Catolicismo à baiana, devagar, quase parando.
Os seres espirituais
Este texto é parte de uma nova série:
1º –Por que Jesus fez tudo isso?
2º –A Criação
Você pode conferir a série anterior a partir deste link: Do Sentido da vida a autoridade da Igreja.
Os Anjos: Servos e Mensageiros de Deus
A existência dos anjos é uma verdade de fé, atestada pela Sagrada Escritura e pelo Magistério da Igreja. Criaturas espirituais puras, os anjos foram feitos por Deus para O servirem e
auxiliarem na execução de Sua vontade. A palavra “anjo” vem do grego “ángelos”, que significa “mensageiro”, refletindo um dos aspectos fundamentais de sua missão.
A Natureza dos Anjos
Os anjos são seres espirituais, sem corpo físico, dotados de inteligência e vontade. Ao contrário dos homens, eles não possuem uma natureza composta de corpo e alma, mas são substâncias espirituais puras. O Catecismo da Igreja Católica ensina que “como criaturas puramente espirituais, eles têm inteligência e vontade: são criaturas pessoais e imortais, ultrapassando em perfeição todas as criaturas visíveis” (CIC, 330).
Por serem espirituais, os anjos não estão sujeitos às limitações físicas, podendo agir de forma mais ágil e eficaz do que qualquer ser humano. Mesmo sem um corpo físico, podem interagir com o mundo material por permissão divina, como mostram diversas passagens bíblicas, desde as aparições a Abraão (Gn 18) até as intervenções angélicas no Novo Testamento.
A Hierarquia Angélica
A Tradição da Igreja, com base em passagens bíblicas como Efésios 1,21 e Colossenses 1,16, aponta para uma hierarquia entre os anjos, dividida em três coros principais:
- Os Serafins, Querubins e Tronos – Os anjos que estão mais próximos de Deus, louvando-O continuamente.
- As Dominações, Virtudes e Potestades – Responsáveis pela ordem do universo e pelos grandes acontecimentos divinos na criação.
- Os Principados, Arcanjos e Anjos – Atuantes mais diretamente no mundo, sendo os anjos que interagem com os homens. Os arcanjos, como São Miguel, São Gabriel e São Rafael, possuem missões especiais relatadas na Bíblia.
Santo Tomás de Aquino explica que essa hierarquia reflete a distinta participação de cada coro no governo divino e no auxílio à criação. Segundo ele, os anjos não aprendem ou evoluem como os homens, pois sua compreensão é direta e instantânea.
A Missão dos Anjos
A missão dos anjos se desdobra em três principais aspectos:
- Louvar a Deus: Desde a visão de Isaías (Is 6,2-3) até a revelação de São João no Apocalipse (Ap 5,11-12), vemos os anjos incessantemente louvando a majestade divina.
- Servir como Mensageiros: São Gabriel anuncia a encarnação do Verbo a Maria (Lc 1,26-38), mostrando o papel dos anjos na comunicação dos desígnios divinos.
- Proteger e Guiar os Homens: O conceito do anjo da guarda tem fundamento nas Escrituras. O Salmo 91,11 proclama: “Pois ele dará ordem a seus anjos a teu respeito, para te guardarem em todos os teus caminhos”. São Basílio ensina que “cada fiel tem ao seu lado um anjo como protetor e pastor para o conduzir à vida”.
O estudo sobre os anjos nos convida a reconhecer a presença desses servos de Deus em nossa vida. Eles intercedem por nós, protegem-nos dos perigos e nos ajudam a caminhar na fé. Como nos ensina a Igreja, podemos cultivar nossa relação com os anjos por meio da oração, especialmente pedindo a proteção do anjo da guarda e venerando os arcanjos. Que possamos,
como Igreja peregrina, confiar na sua proteção e pedir sua intercessão diante do trono do Altíssimo.
Os Demônios: A Queda dos Anjos e a Batalha Espiritual
A existência dos demônios é uma realidade atestada pela Sagrada Escritura e pela Tradição da Igreja. Esses espíritos caídos eram originalmente anjos criados por Deus, mas, por um ato de rebelião, afastaram-se para sempre da Sua luz. Desde então, tornaram-se adversários da humanidade, buscando afastá-la do plano divino e introduzindo o pecado no mundo, tornando-se seus primeiros propagadores.
A Origem da Queda
Os anjos foram criados bons e dotados de inteligência e livre-arbítrio. Contudo, a Tradição ensina que houve um teste de fidelidade, no qual uma parte dos anjos, liderada por Lúcifer, rebelou-se contra Deus. O motivo exato dessa rebelião é um mistério, mas teólogos como Santo Agostinho e Santo Tomás de Aquino sugerem que o orgulho de Lúcifer originou-se da recusa em aceitar a Encarnação do Verbo e a exaltação da humanidade no plano divino. Para esses anjos caídos, era inaceitável que Deus Se fizesse homem e elevasse a natureza humana à comunhão com Ele.
A Escritura descreve essa queda em passagens simbólicas, como Isaías 14,12-15 e Apocalipse 12,7-9, onde São Miguel Arcanjo e seus anjos combatem e expulsam os rebeldes do céu. Como consequência de sua rebelião, os anjos caídos foram privados da visão beatífica e condenados ao tormento eterno (Mt 25,41). Diferentemente dos homens, cuja liberdade se exerce no
tempo e permite mudança, os anjos fizeram uma escolha eterna em um único ato, selando seu destino para sempre.
A Natureza e a Ação dos Demônios
Os demônios mantêm sua natureza angélica e seus poderes intelectuais, mas estão corrompidos pelo pecado e destinados à perdição. Não podem se arrepender, pois sua escolha foi definitiva. Seu objetivo agora é afastar a humanidade de Deus por meio da tentação, do engano e da subversão da ordem moral.
O Novo Testamento está repleto de exemplos da ação demoníaca, desde as tentações sofridas por Cristo no deserto (Mt 4,1-11) até os inúmeros exorcismos realizados por Ele. São Pedro adverte: “Sede sóbrios e vigiai. Vosso adversário, o diabo, anda em derredor como um leão que ruge, buscando a quem devorar” (1Pd 5,8).
A Influência Demoníaca no Mundo Moderno
(A inversão demoníaca)
Embora muitos associem a ação demoníaca apenas a possessões e fenômenos extraordinários, os teólogos alertam que sua influência se estende a áreas mais sutis. O Pe. Gabriele Amorth, exorcista de renome, enfatizou que os demônios também operam através de estruturas sociais e ideológicas que promovem a desordem moral, o materialismo, o relativismo e a cultura da morte. Movimentos que negam a dignidade humana, a verdade objetiva e a lei natural podem, em última instância, ser instrumentos dessa influência.
A exaltação do consumismo, que reduz a pessoa a um objeto de desejo, ou a romantização do ocultismo em filmes e jogos, exemplificam como o Maligno opera veladamente na cultura.
Além disso, o acúmulo de pecados individuais dá origem a estruturas de pecado que afastam não apenas pessoas, mas nações inteiras de Deus. A banalização do ocultismo e do satanismo na cultura contemporânea abre portas perigosas para a atuação demoníaca. O afastamento da fé e da vida sacramental torna as pessoas mais vulneráveis às insídias do Maligno.
São Miguel e a Batalha Celestial
A Igreja sempre invocou São Miguel Arcanjo como protetor na luta contra as forças do mal. No Apocalipse, ele lidera os anjos fiéis na batalha contra Satanás (Ap 12,7-9), simbolizando a vitória final de Deus sobre o mal.
A oração a São Miguel Arcanjo, composta pelo Papa Leão XIII, continua sendo uma arma poderosa na batalha espiritual:
“São Miguel Arcanjo, defendei-nos no combate. Sede o nosso refúgio contra as maldades e ciladas do demônio.
Que Deus manifeste o seu poder sobre ele. Eis a nossa humilde súplica.
E vós, Príncipe da Milícia Celeste, com o poder que Deus vos conferiu, precipitai no inferno Satanás e os outros espíritos malignos, que andam pelo mundo tentando as almas. Amém.” Muitos fiéis e exorcistas testemunham os efeitos dessa prece na proteção contra influências malignas.
A Vitória de Cristo e a Nossa Defesa
Apesar do poder dos demônios, a vitória definitiva já pertence a Cristo. Sua Paixão, Morte e Ressurreição quebraram o domínio de Satanás e abriram para nós as portas da graça. A melhor defesa contra o mal é uma vida de oração, o uso dos sacramentos, especialmente a Confissão e a Eucaristia, e a recitação diária do Rosário, como aconselhado por Nossa Senhora em suas aparições.
Assim, a realidade dos demônios nos chama à sobriedade espiritual e à confiança na vitória de Cristo. Com a proteção de São Miguel, a força dos sacramentos e a intercessão de Maria, podemos enfrentar a batalha espiritual certos de que o mal, por mais astuto que seja, já foi
vencido na Cruz. Como nos exorta São Paulo: “Revesti-vos da armadura de Deus, para que possais resistir às ciladas do demônio” (Ef 6,11).
Indicações bibliográficas:
HUMANUM GENUS – Sobre a maçonaria
A geração abandonada – Gabriele Kuby
Como vencer a guerra cultural – Peter Kreeft
Franklin Ricardo, Católico, esposo, pai de quatro filhos, estudante de artes liberais, filosofia e teologia, apaixonado pela cultura latina e pelos grandes clássicos da cultura ocidental; ex-ateu, converso pela graça santificante.