Carlos Karoá escreve: ‘As Filarmônicas’

A palavra mais indicada para se adjetivar um fato ocorrido e vivenciado por nós, pela primeira vez, é sem nenhuma dúvida o belíssimo vocábulo “inesquecível.” Em sendo assim, foi inesquecível para mim a primeira namorada, a primeira vez que eu vi o mar, a primeira vez que andei de avião, o primeiro beijo, aquela nossa famosa primeira vez e pasmem os senhores, a primeira vez que tive em minhas mãos uma “artinha”. Uma artinha é o abc com os princípios básicos para quem quer aprender música. Lembro até hoje.

Numa manhã, cujo dia e data já se perderam nas mazelas que o tempo traz, meu pai me fez uma revelação acompanhada de uma pergunta. Disse ele: Carlos, lá na Minerva tão ensinando música, você não quer aprender não?

Naquela hora uma voz miudinha de “vá logo” clareou nos meus olhos e mais que certo nos meus ouvidos.

Eu quero sim, de noite eu vou lá, respondi pra ele já com os olhos brilhando de curiosidade, ansiedade e os dós, rés mis estalando de cinco em cinco minutos na ponta da língua.

E de noite, neste dia eu fui lá mesmo.

O nosso maestro, o Sr José Ferreira da Silva, estava tomando as lições de também dois aspirantes. Eram eles: Silas Monteiro e Clériston Vasconcelos.

Perguntou-me o que eu queria e me mandou esperar. E eu esperei até sair de lá com minha artinha nas mãos.

Começava ali, um dos períodos mais bem aventurados da minha vida.

A presidência da Minerva era nesta época, do nosso admirado e querido líder Dr. Wilson Dourado. E nós garotos, e também os homens mais maduros, tínhamos por ele admiração, um amor filial e respeito. A música é uma dádiva.

Não sei quem criou as notas musicais, mas não houve gênio maior na humanidade.

A agnostia não permite divindades, só a lógica e a possibilidade, mas a música é um sopro divino, uma energia do pleno cosmo, uma mensagem cifrada que o deus Apolo enviou pra terra. Não há mente criativa capaz de tamanha genialidade, sem os auspícios do desconhecido.

O Sr. José Ferreira da Silva, nosso maestro, era um homem admirável. Sem formação acadêmica, autodidata em pauta, compasso e notas, foi um dos meus heróis e com certeza de todos os músicos daquela época. Conhecia as três claves musicais, mas tinha domínio absoluto das claves de Sol e fá. Também tocava os instrumentos que faziam parte da confraria da clave de fá, os chamados de bocais, tubas, barítonos, trombones e bombardinos, mas não dominava os instrumentos da clave de sol, notadamente os chamados de palheta, a linha dos saxs, clarinetas e riquintas.

A Filarmônica dos anos 65, 66 e 67, da turma dos tubistas Mano e Jaime, do barítono Getúlio Pinheiro, dos trombonistas Cid Modesto, Quito, Pito e Tamar Monteiro, dos trompistas Clériston Vasconcelos e Nelson Amorim, dos clarinetistas Neném e Carlos Karoá, dos saxs Jomarito Bagano e Paulinho Dantas, dos trompetistas Benedito e Silas Monteiro, do bombardinista José Aurelino, da turma da bateria, Mauro Heleno, Dirson Souza, Nivaldo e Nena Mendonça, era merecidamente digna dos aplausos que recebia. Íamos para os ensaios, com entusiasmo, com uma ansiedade pulsante pelo aprendizado do novo, fossem dobrados, polcas ou marchas, com uma alegria que se derramava pelo piso de cimento da Minerva e contagiava quem nós assistíamos quem estava lá todas as noites na hora dos ensaios. Minha saudade, meus respeitos a você Aldinho, pra você velho Barrão, pra seu Natalino e o irmão Atanael, pro velho Clessio, pra seu Joel Modesto, e outros não nomeados me perdoem, o tempo é implacável nos seus desígnios e cobranças.

A Filarmônica Minerva foi um dos amores da minha vida, porque os amores da nossa vida, não são só aqueles de quem seguramos as mãos e trocamos beijos. Os amores da nossa vida foram aqueles que nos enterneceram, aqueles que nos fizeram bater o coração, com um Tum Tum Tum bem mais forte, quando lhes deitavamos os olhos.

A afirmação teológica da dicotomia nos revela que nós humanos, somos os únicos com sensibilidades corpo e alma. Acho que deveríamos ir um pouco mais além. Pra mim havia o conceito “alma” na estrutura física da filarmônica. No local dos ensaios, no maestro, e na presença dos meus colegas. Pra mim havia “alma” no colégio Senhora da Graça e na presença dos meus colegas de sala de aula. Pra mim também havia “alma” no açude de Barra do Mendes, onde passei grande parte da minha infância, em momentos que não esquecerei jamais.

Fui um músico mediano, mas a minha parte nas partituras não deixava de dizer, de falar com a palheta do meu adorado clarinete. Porém não era segredo pra ninguém da irmandade, que nosso maestro tinha um apreço especial por dois alunos excepcionais. Eram eles: Paulinho Dantas e Jomarito Bagano. E o apreço era merecido. Os mestres são argutos por natureza e com seu Zé não era diferente. Paulinho tinha as notas musicais correndo nas veias, fazia a leitura das notas com extrema facilidade, sabia dividir como se dizia nos meios musicais. Foi um dom magistral que lhes deu o deus Apolo. Jomarito, sem a facilidade musical do primeiro, compensava essa assimetria com preciosismo e garra em tudo aquilo que fazia. Só a título de registro, havia uma particularidade na nossa banda. Sempre em tempo de tocatas, seu Zé mandava vir da filarmônica 2 de janeiro de Jacobina, os saxofonistas Alexandre e o filho Nei, mais o trompetista Benedito. Por associação também faziam parte da irmandade. Gostaria de saber por onde anda esse povo.

O músico, aquele que tem de verdade as notas musicais pulsando no peito, são pessoas mansas por natureza. Notivagos, fumantes, beberrões, alguns hábitos nada salutares, mas são amantes do amor e paz. Aquele bando de assopradores de bocais e palhetas era de se admirar de verdade. Os mais velhos eram também da curriola. Não havia distinção. Os dias mais divertidos eram quando íamos receber o nosso pagamento. Ficávamos a espera de ser chamados por Dr. Wilson para a entrega do soldo. Ele e seu Zé ficavam no palco, com os envelopes sobre a mesa. Homens casados ganhavam mais, rapazolas ganhavam menos. E nós ríamos da hora que chegávamos até a hora de ir embora. Mas porque ríamos tanto quando um colega de levantava para receber o pagamento? O que havia de tão engraçado nisto? Certamente nada. Mas ríamos porque íamos receber uma recompensa por um trabalho feito com amor sincero, pelo companheirismo, pela alegria de estarmos juntos, num momento de pura diversão. Não havia preço. Nada pagava aqueles instantes de adocicada magia entre amigos.

Hoje, andando pelas ruas, vez em quando encontro com alguns dos colegas de banda. Sempre há espaço para uns minutos de prosa. Nos olhos de cada um de nós, uma saudade incontida a se espelhar no rosto, sempre um pontilhar de palavrinhas sobre aquele tempo com as lembranças pulsando no peito. Há entre nós apenas contemplação e espera, por alguns segundos até percebermos que não somos mais garotos, que do muito que vivemos tantas coisas já nem existem mais. As reminiscências das festas do Divino e São Benedito estão ainda vivos, quando no alvorecer, saíamos pelas ruas, enchendo os ares da mais pura música de marchas militares. Lembro-me dos cafés copiosos na casa do imperador da festa. Dos roubos de biscoitos sobre a mesa farta, da missa solene das dez da manhã, das procissões barulhentas, acompanhadas de amigos, devotos e namoradas, dos leilões, de tanta coisa preciosa que o tempo teima de nós levar, mas que haveremos de resistir, pelo menos desta vez não deixá-lo, ser o senhor Absoluto da vida humana.

A Lira Morrense foi uma dissidência das hostes da Minerva. Os motivos, diante da grandeza das duas casas, são muito pequenos, não vale a pena o registro.

Coube a Jomarito a honra deste feito.

Tive o privilégio de participar da primeira apresentação, atuando como trompista.  Atendi a um convite do meu velho camarada. Uma honra impagável.

A saudade cobra dividendos, mas a vida nos ensina a paga-los, com sentimentos doloridos, mas piamente absolvidos, quando o coração é manso e doce.

Vida longa a estas duas casas. Que a eternidade lhes abrace para sempre.

Há uma verdade batendo a minha porta.

Intensa, como o sopro de um tubista,

Inquestionável quanto à vontade de estar ali naquela hora e tão precisa quanto uma equação matemática:

Sem música, não conseguiria viver nunca, never, jamais.

Carlos Karoá

2 comentários em “Carlos Karoá escreve: ‘As Filarmônicas’”

  1. Belíssimo texto. Amei o seu conceito de “amor” e de “música”.Aproveitando a deixa, cito Friedrich Nietzsche:
    “A vida sem música seria um erro “

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