Catolicismo à baiana, devagar, quase parando: ‘O Pecado e o Mal: Uma Criação Angélica’

 

Catolicismo à baiana, devagar, quase parando.

 

Você pode conferir a série anterior a partir deste link: Do Sentido da vida a autoridade da Igreja. Este texto é parte de uma nova série:

 

–Por que Jesus fez tudo isso?A Criação

– Os seres espirituais

 

O Pecado e o Mal: Uma Criação Angélica

 

 

Agora que compreendemos quem são os anjos e os demônios, podemos finalmente explorar a origem do pecado e do mal. Esses dois flagelos da criação não surgem do nada: eles nascem do ato de negar — uma recusa deliberada à harmonia divina estabelecida por Deus. Durante séculos, a natureza do mal atormentou os filósofos, desafiando suas tentativas de explicá-lo. Foi Santo Agostinho quem ofereceu uma resposta satisfatória, ao definir o mal não como uma substância em si, mas como a privação do bem, uma distorção da ordem criada. No entanto, compreender racionalmente o mal e buscar sua superação só é plenamente possível em uma relação íntima com Deus. Quanto maior essa proximidade, maior o discernimento sobre o pecado — e, consequentemente, a capacidade de resistir à sua sombra.

 

O Pecado dos Anjos

 

 

Se o pecado e o mal nascem do ato de negar, a primeira negação registrada na criação não veio dos homens, mas dos anjos. Antes da queda da humanidade, houve a queda dos espíritos angélicos, e foi nela que o pecado surgiu pela primeira vez. Mas como pode um ser criado na presença de Deus, dotado de inteligência superior e sem a inclinação ao erro que aflige os homens, voltar-se contra seu próprio Criador? A resposta está na liberdade. Os anjos, criaturas de puro intelecto, foram criados para amar e servir a Deus, mas esse amor não poderia ser imposto. Como ensina São Tomás de Aquino, os anjos possuem um intelecto puríssimo e uma vontade firmíssima, o que significa que seu primeiro ato de escolha era definitivo. Diferente dos homens, que aprendem e amadurecem ao longo da vida, os anjos, ao tomarem uma decisão, a fazem de modo irrevogável. E foi nesse instante que surgiu a recusa: Lúcifer, o mais esplendoroso dos anjos, rejeitou a ordem divina e arrastou consigo um terço das hostes celestes (cf. Ap 12,4). Seu pecado foi a soberba — ele quis ser “como Deus” (cf. Is 14,12-14), não em comunhão com Ele, mas por si mesmo. Foi a recusa em servir, sintetizada na terrível declaração: Non serviam! — “Não servirei!” Com esse ato de orgulho, Lúcifer e seus seguidores caíram imediatamente. Expulsos do Céu, tornaram-se os demônios, inimigos eternos de Deus e da humanidade. O mal não foi criado por Deus, mas nasceu dessa escolha errada, dessa negação voluntária do Bem Supremo. Como uma árvore que se separa de suas raízes, os anjos caídos perderam a luz e a graça, tornando-se seres deformados pela própria recusa.

 

O Mistério da Permissão Divina do Mal

 

 

Diante da queda dos anjos e do surgimento do mal, surge uma questão inevitável: por que Deus, sendo sumamente bom e onipotente, permitiu que o mal existisse? Se o mal não foi criado por Deus, mas nasceu da escolha errada das criaturas, por que Ele não impediu essa rebelião desde o princípio?

 

A resposta está no próprio coração do mistério da liberdade. Deus, em Sua sabedoria infinita, concedeu às Suas criaturas espirituais o dom de escolherem entre amá-Lo livremente ou rejeitá-Lo. Um amor que fosse imposto, sem alternativa, não seria amor verdadeiro. Assim, Deus permitiu que os anjos exercessem essa liberdade, ainda que isso incluísse a possibilidade da negação.

 

Santo Agostinho e São Tomás de Aquino ensinam que Deus não permitiria o mal se não soubesse tirar dele um bem maior (Felix culpa! – “Ó culpa feliz!”, canta a Igreja na Vigília Pascal). O próprio drama da queda angelical se insere em um desígnio divino mais amplo: se Lúcifer e seus sequazes trouxeram trevas à criação, Deus, por Sua providência, ordenou tudo para que, no fim, Sua justiça e misericórdia brilhassem ainda mais.

 

Além disso, a permissão do mal está diretamente relacionada à manifestação da glória de Deus. Como ensina São Paulo, “onde abundou o pecado, superabundou a graça” (Rm 5,20). A queda dos anjos não diminuiu a majestade divina, mas revelou, ao longo da história da salvação, os atributos de Deus de forma ainda mais profunda: Sua paciência ao suportar os ímpios, Sua justiça ao punir os soberbos e, sobretudo, Sua misericórdia ao resgatar os que caíram.

 

No fim, o mistério da permissão do mal só pode ser compreendido à luz da cruz. Cristo, o Verbo Encarnado, venceu o mal não pela supressão da liberdade, mas pelo sacrifício redentor. O que começou com a rebelião angélica encontrou sua resposta definitiva no madeiro da cruz, onde Deus, em Sua infinita sabedoria, transformou a maior injustiça da história na fonte da redenção do mundo.

 

O Impacto do Mal na Criação e na Humanidade

 

 

A queda dos anjos, ainda que ocorresse na esfera espiritual, não permaneceu isolada. Seu impacto se estendeu à criação como um todo, pois o mal, uma vez introduzido pela rebelião angélica, tornou-se um elemento de desordem no cosmos. Deus criou o mundo em perfeita harmonia, mas essa harmonia foi desafiada pela presença dos anjos decaídos, que se tornaram os inimigos da ordem divina.

 

Esse impacto do mal se tornou plenamente evidente quando o homem, criado à imagem e semelhança de Deus, foi tentado e caiu. A Escritura nos ensina que Satanás, o líder dos anjos caídos, usou sua inteligência e astúcia para enganar nossos primeiros pais. Ele não possuía o poder de forçá-los ao pecado, mas seduziu-os à desobediência, sugerindo-lhes a mesma tentação que o levou à queda: “sereis como deuses” (Gn 3,5).

 

Com a queda de Adão e Eva, o pecado penetrou na humanidade e, por meio deles, atingiu toda a criação. Como explica São Paulo:

 

“Sabemos que toda a criação geme e sofre as dores do parto até o presente” (Rm 8,22).

O mundo material, que antes refletia a bondade e a ordem divina sem qualquer corrupção, passou a experimentar a degradação e o sofrimento. O próprio trabalho do homem, que deveria ser fonte de alegria, tornou-se árduo; o parto da mulher tornou-se doloroso; a morte, antes inexistente, entrou no mundo.

 

Essa corrupção, no entanto, não significa que o mundo seja essencialmente mau. A criação continua boa, pois foi feita por Deus, mas está ferida. A presença do pecado no mundo é como uma rachadura em uma obra-prima: a beleza original ainda está lá, mas distorcida pela imperfeição.

 

O maior impacto do mal, no entanto, foi a separação entre Deus e a humanidade. Adão e Eva foram expulsos do Éden, símbolo da comunhão perfeita com Deus, e o homem passou a experimentar a inclinação ao pecado (concupiscência), tornando-se vulnerável às sugestões do maligno.

 

Mas Deus, em Sua infinita misericórdia, não abandonou a humanidade à própria sorte. Desde a queda, iniciou um plano de redenção, anunciado já no próprio Gênesis:

“Porei inimizade entre ti e a mulher, entre a tua descendência e a dela; ela te esmagará a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar” (Gn 3,15).

 

Essa promessa, conhecida como Protoevangelho, já anunciava a vitória final sobre o mal. A luta entre a descendência da mulher e a serpente se tornou o fio condutor da história da salvação, culminando na vinda de Cristo, o novo Adão, que reabriria ao homem as portas da comunhão com Deus.

 

O Caminho para a Compreensão: A Natureza Humana

 

 

Diante de tudo isso, fica evidente que o pecado e o mal não são realidades autônomas ou forças independentes no universo, mas distorções da ordem divina, frutos da recusa voluntária à verdade e ao amor de Deus. Agora podemos compreender que o pecado é um ato contra a natureza, a razão ou a graça, pois desvia a criatura do fim para o qual foi criada, rompendo sua harmonia interior e sua relação com Deus. A queda dos anjos e a queda da humanidade são capítulos dessa mesma tragédia: a criatura que, dotada de liberdade, escolhe voltar-se contra seu Criador.

 

Mas se o pecado deformou o mundo e desfigurou a alma humana, o que havia antes dele? Se queremos realmente entender o que perdemos com a queda e como podemos nos restaurar, é essencial voltarmos ao princípio e investigarmos como o homem foi criado.

 

Que natureza nos foi concedida por Deus? Qual era o estado original da humanidade antes da corrupção do pecado? E o que isso nos ensina sobre o propósito da religião?

 

A resposta a essas perguntas não é apenas teórica, mas profundamente prática. Só compreendendo o que fomos no Éden e o que perdemos podemos, de fato, viver a fé de maneira autêntica. A religião não é um simples conjunto de regras ou tradições, mas o caminho

 

 

para a restauração da nossa verdadeira identidade. Conhecer nossa origem é essencial para entender nosso destino.

 

Por isso, exploraremos a natureza humana e os dons concedidos por Deus no ato da criação, para que possamos discernir não apenas o que perdemos, mas sobretudo como reencontrar aquilo para o qual fomos feitos desde o princípio dos tempos.

 

Indicações bibliográficas:

Deus e o mundo – Cardeal Joseph Ratzinger

Caderno de estudos bíblicos, Gênesis – Scott Hahn e Curtis Mitch Questões sobre Gênesis – Fílon de Alexandria

Os Anjos – São Tomás de Aquino

 

Franklin Ricardo, Católico, esposo, pai de quatro filhos, estudante de artes liberais, filosofia e teologia, apaixonado pela cultura latina e pelos grandes clássicos da cultura ocidental; ex-ateu, converso pela graça santificante.

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