Catolicismo à baiana, devagar, quase parando: ‘Batismo: morrer debaixo d’água para nascer do Alto’

Você pode conferir as séries anteriores a partir dos link: Do Sentido da vida a autoridade da igreja; A criação, anjos e demônios, o mal o pecado e o ser humano

 

Liturgia o serviço de Deus a seu povo.; 2 Sacramentos: a torneira que nos conecta à fonte da graça

 

 

 

Você já morreu. E talvez nem se lembre. Quando a água tocou sua fronte, você foi sepultado com Cristo — e nasceu uma criatura nova. Não foi símbolo, foi realidade. Invisível aos olhos, eterno para Deus.

 

O Batismo é o primeiro e fundamental sacramento da vida cristã. Não é um rito social, uma cerimônia de boas-vindas ou um costume familiar. É morte e ressurreição. É passagem. É gênese e êxodo. É o sepultamento do homem velho e o nascimento do homem novo.

 

Jesus disse com clareza desconcertante: “Quem não nascer da água e do Espírito, não pode entrar no Reino de Deus” (Jo 3,5). Não é uma metáfora. É uma condição. Pelo Batismo, somos libertos do pecado, feitos filhos de Deus, incorporados ao Corpo de Cristo e participantes da missão da Igreja. Somos enxertados na videira, alimentados pela seiva da graça.

 

 

 

 

São Paulo diz: “Fomos sepultados com Cristo na morte pelo Batismo, para que, como Cristo ressuscitou dos mortos, assim também nós vivamos uma vida nova” (Rm 6,4). Santo Irineu, no século II, já explicava: assim como o barro sem água não pode ser moldado, nós sem o Batismo não podemos receber a forma de Cristo.

 

A Igreja sempre viu no Batismo não apenas um começo, mas uma transformação profunda. Por ele, recebemos a graça santificante, as virtudes teologais, os dons do Espírito, a capacidade de chamar Deus de Pai. Por ele, o Céu se abre e o inferno recua. Não há sacramento mais simples — e mais poderoso.

 

E essa transformação não é apenas pessoal. Pelo Batismo, somos incorporados à Igreja, o Corpo de Cristo, tornando-nos membros vivos de uma comunidade que transcende o tempo e o espaço. Não é um evento isolado, mas um chamado a viver em comunhão, partilhando a missão de testemunhar o Evangelho. Como diz São Paulo: “Todos nós fomos batizados num só Espírito para formarmos um só corpo” (1Cor 12,13). A Igreja, como mãe e mestra, nos acolhe, nos sustenta e nos envia, para que a graça batismal floresça em serviço aos irmãos e em louvor a Deus.

 

O Batismo é administrado com água natural, que é a sua matéria, por imersão ou por infusão (derramamento), e a sua fórmula é a que o próprio Cristo nos ensinou: “Eu te batizo em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo”. O ministro ordinário é o bispo, o padre ou o diácono, mas em caso de necessidade qualquer pessoa pode batizar, desde que tenha intenção de fazer o que a Igreja faz.

 

O rito é um verdadeiro drama espiritual. Começa com o sinal da cruz, passa pela escuta da Palavra, a profissão de fé, a renúncia ao pecado, a bênção da água, a unção com o óleo dos catecúmenos, o batismo propriamente dito, a unção com o óleo do Crisma, a entrega da veste

 

 

branca e da vela acesa. É um Pentecostes em miniatura. Uma travessia do Mar Vermelho. Uma páscoa.

 

E se o Batismo é tão essencial, o que dizer daqueles que não o receberam? Essa pergunta aparece cedo ou tarde. E o índio do século XII? E a criança que morreu sem Batismo? E o catecúmeno mártir que não chegou à pia?

 

A resposta da Igreja é sóbria e cheia de esperança. Há o Batismo de sangue, que é o martírio por Cristo antes de receber o sacramento. Os santos mártires catecúmenos foram reconhecidos como batizados com o próprio sangue, pois se uniram ao sacrifício de Cristo até o fim. A água não chegou à sua pele, mas o sangue de Cristo os lavou. A pia não os acolheu, mas o desejo e o testemunho os levou às fontes da vida.

 

Há também o Batismo de desejo: quando alguém, movido pela graça, deseja sinceramente o Batismo mas morre antes de recebê-lo. Isso vale tanto para os que já estavam se preparando para recebê-lo, quanto para aqueles que, sem conhecer o Evangelho, buscaram a Deus com reta consciência. O Concílio de Trento já afirmava: a justificação pode vir também pelo desejo do Batismo, unido à contrição perfeita.

 

E há ainda os caminhos que só Deus conhece. O Catecismo da Igreja Católica afirma com delicadeza teológica: “Aqueles que, sem culpa própria, ignoram o Evangelho de Cristo e a sua Igreja, mas procuram sinceramente a Deus e se esforçam por cumprir a sua vontade, conhecida por meio da consciência, podem conseguir a salvação” (CIC 1260).

 

Deus não está preso aos sacramentos, ainda que os tenha estabelecido como meios ordinários da salvação. Mas nós, que conhecemos a vontade de Cristo, não podemos viver como se fossem opcionais. A ignorância invencível é uma coisa. A negligência culpável, outra.

 

Muitos se perguntam também: por que batizar crianças, se elas não têm fé consciente? Porque a graça não depende da nossa compreensão, mas da ação livre de Deus. Porque o pecado original está ali, e precisa ser apagado. Porque a fé da Igreja — representada pelos pais e padrinhos — sustenta aquela pequena alma no limiar da vida espiritual. E, sobretudo, porque é assim desde os tempos apostólicos: “Batizou-se Lídia, e toda a sua casa” (At 16,15). Não há razão para excluir as crianças do novo nascimento, se não as excluímos da vida natural.

 

 

 

 

Além disso, seria absurdo pensar que a Nova e Eterna Aliança em Cristo fosse inferior à Antiga. Na Antiga Aliança, as crianças também eram inseridas no povo de Deus: os meninos pela circuncisão ao oitavo dia, e as meninas por ritos associados à purificação e à consagração familiar. Ora, se a Nova Aliança é perfeita, ela deve incluir com ainda mais força os pequenos. Jesus mesmo disse: “Deixai vir a Mim as crianças”. Negar-lhes o Batismo seria uma traição à lógica da salvação que abraça o homem por inteiro — desde o ventre.

 

O Batismo imprime caráter. Uma marca invisível, indelével, que nem o tempo, nem o pecado, nem a morte podem apagar. Não se pode repetir o Batismo. Uma vez batizado, para sempre batizado. O Céu conhece você por essa marca. A pergunta é: você a reconhece?

 

Ser batizado é ter um selo eterno, mas também um chamado diário. Não basta ter recebido o sacramento. É preciso viver segundo a graça que ele nos deu. Isso significa renunciar ao pecado, alimentar-se da Palavra, confessar-se com regularidade, comungar com fé, testemunhar Cristo na vida concreta.

 

O Batismo também é uma promessa que pede renovação. Por isso a Igreja nos convida, especialmente na Vigília Pascal, a renovar as promessas batismais: renunciar ao demônio, ao pecado, e professar a fé no Deus Uno e Trino. Mas essa renovação precisa ser feita não só com os lábios, mas com a vida. Cada vez que caímos, voltamos à fonte. Cada vez que confessamos, reativamos as graças do nosso Batismo. Cada vez que celebramos a Eucaristia, aprofundamos a comunhão iniciada na pia batismal. Viver batizado é viver em conversão.

 

Você já morreu. E nasceu de novo. Talvez não se lembre, mas Deus lembra. O selo está ali. A graça foi dada. E se você se afastou, se vive como se aquele dia não tivesse mudado nada… volte à fonte. Volte à água. Volte a Deus.

 

 

Porque o Batismo é só o começo. E Deus não esquece o dia em que você nasceu para Ele.

 

Referências Bibliográficas

 

Bíblia Sagrada

Edição utilizada: Bíblia Ave-Maria, edição pastoral. São Paulo: Paulinas, 2011. Passagens citadas: João 3,5; Romanos 6,4; 1 Coríntios 12,13; Atos 16,15.

 

Catecismo da Igreja Católica (CIC)

Catecismo da Igreja Católica. Vaticano: Libreria Editrice Vaticana, 1993 (última edição revisada). Parágrafo citado: 1260.

 

Concílio de Trento

Concílio de Trento. Sessão VI, 7 de agosto de 1547. Decreto sobre o Sacramento do Batismo.

 

Irineu de Lyon

Santo Irineu de Lyon. Contra as Heresias. Livro II, capítulo 22.

Tradução e edição: [especifique a tradução ou edição usada, se desejar].

 

Magistério da Igreja

 

•     Sacrosanctum Concilium (Constituição sobre a Liturgia), Concílio Vaticano II, 1963.

 

•     Lumen Gentium (Constituição Dogmática sobre a Igreja), Concílio Vaticano II, 1964. Vaticano: Libreria Editrice Vaticana.

 

 

Franklin Ricardo, Católico, esposo, pai de quatro filhos, estudante de artes liberais, filosofia e teologia, apaixonado pela cultura latina e pelos grandes clássicos da cultura ocidental; ex-ateu, converso pela graça santificante.

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