Das cordas para as bandeiras. Do carnaval para eleições!

“Você já passou por mim

E nem olhou para mim

Acha que eu não chamo atenção

Engana o seu coração”

Baiana System

Se no carnaval existe a figura “invisível” e “invisibilizada” do cordeiro, nas eleições de Morro do Chapéu existe figura correspondente de homens e mulheres que seguram as bandeiras de duas candidaturas da majoritária, ou seja candidatos a prefeito e/ou prefeita do município . Seus rostos e seus sonhos não importam. Seus corpos somem, encobertos pelas bandeiras que são miseravelmente pagos para segurar.

Conheço alguns deles(as). Em conversa com dois estudantes, soube como funciona esse “contrato”, típico das relações de trabalho escravocrata: paga-se, em média, 40 reais por pessoa, o recrutamento, geralmente, acontece no “boca a boca”, as equipes se amotinam na porta dos comitês e, a seguir, distribuem-se as bandeiras.

Não ficou claro que se o pagamento acontece antes ou depois da jornada de “trabalho”. No entanto, como é fato conhecido por quem passa pela avenida Joel Modesto, as atividades tem início pela manhã e se estende até meados da tarde. Alguns fazem a refeição enquanto seguram as bandeiras, uma alegoria monótona e pálida – alguns, claramente, envergonhados frente à humilhação de defender uma ideia com a qual não tem nenhuma identificação; “Eu seguro a bandeira, professor. Preciso do dinheiro, não é?! Mas não voto”, revela-me um estudante que segura uma das bandeiras.

Não identifiquei, dentre o grupo de pessoas que seguram bandeiras, os filhos e filhas dos candidatos. Tampouco identifiquei os candidatos. Eles não estão ali. Não podem segurar a bandeira da invisibilidade. São feitos para o protagonismo. Suas relações elitistas não aceitam destinar aos seus o destino que naturalizam aos filhos e filhas dos outros?

E a conta? Quem paga? Dizem que vem do “Fundo Eleitoral”. Não entro no mérito, mas aguardo a prestação de contas. No entanto, vamos fazer uma conta básica? Desde que a campanha nas ruas está permitida, temos, pelo menos, quatro fins de semana. A ostentação das bandeiras acontece, geralmente, sexta e sábado. Em média, temos cerca de 60 pessoas por grupos de candidatos. Portanto, são 120 bandeiras por dia, 240 bandeiras por fim de semana. Como são quatro fins de semana, já teríamos uma conta de 38400 reais. Se assim for até o final da eleição, teremos um gasto de 67200 reais, em estimativas razoáveis, só de bandeiras. Eu pergunto: isso é justo? Numa cidade em que se pena por emprego e que faltam políticas públicas adequadas em quase todas as áreas, é razoável que um projeto político use tal precedente para desenvolver suas estratégias de campanha?

A resposta sensata é: não. Com esse dinheiro, é possível comprar cerca de 20 notebooks – ou seja, parte importante de um laboratório de informática para uma escola já teria sido montada. Para além do valor gasto, existe a condição humana, a humilhação pública de pessoas invisibilizadas, nesse bloco de horrores que se tornou a disputa eleitoral em Morro do Chapéu e no Brasil. Luto pelo dia que tais cenas serão, somente, um triste registro nos anais da história dessa cidade. Por enquanto, resta-me perguntar aos nossos eleitores e eleitoras: tais candidatos merecem o nosso voto?

Gilvan Maia
Licenciado em Física
Mestre em Ensino de Física
Professor de Física – Secretaria de Educação do Estado da Bahia

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