Carlos Karoá escreve: OS PENSIONATOS

Em 1914 foi inaugurado o canal do Panamá. Uma distância de 82 km de pura engenharia náutica mundial ligava, liga ainda e certamente para sempre, os oceanos atlântico e pacífico, diminuindo uma jornada que durava dois meses, para céleres dez horas.

A obra, de uma beleza ímpar, colocou aquele país no mapa do mundo turístico, aqueceu uma economia antes claudicante, e a sua importância sócio econômica para o Panamá, dispensa comentários.

Guardando naturalmente as devidas proporções, assim desse modo, aconteceu com a criação do nosso amado Colégio Nossa Senhora da Graça.

A importância sócio cultural e econômica daquela casa para a cidade de Morro do Chapéu, naquela época, também dispensa comentários.

Nossa cidade tinha vidas distintas. Durante o período letivo e o período de férias, a dualidade de ritmo diário da vida da metrópole, chegava a ser gritante. Durante o período letivo, às ruas estavam sempre cheias e barulhentas. Dezenas de jovens estudantes perambulavam pelas vias urbanas no labor diário dos estudos, lojas movimentadas no atendimento dos moradores, um aquecimento natural nos mercados de alimentos, vez que o número de alunos era bastante significativo.

No tempo das férias, fosse junho ou dezembro, o cenário de becos, praças ou vielas, ganhavam um Ton acinzentado em vez do azul e branco da farda, da nossa casa de ensino. Se durante o dia, ao desânimo pela ausência dos alunos já nos matava de tristeza, imaginem a noite quando o frio e a garoa nos expulsavam dos lugares antes, cheios de mocidade e vida.

O número de estudantes que vinha de fora lembrava a frequência de um antigo internato, o de Ponte Nova, cidade da chapada Diamantina que hoje se chama Vagner, onde dezenas de jovens moçoilas, geralmente da região noroeste do estado, iniciavam a sua vida estudantil. Conheci algumas jovens Barramendenses que passaram por este laborioso internato juvenil, no começo da percepção deste universo de números e letras.

O CNSG, um oásis de conhecimento num espaço único, com dezenas de cidades e povoados em seu derredor vivendo um tempo de atraso social, chegou na hora certa. Num raio de até 180 km de distância, jovens pupilos aportavam por aqui, para a tão sonhada vida de estudante de primeiro grau.

Sonho também de pais e mães destes alunos, já que eram eles as bases de sustentação financeira, em níveis de alimentação, moradia e custos colegiais.

Nos primórdios existenciais do colégio, o número de alunos nativos não esboçou reação comercial, mas depois de algum tempo, a diferença se fez sentida com a chegada crescente de alunos vindos das praças em volta do município. O amigo Otaviano Gonçalves, aluno devotado do Colégio, chegou a fazer uma estimativa do número de alunos visitantes. Sem números precisos, devido à passagem do tempo, calculou o montante em mais ou menos 130 estudantes forasteiros. Um dado razoável para um universo total de mais ou menos de 260 garotos e garotas matriculadas.

As necessidades criam demandas e elas vêm com naturalidade precisão e rumo. O aumento significativo de pupilos, teve relevância monetária no comércio sem dúvida alguma. Se somarmos a quantidade de refeições consumidas por eles, durante todo o período letivo, teremos um número econômico bastante expressivo. Também havia às expensas com roupas, fardamento escolar, bebidas, diversão, enfim só dados que acusavam positividade nesta relação, alunos, colégio e cidade.

Para abrigar tanta gente, os munícipes se mobilizaram para recebê-los, ainda que paulatinamente obedecendo à demanda. Casas particulares se dispuseram em aceita-los como hospedados, mediante um pagamento mensal evidentemente. Eram os abrigos de um, dois, três, até quatro pensionados em cada residência. O pequenino segmento de pensões, também oferecia quartos perenizados durante o período letivo, sem restrições de sexo da pessoa interessada. Os hospedeiros, fossem eles domiciliares ou de cunho empresarial, foram os responsáveis pela interatividade que permeou os meios coletivos da metrópole. De forma natural e lógica, criadores e criaturas iam formando laços de amizade, criando aproximação familiar de ambos os lados, conhecendo parentes e aderentes, e visitando os seus lugares de origem.

Em meados dos anos 60, os Pensionatos domiciliares ou não, estavam em alta, em ascendência social e economicamente promissora. As pensões de dona Deraldina, dona Rosa, abrigavam alunos das localidades de Xique-Xique, Salobro, e Canarana. Dona Alda, um número expressivo de garotas de Lapão e Adjacências, alunas de Utinga pensionadas com dona Lúcia Neto, rapazes da mesma cidade com dona Ester Lopes, dona .Geralcina Kenas Moreira, oriunda de Gameleira dos Crentes trouxe filhos e amigos em idade estudantil, para uma dessas residências vizinha a Prefeitura Municipal.

As cidades de Barra do Mendes, Barro Alto, Ibipeba, Irecê, América Dourada e os povoados de Duas Barras, Fedegosos, Belo Campo, lagoa do Boi, e Prevenido, também cederam seus filhos, ainda adolescentes, imberbes, nesta busca do tão sonhado aprendizado.

Mas, foi de uma senhora da cidade de Ibititá, antes conhecida como Rochedo, a honra de merecer o título de maior pensionato da cidade, vez que a sua terra de origem também possuía o maior cabedal estudantil. Chamava-se Julinda Dourado. Rígida nos seus princípios mereceu a confiança dos pais dos estudantes e a cada ano tinha que mudar de casa, naturalmente pelo crescente número de afilhados.

Dona Julinda tinha a empatia necessária para o papel que lhes cabia. Merecia também a admiração de quem estava do lado de fora do batente da sua casa. Trazia os meninos e meninas que lhes foram confiados em clima perene de atenção aos estudos. Sabia que um ano perdido, poderia também significar um desfalque no seu plantel de internos.

Hora pra estudar, hora pra lazer tinham a precisão do relógio e a rigidez que o bom senso pedia. As garotas de dona Julinda desfilavam pelas ruas em pequenos bandos de 3 ou 4 moçoilas, deixando os ares por onde passavam bem mais festivos. Dava gosto ver o alvoroço juvenil masculino, em torno das meninas do pensionato de dona Julinda.

Uma densa e admirável rede de amizades e amores juvenis foi aos poucos sendo cerzida no dia a dia dos anos de estudos. Familiaridade sincera nasceu e se perpetuaram nas dependências dessas casas de apoio, surgidas das necessidades econômicas de cada moradia, ou mesmo sem a urgência financeira.

Desse modo, souberam estender a mão por motivos dos mais diversos, fossem quais fossem, sem nenhuma dúvida, os mais nobres. Até hoje, mais de Meio século depois, os abraços continuam sendo calorosos e cheios de saudade.

Agora, casais se apresentam com filhos e netos a tiracolo, ponteiam o Rosário de suas vidas e apontam o CNSG, o ambiente acolhedor dos Pensionatos, as amizades, os amores daqueles dias como a peça de encaixe perfeita, no caminho da decência e da honradez pessoal.

A geração da nossa contemporaneidade foi fantástica. Fez o dever de casa.

Não houve desvios, não nos corrompemos, fizemos o que devíamos fazer. A busca incessante era por tudo que beirava cidadania. Pelos estudos, pelas amizades, pelos amores e também para se tornar um exemplo de ser humano, sem abastança talvez, mas num futuro que haveria de vir, ser digno dos abraços dos velhos amigos.

Carlos Karoá

2 comentários em “Carlos Karoá escreve: OS PENSIONATOS”

  1. Recordações emocionantes!! Eu trabalhava na Oficina de Joazino, que fazia cadeiras e ficava em frente ao pensionato de D. Julinda! Trabalhava de graça sob a chefia de Zé Perninha, só para ficar paquerando as meninas, lindas!!

  2. Edizio Nunes dos Santos

    Parabéns pelo texto e lembranças, me lembro dessa época com saudades, vc esqueceu de mencionar a molecada que jogava bola ⛹; entre tantos amigos me lembro do Zé Querino, como era habilidoso
    Um grande abraço

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