Este texto é a primeira coluna de uma nova série; você pode conferir a série anterior a partir deste link: Do Sentido da vida a autoridade da Igreja.
Por que Jesus fez tudo isso? – A finalidade da Encarnação desde a eternidade
A cruz sempre foi um escândalo. Para os judeus, um sinal de maldição; para os gregos, uma loucura (1Cor 1,23). Mas nela repousa a resposta para a pergunta fundamental: por que Jesus fez tudo isso? O que levou Deus, infinito e perfeito, a assumir a nossa carne e caminhar entre nós?
O amor desde toda eternidade
A fé cristã nos convida a contemplar um mistério que antecede a própria criação. Antes do primeiro “Faça-se a luz” (Gn 1,3), antes que houvesse tempo ou matéria, Deus já havia decidido unir-se à humanidade. São Paulo nos diz que fomos escolhidos “nele antes da fundação do mundo” (Ef 1,4). E João proclama: “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus” (Jo 1,1). Cristo não é um improviso, um “plano B” diante da queda do homem. Desde toda a eternidade, a vontade divina era comunicar-se conosco, elevar-nos à comunhão com Ele.
Por quê? Porque Deus é amor (1Jo 4,8). Não um amor abstrato ou sentimental, mas um amor que se derrama, que deseja compartilhar sua plenitude. A Santíssima Trindade é uma comunhão de amor perfeita, e a criação foi o ato de dar espaço para que outros participassem dessa vida divina. O homem, feito à imagem e semelhança de Deus, era o ápice desse plano: um ser chamado a conhecer e amar seu Criador. E Cristo, o Verbo encarnado, seria a ponte definitiva entre Deus e o homem.
O problema do pecado
Mas, se o amor divino era o plano original, por que o caminho passou pelo drama da cruz? Aqui entra o mistério do pecado. Deus quis filhos livres, não marionetes. E a liberdade inclui a possibilidade da recusa. O pecado original foi essa recusa primordial, uma rebelião contra a ordem do amor. A justiça divina exigia reparação, pois Deus não pode negar sua própria santidade. Mas, ao invés de abandonar o homem à sua miséria, Ele mesmo desceu até nós para resgatar-nos.
Santo Anselmo explica que o pecado do homem ofendeu a infinita majestade de Deus, criando uma dívida que só poderia ser paga por alguém igualmente infinito. Mas nenhum homem poderia satisfazer essa dívida; apenas Deus. Assim, o próprio Deus se fez homem para que, na cruz, a justiça e a misericórdia se encontrassem (Sl 84,11). Santo Atanásio expressa isso de forma ainda mais ousada: “Deus se fez homem para que o homem se tornasse Deus” (De Incarnatione). Aqui está o ponto central: a Encarnação não foi apenas um meio para a cruz, mas um ato divino de amor que visava nossa comunhão e participação na vida de Deus!
Cristo, o Novo Adão
Se Adão foi a cabeça da humanidade caída, Cristo é o Novo Adão, que recapitula toda a criação em Si. Como ensina Santo Irineu, Jesus refaz, passo a passo, a história humana, curando nossa natureza ferida. Onde o primeiro Adão desobedeceu, Cristo obedeceu até a morte (Rm 5,19). Onde Eva caiu pela palavra da serpente, Maria, a nova Eva, acolheu a palavra do anjo. A cruz não é um acidente de percurso, mas o trono da glória. É ali que Deus, longe de abandonar sua criação, a redime com o próprio sangue.
Mas essa recapitulação não aconteceu apenas na cruz. Cada ato de Cristo já era um passo rumo à redenção: no batismo, Ele santifica as águas; nas curas, Ele restaura a dignidade do homem; na transfiguração, antecipa sua glória. Tudo converge para o momento supremo do Calvário, onde Ele toma sobre Si nossas dores e fardos.
O sentido último da Encarnação
Jesus não veio apenas para consertar o que foi quebrado, mas para elevar-nos ao que sempre fomos chamados a ser: participantes da natureza divina (2Pd 1,4). Seu sacrifício não é apenas um pagamento de dívida, mas um convite ao amor total. “Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida por seus amigos” (Jo 15,13). Ele se entrega não por obrigação, mas porque deseja nossa união eterna com Ele.
Essa entrega culmina na cruz, mas se perpetua na Eucaristia. São Leão Magno nos ensina que “o que era visível em Cristo passou para os sacramentos da Igreja”. A comunhão que Ele veio estabelecer não é algo distante: está acessível a cada um de nós no altar, no Batismo, na Confissão. A resposta ao amor divino se dá na nossa adesão concreta à vida cristã, no seguimento de Cristo.
Pensar nisso muda tudo. A fé não é uma simples moral ou um sistema de regras, mas a resposta a um chamado eterno. A manjedoura de Belém e o madeiro do Calvário são os sinais visíveis de um amor que não tem começo nem fim. Esse amor nos chama à conversão, a carregar nossa própria cruz e a amar como Ele amou. E nós, tantas vezes distraídos em nossas preocupações diárias, somos convidados a olhar para Ele e entender: fomos pensados, amados e desejados antes que o primeiro raio de sol tocasse a terra.
Esse amor nos chama hoje. Responderemos a esse chamado?
Mas quem somos nós, afinal, para receber um chamado tão grandioso? Se a Encarnação revela a dignidade e o destino do homem, também nos leva a questionar nossa posição no cosmos. Deus criou não apenas o mundo visível, mas também um mundo invisível, povoado por criaturas puramente espirituais. Os anjos e os demônios, seres que transcendem nossa experiência sensível, desempenham um papel fundamental na história da salvação. Quem são eles? Como sua existência se relaciona com a nossa jornada rumo a Deus?
Ao olharmos para a grande narrativa da criação e redenção, percebemos que não estamos sozinhos. Antes mesmo da queda do homem, houve outra rebelião: aquela dos anjos que escolheram rejeitar Deus para sempre. E se a Encarnação é a resposta ao pecado humano, o que ela significa diante do conflito cósmico entre os espíritos fiéis e os que se tornaram inimigos de Deus? Essas são as questões que enfrentaremos a seguir.
Indicações bibliográficas:
REDEMPTORIS MISSIO – A VALIDADE PERMANENTE DO MANDATO MISSIONÁRIO
Por Que Deus Se Fez Homem? – Santo Anselmo
Patrística – Contra os Pagãos | A Encarnação do Verbo | Apologia ao Imperador Constâncio | Apologia de sua Fuga | Vida e Conduta de S. Antão – Vol. 18 (Volume 18) – Santo Atanásio de Alexandria
Patrística – Contra as Heresias – São Irineu de Lião
Franklin Ricardo, Católico, esposo, pai de quatro filhos, estudante de artes liberais, filosofia e teologia, apaixonado pela cultura latina e pelos grandes clássicos da cultura ocidental; ex-ateu, converso pela graça santificante.