Catolicismo a baiana, devagar, quase parando – Presença Real: Transubstanciação e Fé – “Isto é o Meu Corpo”.

Palavras que cortam a alma

Há palavras que precisamos ouvir devagar. Algumas não podem ser engolidas rapidamente, porque carregam mistério, peso e glória. Uma delas é esta:

“Isto é o meu corpo.”

Jesus as pronunciou na Última Ceia, e nelas se condensa um dos maiores segredos da fé cristã. Não é metáfora. Não é símbolo. Não é linguagem figurada. É um fato. Um milagre. Um mistério.

A Igreja Católica crê e sempre creu que essas palavras realizam o que dizem. O pão deixa de ser pão. O vinho deixa de ser vinho. A realidade muda, embora as aparências permaneçam.

O que significa “Isto é o Meu Corpo”
As palavras de Cristo não são como as nossas. Quando Deus fala, as coisas acontecem. Ele disse: “Faça-se a luz” — e a luz se fez (cf. Gn 1,3). Quando Jesus diz “isto é o meu corpo”, sua palavra criadora realiza o que proclama.

Nos Evangelhos, essa frase aparece em quatro lugares centrais:

Mateus 26,26

Marcos 14,22

Lucas 22,19

1Coríntios 11,24

Todas essas fontes são unânimes: Jesus não diz “isto representa”, “isto simboliza” ou “isto lembra”. Ele afirma: “Isto é o meu corpo”.

A linguagem é direta. O verbo é claro. O tom é solene. Cristo não está comentando, explicando ou sugerindo está instituindo.

O povo judeu que ouviu Jesus dizer, em João 6, que deviam comer sua carne e beber seu sangue, não entendeu como metáfora. Ficaram escandalizados e muitos o abandonaram (cf. Jo 6,60-66). Mas Jesus não recuou, não “explicou melhor”. Ao contrário, reafirmou:

“A minha carne é verdadeira comida, e o meu sangue é verdadeira bebida” (Jo 6,55).

É o único momento nos Evangelhos em que uma multidão larga Jesus por causa de um ensinamento. E mesmo assim Ele não volta atrás.

A doutrina da Transubstanciação
A Igreja, desde os primeiros séculos, procurou dar nome a esse mistério. Foi no Concílio de Trento (século XVI), em resposta às negações protestantes, que a palavra transubstanciação foi oficialmente adotada:

“Pela consagração do pão e do vinho, opera-se uma mudança de toda a substância do pão na substância do Corpo de Cristo, Nosso Senhor, e de toda a substância do vinho na substância do seu Sangue. Esta mudança, a Igreja católica denominou, de maneira conveniente e própria, transubstanciação.” (Conc. Trento, Sess. XIII, cap. 4)

O Catecismo da Igreja Católica retoma esse ensinamento:

“Pela consagração, opera-se a conversão de toda a substância do pão na substância do Corpo de Cristo e de toda a substância do vinho na substância do seu Sangue. Esta conversão é chamada, de modo apropriado e próprio, transubstanciação.” (CIC §1376)

É um termo técnico, sim, mas preciso: significa que a substância (a realidade mais profunda do que a coisa é) se transforma, ainda que as espécies (aparências sensíveis) permaneçam.

Isso não é filosofia abstrata: é o modo como a Igreja explica uma experiência que já vivia há séculos — e que é confirmada na Liturgia, na Tradição e nos santos.

Falsas compreensões: “apenas símbolo?”
Muitos grupos cristãos não-católicos interpretam a Eucaristia como algo meramente simbólico. Dizem que Jesus falava figuradamente, que era uma representação espiritual. Mas isso contraria a própria reação dos discípulos em João 6, a prática da Igreja primitiva e os ensinamentos patrísticos.

Brant Pitre, ao estudar as raízes judaicas da Eucaristia, mostra que para um judeu do tempo de Jesus, o termo “carne” (basar, em hebraico) não era usado em linguagem simbólica para a Lei ou a Palavra e que “beber sangue” era escandaloso, porque o sangue era reservado para Deus.

Se Jesus queria apenas usar uma metáfora, ele escolheu a pior possível.
Por que usaria expressões tão gráficas e repulsivas para os ouvintes, se quisesse apenas falar de “fé” ou “comunhão espiritual”?

A resposta é simples: Ele não falava em figura. Ele queria ser comido. Queria tornar-se alimento.

É o escândalo da Encarnação levado até o extremo: Deus não só se faz homem, mas se faz pão.

Como dizia Santo Inácio de Antioquia (†107 d.C.):

“A Eucaristia é a carne de nosso Salvador Jesus Cristo, que padeceu por nossos pecados.” (Carta aos Esmirniotas, 7,1)

Ou São Justino (†165):

“Este alimento é chamado Eucaristia […] não o recebemos como pão comum, mas como carne e sangue de Jesus.” (Apologia, I,66)

A Igreja jamais entendeu a Missa como uma encenação ou lembrança simbólica. A fé da Igreja sempre foi esta: o altar é o Calvário, o sacerdote age in persona Christi, e o que está no cálice é o Sangue do Cordeiro.

Sinais para os fracos
Como se não bastassem as palavras de Cristo, a fé dos apóstolos e a doutrina dos concílios, Deus ainda nos concede sinais sensíveis: milagres eucarísticos.

Brant Pitre analisa um dos mais famosos: o Milagre de Lanciano, na Itália. No século VIII, um monge que duvidava da presença real viu a hóstia consagrada transformar-se em carne visível, e o vinho tornar-se sangue. A Igreja analisou, séculos depois, e confirmou: a carne é tecido cardíaco humano, do tipo AB, sem sinais de decomposição.

Outros milagres semelhantes ocorreram ao longo dos séculos: em Bolsena, Sokolka, Buenos Aires… Sempre para reacender a fé dos crentes e chamar a atenção para o que está no altar.

Mas o maior milagre continua escondido, humilde, silencioso. A cada Missa válida, Cristo se entrega inteiro. É o mesmo Cristo da cruz. A mesma oferta. O mesmo Amor.

As raízes judaicas da Presença Real (com Brant Pitre)
A grande chave que Brant Pitre oferece em Jesus and the Jewish Roots of the Eucharist é mostrar que a Eucaristia não surge no vácuo, mas é o cumprimento das expectativas judaicas do Messias.

No contexto do judaísmo do Segundo Templo, três elementos são essenciais:

O maná no deserto alimento milagroso dado por Deus a Israel (cf. Êx 16). Segundo o Talmud, o Messias traria novamente o maná escondido, como sinal escatológico. Quando Jesus diz “o verdadeiro pão do céu é o que desce do céu e dá vida ao mundo” (Jo 6,32-33), Ele se apresenta como o novo maná, não apenas no sentido simbólico, mas real: “Quem comer deste pão viverá eternamente” (Jo 6,51).

A Páscoa judaica era uma refeição sacrificial, não apenas comemorativa. O cordeiro pascal tinha que ser comido. No tempo de Jesus, os judeus acreditavam que ao celebrar a Páscoa, participavam misticamente da libertação do Egito. Jesus leva isso ao extremo: Ele é o verdadeiro Cordeiro (cf. Jo 1,29), e sua carne deve ser comida para que a nova libertação aconteça do pecado e da morte.

A “presença de Deus” no Templo chamada em hebraico de shekinah. O Santo dos Santos era o lugar da Presença. Com a destruição do Templo, esperava-se que Deus voltasse a habitar entre os homens. Pois é exatamente isso que acontece na Eucaristia: Deus tabernacula novamente entre nós, como no Êxodo (cf. Jo 1,14: “o Verbo se fez carne e armou sua tenda entre nós”).

Brant Pitre mostra que Jesus não apenas institui um novo rito, mas cumpre as mais profundas esperanças messiânicas do seu povo de um novo êxodo, uma nova aliança, uma nova presença de Deus. A Eucaristia é tudo isso.

A resposta dos santos: quando a fé vê mais do que os olhos
Muitos santos viveram da Eucaristia. Não apenas como devoção, mas como alimento real da alma. Alguns exemplos intensificam o que ensinamos com palavras:

São Tomás de Aquino, ao terminar de escrever os hinos e orações para a Solenidade de Corpus Christi, recitou:

“Adoro-te com fé, escondido sob estas aparências.” (Adoro te devote)

Beata Alexandrina da Costa, em Portugal, viveu por 13 anos sem outra alimentação senão a Eucaristia.

São Padre Pio, que chorava ao celebrar a Missa, dizia:

“Se as pessoas soubessem o que acontece na Missa, precisariam de seguranças para conter as multidões.”

Esses testemunhos não são exageros piedosos. São eco da fé da Igreja, expressa em vidas consumidas pela presença de Cristo no altar. Onde os olhos veem pão, a fé vê Deus.

As exigências morais da Presença Real
Crer na Presença Real não é apenas uma questão doutrinal: implica consequências éticas, espirituais e sacramentais.

A comunhão exige preparação:

“Quem come o pão ou bebe o cálice do Senhor indignamente, será réu do Corpo e do Sangue do Senhor.” (1Cor 11,27)

Isso implica confissão sacramental prévia em caso de pecado grave (§1385 do Catecismo).

O comportamento na igreja deve mudar:
A presença real de Cristo no tabernáculo requer silêncio, reverência, adoração, modéstia, jejum eucarístico, e sobretudo, um coração recolhido.

A Eucaristia exige missão:
Quem comunga de Cristo, é enviado ao mundo.
A Missa termina com um envio: “Ide em paz”, que não é apenas uma despedida, mas uma missão apostólica. O Cristo que recebemos deve ser levado ao mundo no testemunho, na caridade, na coragem da fé.

A fé que reconhece é amor que se ajoelha
A Eucaristia é o maior presente de Deus à sua Igreja. É Cristo inteiro escondido, silencioso, vulnerável, entregue. Ele se faz pão para estar conosco, para nos alimentar, para nos transformar.

Mas só o reconhece quem tem fé.

Os olhos do mundo veem apenas farinha.
Os olhos da carne veem apenas ritual.
Mas os olhos da fé veem Jesus.

Como os discípulos de Emaús:

“Ele foi reconhecido ao partir o pão.” (Lc 24,35)

Que o nosso coração também arda no peito. Que nossos olhos se abram. E que, diante do altar, da hóstia, do sacrário, possamos dizer com Tomé:

“Meu Senhor e meu Deus.”

Referência bibliográfica:

 

Franklin Ricardo, Católico, esposo, pai de quatro filhos, estudante de artes liberais, filosofia e teologia, apaixonado pela cultura latina e pelos grandes clássicos da cultura ocidental; ex-ateu, converso pela graça santificante.

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