Antonio Dourado apresenta: Floro Bartolomeu da Costa

Floro Bartolomeu da Costa

(17.08.1876 – 08.03.1926)

 

Floro Bartolomeu, que era filho de Virgilio Bartolomeu da Costa e de Carolina Costa, nasceu em Salvador, onde se formou em medicina em 1904.

Segundo depoimento de Carlos Navarro Sampaio, ele foi o primeiro médico do Ventura, onde ainda existem os alicerces da casa em que residiu. A sua mudança do Ventura está relacionada ao fato de ter assassinado um rapaz. Apesar de alegar que a arma disparou acidentalmente, a versão mais aceita é a de que se tratou de um crime passional, pois o médico era apaixonado pela esposa do engenheiro de minas conde Adolfo Van Den Brule, de quem era sócio em garimpos. A vitima era um tipo artista, bonito, que também se interessava pela condessa. Entretanto, existe outra versão para esse crime, na qual consta que após um sucesso inicial no garimpo ele teria aberto uma grande frente de serviço, onde trabalhavam vários garimpeiros. Com o decorrer do tempo houve um desentendimento com um dos garimpeiros que o atacou com uma enxada ou um machado. Apesar de Floro ter atirado para o chão, como advertência, o homem teria continuado o ataque, forçando-o a disparar o tiro fatal.

De acordo com um telegrama do padre Cícero para o deputado Floro Bartolomeu (Menezes & Alencar, 1995), o conde Adolfo, nascido em Paris, era filho do conde José Idelfonso Van Den Brule e da condessa Joane Piló de Melo de Vanle. O conde José Idelfonso, que morreu em 1898, ocupou o cargo de diretor do Banco da França, por mais de 25 anos. O conde Adolfo foi diplomado pela escola de engenharia de minas de Paris, em 1882.

Assim, após esses acontecimentos no Ventura, em maio de 1908, Floro Bartolomeu e o conde Adolfo chegam em Juazeiro do Norte, no Ceará, que vivia sobre domínio espiritual do Padre Cícero.

Segundo Pinheiro (1979), nessa época o padre Cícero havia adquirido, no município de Aurora, terras com ocorrências de cobre, que pretendia demarcar, a fim de serem explotadas por uma companhia francesa. Entretanto, alguns proprietários rurais, alegando que parte do terreno lhes pertencia, opuseram-se à demarcação. A questão foi a justiça e Floro advogou a causa do padre, em decorrência da qual verificou-se em 17.12.1908, um conflito armado. Esse foi o primeiro elo da corrente que o uniria ao Padre Cícero, e lhe permitiu chegar a deputado estadual e federal.

Em Juazeiro Floro instalou-se inicialmente na própria casa do Padre Cícero, atendendo a muitos clientes, que nada lhe pagavam. Também exerceu a profissão de advogado, muito procurado na região, apesar de não ser formado em direito.

A atuação do padre Cícero tornou Juazeiro do Norte um grande centro religioso, em função do qual Floro Bartolomeu passou a representar o sacerdote nos entendimentos políticos.

Segundo Lira Neto (1999), as romarias em homenagem ao Padre Cícero foram comparadas pelas elites dirigentes de Fortaleza com o início de uma nova Canudos. Com o pretexto de acabar com o fanatismo e o banditismo no Carirí, o presidente (governador) do estado Franco Rabelo entrou em rota de colisão com o sacerdote. Em dezembro de 1912, o Ceará assinara com Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do Norte, um pacto interestadual para combater o cangaceirismo em todo o Nordeste. O pacto dava a Rabelo a legitimidade para policiar a região do Cariri, onde a oposição a seu governo era mais forte. Padre Cícero e seus adeptos convenceram-se de que o rabelismo tinha o firme propósito de destruir Juazeiro do Norte.

É nesse cenário que fatos relacionados a sucessão do presidente da república Hermes da Fonseca, passam a ter grande conotação na política local. Segundo Pinheiro (1979), deixando o presidente/governador Marcos Rabelo de apoiar a candidatura oficial do senador gaúcho Pinheiro Machado à presidência da república, decidiu o governo federal apea-lo do poder.

Conforme relato de Lira Neto (1999), Floro Bartolomeu, apelidado de Satanás de Juazeiro, que era o mentor político do Padre Cícero, foi então chamado ao Rio de Janeiro por Pinheiro Machado, importante chefe político da época. Ficou combinado que Floro voltaria ao Ceará e convocaria, em Juazeiro do Norte, uma Assembléia, que o declararia presidente do Ceará. O estado ficaria com dois presidentes, Floro e Franco Rabelo, o que seria a deixa para o governo federal decretar a intervenção no estado.

Desse modo, em 09.12.1913, Floro determinou que seus jagunços desarmassem o destacamento policial estacionado em Juazeiro do Norte, iniciando assim a sedição (Pinheiro 1979).

Lira Neto (1999) relata que em 20 de dezembro de 1913, tropas enviadas por Franco Rabelo tentam invadir Juazeiro do Norte. Os combates duram um mês. Juazeiro resiste e depois contra-ataca, invadindo Crato em 24 de janeiro de 1914. As tropas fiéis ao Padre Cícero – comandadas por Floro e compostas de cangaceiros, ganham o pomposo apelido de Batalhão Patriótico.

Conquistado e saqueado o Crato, o Batalhão Patriótico segue conquistando outras cidades. Todas saqueadas pelos jagunços abençoados por Padre Cícero, que prometera a certeza do Paraíso para os que morressem em combate.

Em 9 de março de 1914, com o Batalhão Patriótico às portas de Fortaleza, o presidente da República Hermes da Fonseca, decreta o estado de sítio no Ceará. A capital cearense passa a ser controlada por guarnição federal. O general Setembrino de Carvalho é nomeado interventor do Ceará. Franco Rabelo é intimado por ofício a abandonar o Palácio do Governo. Os jagunços retornam a Juazeiro em 17 de março.

Walker relata que a Sedição de Juazeiro teve combates violentos com elevado número de mortes, especialmente do lado do governo estadual que foi derrotado. Ralph Della Cava (In: Walker) cita que Floro não conhecia uma única personalidade política no Ceará e jamais estivera em Fortaleza. Somente depois de ter ido ao Rio de Janeiro, em agosto de 1913, travou relações com a família Accioly, que dominou o Ceará até o ano de 1912.

Depois que juntos, em 1914, derrubaram o coronel Franco Rabelo da presidência do governo estadual, o Rio de Janeiro reconheceu o padre Cícero como o verdadeiro soberano do Vale do Cariri e Floro Bartolomeu, seu porta voz, que também era jornalista, como uma potência no cenário nacional.

Segundo Macaulay (1977), onze anos depois, em 1925, Juazeiro do Norte era a Meca do sertão nordestino, a sede de Padre Cícero Romão Batista (1844-1934), chefe espiritual e temporal de milhares de sertanejos, jagunços e de partidários políticos de Floro Bartolomeu. Nesse ano, enquanto a Coluna Prestes marchava através do vizinho estado do Piauí, o deputado Floro Bartolomeu obteve ajuda federal para combate-la, formando um batalhão patriótico, e conseguiu congregar uma força de uns 500 jagunços. Entretanto, não empregou bem suas tropas. Estava próximo da morte devido a uma doença degenerativa dos ossos; vítima de dores de cabeça freqüentes e intensas, era irritadiço e discutia constantemente com seus aliados e subordinados.

Floro Bartolomeu, compreendendo as dificuldades para enfrentar a guerra de movimento empregada pela Coluna Prestes, escreveu uma carta a Virgulino Ferreira da Silva convidando-o para vir a Juazeiro do Norte e juntar-se ao seu batalhão patriótico. O mensageiro custou a localizar o famoso cangaceiro, então acampado em Pernambuco. Quando ele e seus 49 cabras alcançaram Juazeiro, no dia 4 de março de 1926, Floro Bartolomeu agonizava no Rio de Janeiro, onde faleceu com honra de general de exército. O padre Cícero, entretanto, honrou o compromisso de seu parceiro moribundo e pressionou Pedro de Albuquerque Uchôa, inspetor do ministério da Agricultura, a assinar um documento comissionando Lampião como Capitão da Reserva do Exército.

Conforme consta em Macaulay (1977), Virgulino Ferreira da Silva (07.07.1897 – 28.07.1938) era mais conhecido como Lampião, porque disparava tiros de sua Winchester, em tão rápida sucessão, que a boca da sua arma desprendia a claridade de um lampião.

Meirelles (1996) relata: quando da passagem da Coluna Prestes pelo Ceará, o governo formou um batalhão de pistoleiros para perseguir as forças revolucionárias. O responsável pela organização dessa tropa foi o médico baiano e deputado federal pelo Ceará Floro Bartolomeu, que possuía grande influência no vale do Cariri e na capital da República.

Em Juazeiro do Norte Floro arregimentou cerca de 500 jagunços para lutar contra os revoltosos. Também tentou agregar ao seu exército o cangaceiro Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, com uma carta carinhosa, através da qual o convidou a se juntar aos seus homens no Batalhão Patriótico que estava formando. Após receber uma falsa patente de capitão do Exército, das mãos do padre Cícero, assinada por Pedro de Albuquerque Uchôa, inspetor do ministério das Agricultura, bem como honrarias, dinheiro, armas e munição, Lampião deixou a região contente e vaidoso, se considerando uma autoridade que não mais precisava temer a polícia. Resolveu entretanto não combater os rebeldes.

De acordo com Macaulay (1977), nessa oportunidade o capitão Virgulino, como ele passou a chamar-se, trocou suas velhas Winchesters por novas Mauser do Exército e no dia 9 de março de 1926 seguiu com seus cabras, supostamente para combater os revolucionários. Se os cangaceiros tinham quaisquer intenções a tal respeito, logo desistiram e retomaram suas atividades normais de banditismo. O comissionamento de Lampião, vetado pela oposição no Congresso Federal, embaraçou a administração do Rio de Janeiro e preocupou os governos de quatro estados nordestinos que haviam assinado um tratado comprometendo suas milícias a persegui-lo.

Chagas (1998) cita que Lampião, apesar de graduado, armado e fortemente municiado, deixou de combater a Coluna Prestes por ter sido informado de que os outros oficiais do exercito não reconheceriam a sua patente, que tinha sido fornecida por um agrônomo do Ministério da Agricultura e, portanto sem nenhum valor.

Segundo Castro (2000), Pedro Uchôa lavrou o seguinte ato:

 

Nomeio ao posto de capitão, o cidadão Virgulino Ferreira da Silva, a primeiro tenente Antônio Ferreira da Silva e a segundo tenente Sabino Barbosa de Melo, que deverão entrar no exercício de suas funções, logo que desse documento se apossarem.

Publique-se e cumpra-se.

Dado e passado no Quartel-General das Forças Legais em Juazeiro, 12 de Abril de 1926.

                                      Pedro de Albuquerque Uchôa

 

Floro morreu solteiro, no Rio de Janeiro, e foi sepultado no cemitério de São João Batista. Seus herdeiros foram as suas irmãs Eufrasina da Costa Monteiro, casada com Bernadino José Monteiro, e Libânia da Costa Melo, casada com Eugenio Albertino Melo, alem dos seus cinco sobrinhos, filhos do seu irmão unilateral Dr. Antonino Batista dos Anjos, cujos nomes eram João Batista dos Anjos, Aloysio Batista dos Anjos, Durvalina Batista dos Anjos, Hermínia Batista de Castelo, casada com Waldemar de Castelo, e Antônia Batista dos Anjos, casada com Dr. Aristides Alves Casaes Filho.

Os bens citados no seu inventário incluíam dinheiro, 2 casas residenciais, 4 terrenos, móveis/mobilhas, 61 cabeças de gado, 2 cavalos, 3 jumentos e 5 burros, avaliados em 56 contos de réis. As dívidas reconhecidas, de natureza diversa, totalizavam cerca de 20 contos de réis. Desse modo, a quantia repartida entre os herdeiros foi de cerca de 36 contos de réis. Considerando que durante o inventário, 58 cabeças de gado foram vendidas por 3 contos de réis, é possível concluir que o poder de compra dos 36 contos de réis permitia a aquisição de aproximadamente 700 cabeças de gado.

Deixe uma resposta

%d blogueiros gostam disto: