A guerra dos números das pesquisas eleitorais em Morro do Chapéu

Em menos de uma semana, dois resultados de pesquisa foram divulgados em Morro do Chapéu[1]. Destaco, de antemão, que a pesquisa de registro BA-07468/2020 teve sua divulgação suspensa por decisão da Justiça Eleitoral. A suspensão, no entanto, não impediu que os prováveis resultados navegassem pelas redes sociais. A pesquisa mais recente cumpriu os protocolos básicos da legislação eleitoral e teve sua divulgação pública garantida.

Escrevo, sem a pretensão de ensinar estatística. Não é, explicitamente, sobre médias aritméticas ( ponderada e não ponderada), moda, mediana, desvio padrão, enfim, sobre estatística descritiva ou probabilidades. A estatística indica tendências de ocorrências de eventos do muando natural e de mundo social. Não trata, portanto, de afirmar verdades. No entanto, caro leitor, devo dizer que tudo isso é usado, num jogo que envolve interesses políticos. A estatística, se bem aplicada, ajuda governos e empresas no planejamento de suas ações. Receio que o mesmo não esteja acontecendo com o nosso processo eleitoral. As discrepâncias dos resultados apresentados já são um indício. Além disso, não se discute os demais dados da pesquisa – rejeição, brancos, nulos, adequações e limitações da metodologia de pesquisa, regiões em que a rejeição do(a) candidato(a) é mais intensa, etc. A pesquisa, portanto, se resume a informar que “meu candidato vence” e o seu “perde”.

Nas redes sociais, a turma está em polvorosa. A euforia se assemelha à disputas de final de copa do mundo: o argumento fundamentado cede lugar para a paixão pelo time do candidato(a) A, B, C ou D. O clima é de jogo, mesmo, caro leitor! Uma guerra de torcidas! A relação dos números com a realidade eleitoral é o que menos importa. O que se quer é conquistar o voto útil, o voto daquele(a) eleitor(a) que vota “em quem vai ganhar”. Se a pesquisa fosse um instrumento com a única função de organizar estratégias de campanha, nem precisaria ser divulgada. Defendo que a pesquisa só deveria servir ao candidato, à cúpula de campanha, de maneira a buscar apoio e fortalecer ações em regiões em que o mesmo apresentasse forte rejeição ou intensificar ações nos locais que se quisesse ampliar sua rede de apoiadores. No entanto, o que se verifica é a necessidade de jogar os números na rede e convencer uma massa que grita “meu candidato já venceu!”.

Mas até que ponto isso é bom ou ruim? Honestamente, não vejo com com bons olhos, quando pesquisas se valem de mecanismos fraudulentos e/ou duvidosos para induzir ou “conquistar” o voto. De acordo Eric Maskin – Nobel de Enconomia em 2007 – muitos eleitores ainda votam no candidato que vai ganhar[2], é o chamado voto útil. E quem define o candidato que vai ganhar? Na dúvida, uma pesquisa fraudulenta e/ou duvidosa dá uma forcinha, de maneira similar a uma notícia falsa, com forte impacto no resultado eleitoral[3]. Ou seja, você, eleitor, pode está sendo enganado, induzido a votar na pior projeto político por “medo de perder as eleições”. Pergunto a você, caro leitor: isso é justo?

A pesquisa que indicava vantagem de Juliana Araújo, mesmo tendo divulgação proibida pela justiça eleitoral, continua sendo amplamente celebrada com a “verdadeira” por parte de muitos dos seus apoiadores. Não vou trazer os números, aqui, por respeito à decisão judicial. Mas devo lembrar sobre o que aconteceu em 2006, nas eleições estaduais da Bahia: pesquisas apontavam vitória esmagadora de Paulo Souto, candidato do antigo PFL, com 56% das intenções de voto, ainda no primeiro turno[4]. O que era uma vitória “certa”, transformou-se em um fiasco eleitoral e o candidato Jaques Wagner, do Partido dos Trabalhadores, venceu no primeiro turno.

Registrada no TSE e, por enquanto, não questionada legalmente, a pesquisa identificada por BA-04834/2020, indica que o candidato Cláudio estaria com vantagem em relação às candidatas Juliana, professora Sheila e Antonia Souto. A celebração dos apoiadores foi imediata, sem nenhum questionamento sobre as questões mais amplas da pesquisa. Destacarei, aqui, alguns pontos que considero relevantes e que podem ser entendidos por todos(as) sem a necessidade de um conhecimento aprofundado sobre estatística descritiva. Minha intenção não é desqualificar o instituto de pesquisa. A ideia é trazer alguma critica – elemento necessário à construção democrática. Vamos lá:

1) nas duas pesquisas aqui citadas, o entrevistador não questiona se a pessoa entrevistada é eleitora de Morro do Chapéu, simplesmente solicitando a opinião do entrevistado no mesmo instante. Surge, então, a seguinte questão: como podemos garantir, então, que todos os entrevistados são eleitores do nosso município? Este não é questionamento pessoal. Isso deve fazer parte do protocolo básico da pesquisa, sob risco de gerar dúvidas dos resultados apresentados.

2) o descuido com a pesquisa fica evidente no questionário utilizado pela pesquisa que aponta Cláudio como favorito. A questão 1, do referido questionário, pergunta VOCÊ VOTA NO MUNICÍPIO DE BARRADO MENDES-BA? – quando estamos tratando do processo eleitoral de Morro do Chapéu. Fica evidente o descuido na construção da amostra da pesquisa.

3) Em alguns povoados, o número de entrevistados não passou de dois moradores. Em São Rafael e Gruta dos Brejões, com 130 e 113 eleitores, respectivamente, somente duas pessoas foram consultados. Em Queimada, Flores, Barra 2, Mônica, Tareco, Olhos D’água, Rosa Benta, Dias Coelho, Mira Serra e Ponta D’água, somente 5 pessoas, por povoado, foram entrevistadas. Em alguns casos, por conta do baixo número de entrevistados, não é possível afirmar que amostra escolhida é adequada para as conclusões apresentadas. Este tem sido um problema recorrente em pesquisa eleitoral, como destaca Neto (2012) [5] de mostrando que, não raramente, “os institutos não adotam tamanhos de amostras, margens de erros e níveis de confianças apropriadas para suas pesquisas”,cometendo distorções na forma de coleta de dados, manipulação a mensuração dos dados e agindo de má-fé na hora da divulgação”.[6]

4) O que explica a diferença gritante nas intenções de votos,na rejeição de candidatos e nos demais aspectos, completamente alheios às margens de erros assumidas, entre as pesquisas apresentadas até o momento? Deixo esse questionamento aberto! Vamos pensar!

Para finalizar, não posso me opor a construção e divulgação de pesquisas – já que é uma prerrogativa legal de candidatos e coligações. A questão é uso público de pesquisas com vieses claramente eleitoreiros. Honestamente, pelo bem do nosso povo, não merecemos isso!

Gilvan Maia
Licenciado em Física
Mestre em Ensino de Física
Professor de Física – Secretaria de Educação do Estado da Bahia

[1] Os dados das pesquisa estão disponíveis em <http://inter01.tse.jus.br/pesqele-publico/app/pesquisa/listar.xhtml>. Acesso em 25/10/2020.

[2]Sistema eleitoral brasileiro estimula o voto útil, diz vencedor do Nobel de economia. Disponível em <https://epge.fgv.br/sites/default/files/sistema-eleitoral-brasileiro-estimula-o-voto-util-diz-vencedor-do-nobel-de-economia-extra-rj-29-7-2014.pdf>. Acesso em 26/10/2020.

[3] Notícias falsas influenciam eleições deste ano, dizem pesquisadores. Disponível em <https://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2018-11/noticias-falsas-influenciaram-eleicoes-deste-ano-dizem-pesquisadores>. Acesso em 25/10/2020.

[4]Com 56%, Paulo Souto seria reeleito no primeiro turno na Bahia. Disponível em <https://eleicoes.uol.com.br/2006/estados/bahia/ultnot/2006/07/26/ult3752u25.jhtm. Acesso em 26/10/2020.

[5]ERROS E FALHASDEPESQUISAS ELEITORAISE SUAS INFLUÊNCIAS NA DECISÃO DO VOTO DO ELEITOR Disponível em <http://www.cpgls.pucgoias.edu.br/8mostra/Artigos/SOCIAIS%20APLICADAS/ERROS%20E%20FALHAS%20DE%20PESQUISAS%20ELEITORAIS%20E%20SUAS%20INFLU%C3%8ANCIAS%20NA%20DECIS%C3%83O%20DO%20VOTO%20DO%20ELEITOR%20-%20M%C3%81RIO%20NETO.pdf> Acesso em 26/10/2020.

[6] Sobre o tema do erro sobre possíveis intenções de voto geradas por pesquisas eleitorais, indico o livro Erros nas Pesquisas Eleitorais de Opinião, de Alberto Carlos

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