A espera acabou: EPISÓDIOS DO JUNHÃO VII – ‘MAMÃE – a Sociedade Anônima!…’

Sumário: 

A mãe toma um empréstimo bancário e compra produtos para revender como sacoleira. Espera com essa atividade ter um complemento para renda familiar. No entanto, sem que ela perceba, o Junhão se torna o sócio majoritário da sua microempresa. Será que ela vai ter lucro?

 

MÃE

Cinquenta anos. Chega às quinze horas no apartamento com as compras que fizera no shopping. São muitos pacotes que ela cuidadosamente os coloca em cima da mesa. Depois vai para o quarto se preparar para tomar banho e trocar de roupa.

JUNHÃO

Trinta anos. Está curioso e aproveita a ausência momentânea da mãe. Sorrateiro, se levanta do sofá e vai bisbilhotar nos pacotes. A seguir, antes que a mãe volte e perceba que ele buliu nas compras, volta correndo para o sofá para continuar fingindo que está cochilando.

MÃE

Depois do banho ela volta para a sala e faz diversos telefonemas para vizinhas e amigas. Num dos telefonemas, conversa com uma amiga de muito tempo. Fala com desenvoltura:

– Pois é, Ritinha… Eu virei “impresára”! Agora sou sacoleira.

De repente a interlocutora diz alguma coisa e ela rebate com veemência:

– Não menina!… Eu não sou “sulanqueira”; não vendo roupas velhas. Estou no ramo chique da perfumaria e cosméticos. Vendo produtos de grife por ótimos preços. Espero que você venha aqui comprar bastante e traga todas as suas amigas. Estou precisando de muita força sua nesse sentido. Além do mais quero ver você muito bonita e cheirosa!

E assim prossegue com inúmeras ligações telefônicas para outras amigas e conhecidas, sempre no mesmo tom.

JUNHÃO

Continua deitado no sofá, em silêncio. Finge dormir na malícia para escutar todas as conversas. Fica quieto com os olhos entreabertos para espiar a movimentação da mãe (como dizem por aí, ele está na espinha mole). Possivelmente esteja maquinando alguma coisa com ideias mirabolantes…

MÃE

Está orgulhosa com a sua atividade empresarial que irá tirar a família do embaraço financeiro em que estão vivendo. Seus rendimentos irão ajudar o marido nas despesas domésticas. Imbuída de fé, exclama louvando:

– Tenho fé em Deus, que o Nosso Senhor Jesus Cristo não irá me desamparar numa hora “dessa”. Irei vender muitos produtos e darei metade do que ganhar em dízimos à igreja que congrego para louvor e glória do meu Deus, o Deus Vivo, o que nos fortalece!

JUNHÃO

Contrariado com a conversa desvairada que está ouvindo, aparenta estar acordando e ordena à mãe:

– “Pô”, quando você encarna numa coisa vira paranoia, que até se esquece de providenciar a comida para suprir a despensa. Desse jeito amanhã vai faltar comida e eu vou ficar de “rango”, morrendo de fome… É por isso que todo mundo tá dizendo que eu “tou” ficando muito magro. Vá logo ao supermercado para fazer as compras!

MÃE

Mesmo revoltada com a preguiça do filho ela não quer de maneira alguma que o seu filhinho passe por alguma necessidade. Fica preocupada com a queixa do filho e apressa-se para ir fazer as compras. Mas, antes de sair, retruca:

– Ao invés de se preocupar só com o “de comer”, você deveria arranjar um trabalho para cooperar com as despesas da casa. Seu pai, apesar de velho, vive pelo mundo como um desvalido trabalhando como caixeiro-viajante e não se queixa da vida. Você deveria ter vergonha na cara e se “espelhar nele”!

JUNHÃO

Assim que ela sai para fazer as compras no supermercado ele se levanta ligeiro do sofá e abre os pacotes que estão sobre a mesa para examinar os produtos. Comenta para si mesmo:

– “Eithaa”!… Vou “lavar a jega”! Aqui tem um monte de perfume “massa”…

De repente ele tem um estalo mental e diz com arrebatamento:

– “Peraí”!… A Janete, minha “ficante”, tá precisando de bons perfumes e maquiagens!… Vou dar uns presentes a ela pra minha média ir lá pra cima!… Quando ela receber os presentes vai saber que tou na dela e aí vai ser só love.

MÃE

Nesse momento ela está no supermercado fazendo as compras despreocupadamente. As filas estão imensas.

JUNHÃO

Aproveita a ocasião por estar sozinho e telefona para os amigos. Fala demonstrando entusiasmo:

– É um “negócio da china”! “Tou” vendendo perfumes importados, maquiagens e cosméticos, tudo por apenas dez por cento do preço de custo! Avise à galera que tem urgência, porque o estoque é limitado. Não vai dar pra quem quer. Façam os pedidos porque o serviço é “delivery”.

O amigo diz alguma coisa e ele esclarece:

– Não, velho! Fique tranquilo!… Ela não está aqui. A megera foi fazer compras, por isso tenho pressa. Quem vai levar o bagulho é o gago, mototáxi. É só me dar o endereço de onde você está que ele faz a entrega “de boa”. Não se preocupe porque hoje à noite eu pego o dinheiro das vendas na mão de vocês.

 

 

MÃE

Está numa fila enorme no caixa do supermercado. Ela se desdobra em gentilezas com todas as pessoas, aproveitando a ocasião para fazer a publicidade dos produtos que irá vender.

JUNHÃO

Recebe inúmeros telefonemas com os pedidos de compra e rapidamente empacota a mercadoria que foi encomendada. Quando termina, manda o mototáxi entregar os produtos aos fregueses. Concluído o serviço, deita-se no sofá para descansar.

MÃE

Chega com as compras do supermercado. Encontra o filho “dormindo” no sofá. Ela manteve muitos contatos com futuras clientes que encontrou durante as compras no mercado e está eufórica. Enquanto prepara a janta, exclama:

– Dessa vez eu “tiro o pé da lama”! A minha “impreza” informal é um sucesso! Hoje arranjei muitas freguesas. Vou ficar rica! Talvez milionária… Até que enfim o meu marido não vai precisar mais viajar para trabalhar. Graças ao meu bom Deus! Já tá na hora do coitado se aposentar. De agora em diante as despesas da casa serão por minha conta. Quando ele se aposentar a grana mixuruca vai servir só para comprar os remédios da velhice.

E complementa o raciocínio:

– Como o governo é canguinho com quem trabalhou a vida inteira, ainda bem que vou ter bastante dinheiro pra ajudar o meu velhinho. Graças ao meu bom Deus!

JUNHÃO

Senta-se à mesa e come rapidamente o jantar em silêncio. Depois vai para o quarto se arrumar para sair à noite. Pretende farrear e fazer as cobranças dos produtos que vendeu. Embora não demonstre, está muito satisfeito com o resultado das suas vendas.

MÃE

Depois de lavar os pratos ela vai para a sala e senta-se à mesa da sala para colocar os preços nas mercadorias que irá vender. Está muito contente e cantarola.

Porém, quando ela abre a primeira sacola que trouxera toma um susto enorme. Desconfiada, imediatamente apalpa as outras; percebe que fora lograda. Todos os pacotes que trouxera estão quase vazios. A seguir, se levanta assustada. Os olhos estão esbugalhados. Faz um grande bico com os beiços e coça o queixo. Desgostosa, fita o olhar nos poucos produtos que restaram. Logo a cabeça começa a fumaçar e ela grita estrondando o apartamento:

– Alcebíades Júnior, venha “cá” ligeiro, “miséra”!…

JUNHÃO

Chega ronceiro aparentando estar assustado com a convocação estridente. Fica calado fingindo estar curioso para saber a razão daquela histeria.

MÃE

Inquire nervosa:

– Onde está a maior parte das mercadorias que comprei?!… Cadê o meu ganha-pão? Os produtos não “tem perna”, prá sumirem daqui sozinhos! Dê conta da minha “guia” agora, vagabundo!!!

JUNHÃO

Aparentando indiferença, responde fazendo muxoxo:

– Sei lá, “velho”! Você botou os bagulhos aí na mesa e eu fiquei dormindo no sofá…

MÃE

Aflita, coloca as mãos na cabeça. Está desolada e começa a se lamuriar:

– Não sei o que vou fazer para pagar o empréstimo que tomei no banco para comprar as mercadorias! Ainda não comecei e já estou falida!… Você é o culpado da minha derrota.

JUNHÃO

Dissimulado, argumenta para afastar a suspeita sobre ele:

– Você deveria ter conferido a mercadoria quando comprou… É isso o que acontece com quem vive no “mundo da lua”. Vai ver que só lhe entregaram estas mercadorias que estão aí e você com esse estresse não percebeu a enrola da loja. Ou então a igreja já levou a metade do que você ia dar de dízimo…

MÃE

Ignorando a ironia do filho, retruca:

– Posso ser ignorante, mas não sou burra! Eu conferi tudo, tim-tim por tim-tim! Tirei as mercadorias da loja e coloquei em cima da mesa quando cheguei em casa. Elas sumiram como?!…

Inconsolável, completa lastimosa:

– E agora, onde vou arranjar dinheiro para pagar o banco? Dessa vez nem Jesus me salva!…

JUNHÃO

Sai “de fininho” e vai para a noitada. Lá se encontra com a galera e faz a cobrança dos perfumes e cosméticos que vendeu. Alegre, certamente irá curtir nas boates com os bolsos cheios da grana resultante da apropriação indébita. Apesar disso ele tem plena certeza de que o dinheiro lhe pertencia, ao invés de virar dízimo para a igreja. Endinheirado, ele será o rei da “balada”, acompanhado da sua glamourosa Janete.

Durante a farra, Janete tentando ser agradável pergunta pela sogra e ele simplesmente responde de forma seca:

– Sei lá! Aquela velha é “piradona”, não tem quem aguente a “nóia” dela.

 

Autor: Joswilton Lima

 

Joswilton Lima é natural de Ilhéus-Ba, mas é domiciliado há mais de vinte anos em Morro do Chapéu. Tem formação em Ciências Econômicas, mas sempre foi voltado para as artes desde a infância quando começou a pintar as primeiras telas e a fazer os seus primeiros escritos. Como artista plástico participou de salões onde foi premiado com medalhas de ouro e também de inúmeras exposições coletivas nos estados da Bahia, Sergipe e Pernambuco. Possui obras que fazem parte do acervo de colecionadores particulares e entidades tanto no Brasil, quanto em países do exterior, a exemplo dos E.U.A, Portugal, Espanha, França, Itália e Alemanha. Possui o site www.joswiltonlima.com onde tem uma mostra de algumas de suas pinturas em diferentes técnicas e estilos, sendo visualizado por inúmeros países.

Em determinada época lecionou pintura em seu atelier no bairro de Santo Antonio Além do Carmo, em Salvador, e foi membro de comissões julgadoras em concursos de pintura. Nesse período exerceu a função de Diretor na Associação dos Artistas Populares do Centro Histórico do Pelourinho (primitivistas e naif’s), em Salvador.

Como escritor também foi premiado em diversos concursos de contos tendo lançado um e-book com o título “Enigmas da Escuridão”, com abordagem espiritualista, tendo obtido a nota máxima de 5 estrelas de leitores do site www.amazon.com.br Outros contos e romances estão sendo escritos.

Concomitante às atividades artísticas sempre exerceu funções laboriosas em diversos setores produtivos, tendo se aposentado recentemente na Secretaria da Fazenda do Estado da Bahia, onde trabalhou por muitos anos na Fiscalização.

https://www.amazon.com/Epis%C3%B3dios-Junh%C3%A3o-Portuguese-Joswilton-Jorge/dp/B08PQP2SF2/ref=sr_1_1?dchild=1&keywords=epis%C3%B3dios+do+junh%C3%A3o&qid=1607603931&sr=8-1

 

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