomando banho, se ensaboando, enquanto digita no celular. E conclui para si:

– “É… dessa vez ele endoidou de vez. Eu sempre soube que ele nunca teve o juízo no lugar. Agora está comprovado.”

Quando o filho termina o banho, sai molhado com a toalha envolta na cintura e passa por ela digitando no celular. A mãe não aguenta em ver o desleixo dele. Fica vermelha, começa a fumaçar a cabeça a ponto de pipocar os bóbis que prendem os cabelos mal-arrumados. Grita enervada:

– “Peraí”, mocinho! Aqui é a “casa da mãe Joana”? Volte para o banheiro para se enxugar e vestir a roupa, porque aqui é casa de família! Depois pegue o rodo para enxugar o rastro de água que você deixou no chão. E pare de ficar olhando a porra desse celular!

JUNHÃO

Envolvido na sua atividade virtual toma um susto ao ouvir o grito da mãe. A seguir retruca:

– “Peraí velho”, eu apenas esqueci de me enxugar e de vestir a roupa, porque estou ocupado no WattsApp. Não estou entendendo o motivo de tanto escândalo. Parece que “tá” ficando maluca com essa gritaria…

MÃE

Está furiosa e ataca:

– Que diabo é zap-zap? Esse trabalho todo que você está tendo no celular, rende algum dinheiro? É algum emprego fixo? Você “tá” fazendo alguma coisa de útil?

JUNHÃO

Tenta explicar à mãe a nova maravilha do mundo moderno:

– É um aplicativo da rede social que serve para as pessoas se comunicarem, fazer amizades, arranjar namoros, participar de grupos, enviar fotos pessoais e de acontecimentos, etc. É o máximo do momento em termos de comunicação. Aquele tempo de mandar carta pelos Correios já acabou. Quem é jovem tem que estar ligado ao que está na moda.

MÃE

Ao ouvir o discurso dele, diz com ironia:

– Sim!… E daí? Não estou vendo nenhum resultado prático dessa sua dedicação dia e noite no tal de zap. No meu modo de ver as coisas você arranjou um emprego com dedicação exclusiva e sem remuneração; e pelo jeito que estou vendo o seu patrão é o satanás. O rabudo já dominou a sua mente… E não me venha com essa “conversa fiada prá boi dormir”. Você está tão envolvido com essa peste que ainda não percebeu que a sua juventude já foi embora e que agora está com cinquenta anos. Arranje um emprego e vá trabalhar que é melhor!

JUNHÃO

Não se dá por vencido e se vangloria:

– Você diz que estou velho, mas não é isso que o mulherio acha; estou com um monte de namoradas virtuais.

MÃE

Fica enfezada com a declaração do filho e debocha:

– Só mesmo um imbecil acredita que está namorando alguém pelo telefone. Daqui a uns dias uma debochada dessas vai dizer que você fez um filho virtual e você como é um idiota vai acreditar. É por isso que eu acredito que este tal de zap-zap botou uma doença mental em você. Não é possível que um ser humano normal fique dia e noite grudado nessa desgraça.

JUNHÃO

Tenta persuadi-la de que está no caminho certo:

– Você não acredita, mas o fato é que tem um monte de gatas que não me dá sossego o tempo inteiro. A toda hora o assobio do aparelho indica que uma delas postou uma mensagem amorosa para mim.

MÃE

Interrompe-o e diz com sarcasmo:

– Elas devem ser desocupadas iguais a você pra ficarem dia e noite, feito doidas, grudadas no aparelho celular. Ou então esse tal do zap-zap idiotizou todo mundo que usa essa “miséra” que você diz ser um aplicativo.

JUNHÃO

Fica irritado com zombaria da mãe e tenta se gabar:

– Pois fique sabendo que estou com uma namorada virtual inglesa que é dona de um poço de petróleo na Nigéria. Tá vendo aí, que eu estou “bombando”?!

MÃE

Ao ouvir o desatino dele, a mãe dá uma risada e depois inquire:

– Ah, é mesmo?… Já que a sua mulher é milionária, quando é que você vai morar na África com ela? Hem?!…

JUNHÃO

Tem um sobressalto e fica deprimido quando se lembra da amada que nunca vira, a não ser tendo contato através de mensagens via celular. Tristonho diz à mãe:

– Infelizmente eu não vou poder ir ao encontro dela, porque a coitadinha está sendo mantida refém de um grupo de terroristas radicais que exigem muito dinheiro em troca da libertação dela.

Dá um suspiro forte e, abatido, continua contando a estória que lhe foi passada através de mensagens da sua pretensa amada:

– Ela pagou muito dinheiro em impostos e taxas ao governo para continuar tendo o direito de explorar o petróleo. Porém, quando viajou através do país para ir visitar o seu poço foi capturada por um grupo de guerrilheiros sanguinários. Agora exigem que ela pague duzentos mil dólares em pouco tempo, porque senão os bandidos vão matá-la. Infelizmente a coitadinha gastou todo o dinheiro que tinha e agora está dependendo de mim. Por isso preciso mandar o dinheiro que eles querem para livrá-la das garras daqueles facínoras.

A seguir entra em prantos, a ponto de soluçar, e implora à mãe:

– Mãezinha querida, se você gosta de mim hipoteque esse apartamento no banco para levantar a grana que preciso para que eu possa liberar ela do sequestro…

MÃE

Sisuda, esbugalha os olhos e os fixa no filho naquele estado deplorável. Insensível aos apelos dele, estica os beiços e fala com dureza:

– “Quem não te conhece é que te compra”. Só mesmo um calhorda para pedir à própria mãe uma merda dessa! Já sofri muitos golpes financeiros da sua parte. Mas, nesse caso você se superou; está até parecendo um ator melodramático de novela da televisão. Mas, se caso você esteja falando a verdade, diga à sua fulana estrangeira que procure os familiares dela para obter o dinheiro. “Quem pariu Mateus, que balance”. Eu nunca vi essa desmilinguida “vendendo maxixe na feira”, portanto quero que ela se arrombe.

A seguir é incisiva:

– É muita cara de pau da sua parte querer que eu e seu pai percamos o nosso apartamento, o único bem que temos, para mandar o dinheiro para uma picareta ladrona que iludiu um menino ingênuo igual a você. Mas, independentemente de qualquer coisa, é inadmissível que um jumento velho igual a você seja tão idiota a ponto de fazer os pais idosos perderem a residência, para ficarem “sem eira e nem beira” na sarjeta.

JUNHÃO

Choraminga soluçando por não ser atendido em seu pleito e vai para o quarto para ficar torcendo para que a sua mãezinha consiga o numerário que irá salvar a sua amada inglesa. E fica o dia inteiro chorando alto como uma forma de sensibilizar a mãe. De vez em quando ele lamuria quase gritando para que ela possa ouvir:

– Que mãe ruim e desnaturada, meu Deus!… É uma coisa tão simples!… Eu já tenho o número da conta bancária do sequestrador para enviar o dinheiro que irá salvar a minha namorada…

MÃE

Pouco tempo depois ela fica sensibilizada com a aflição do filho querido. Deprimida, começa a pensar como irá convencer o esposo a penhorar o apartamento para que o seu filho Juninho possa salvar a sua amada dos facínoras que a mantém refém.

Nota: Rude, ela não percebe que o filho caíra num golpe da internet.

Ou será que o Junhão estará aplicando mais um golpe querendo o dinheiro para dar de presente um apartamento luxuoso no Alto do Itaigara à sua amada Janete que mora no Vale das Pedrinhas?

 

Autor: Joswilton Lima

Joswilton Lima é natural de Ilhéus-Ba, mas é domiciliado há mais de vinte anos em Morro do Chapéu. Tem formação em Ciências Econômicas, mas sempre foi voltado para as artes desde a infância quando começou a pintar as primeiras telas e a fazer os seus primeiros escritos. Como artista plástico participou de salões onde foi premiado com medalhas de ouro e também de inúmeras exposições coletivas nos estados da Bahia, Sergipe e Pernambuco. Possui obras que fazem parte do acervo de colecionadores particulares e entidades tanto no Brasil, quanto em países do exterior, a exemplo dos E.U.A, Portugal, Espanha, França, Itália e Alemanha. Possui o site www.joswiltonlima.com onde tem uma mostra de algumas de suas pinturas em diferentes técnicas e estilos, sendo visualizado por inúmeros países.

Em determinada época lecionou pintura em seu atelier no bairro de Santo Antonio Além do Carmo, em Salvador, e foi membro de comissões julgadoras em concursos de pintura. Nesse período exerceu a função de Diretor na Associação dos Artistas Populares do Centro Histórico do Pelourinho (primitivistas e naif’s), em Salvador.

Como escritor também foi premiado em diversos concursos de contos tendo lançado um e-book com o título “Enigmas da Escuridão”, com abordagem espiritualista, tendo obtido a nota máxima de 5 estrelas de leitores do site www.amazon.com.br Outros contos e romances estão sendo escritos.

Concomitante às atividades artísticas sempre exerceu funções laboriosas em diversos setores produtivos, tendo se aposentado recentemente na Secretaria da Fazenda do Estado da Bahia, onde trabalhou por muitos anos na Fiscalização.

Agora apresenta aos leitores do site www.leoricardonoticias.com.br o seriado de crônicas intituladas “Episódios do Junhão” com as quais espera que tenham uma leitura agradável e de reflexão.

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