Carlos Karoá escreve: ‘TAPETE VERMELHO MANCHADO DE SANGUE’

A afirmação de que toda moeda tem duas faces, é absolutamente verdadeira quando temos a distinta entre os dedos. Basta só dar uma olhadinha e vira-la pra riba e pra baixo.

Mas, esta frase também nomeia uma advertência duplamente criteriosa. Lembrar que não há mal que sempre dure, nem um bem que nunca se acaba. A dualidade de tudo que nos acontece, precisa ser observada. “C’est lá vie”.

A arte, curiosamente escolhe o subúrbio e os catres vulneráveis, pra lançar a sua rede. Acolhe para as luzes da ribalta, quem por muitas vezes andou de pés no chão, não por segurança ou sensatez e sim por falta de sapatos aquecendo os dedos. Na música, na dramaturgia, nos esportes, astros e estrelas têm na sua origem, a humildade e a carência generalizada, como companheiras de infância.

Para exemplos neste texto, escolho a dramaturgia Hollywoodiana de anos passados, por ser ela a íris colorida de quem a conheceu.

O glamour, a fama, a beleza, o prestígio, a riqueza, foram adjetivos contumazes nas vidas dos moradores das colinas de Beverly Hills. Semideuses, despertavam a inveja e a cobiça pelos seus estilos de viver a vida. Porém, nem todos eles tiveram a ventura do bônus sem ônus. A vida lhes cobrou tributos pesados e relevantes, na proporção inversa da glória que um dia, lhes serviu de manto.

Charlize Theron, a estrela sul-africana, ganhadora do “Oscar” na categoria melhor atriz, pela sua performance na aclamada fita “Monster-desejo assassino” de 2004, também viveu seus momentos de fundo do poço. (Vi o filme, ela está realmente fantástica)

Charlize pisou o tapete vermelho da academia de artes cênicas de Hollywood, sentindo o espocar de milhares de flashes iluminando os seus belos olhos verdes. Naqueles instantes não caminhava, levitava em vôos de anjos, como se anjo fosse. Não cabia em si de tanta ventura. Ganhar um “Oscar” é um feito colossal, mas nada nesta vida corre célere e cristalino como arroios das montanhas, sempre tem uma coisinha dolorosa, para ser o pinguinho da poluição.

Morando ainda na África do Sul, presenciava as brigas constantes dos pais Charles e a mãe Gerda Martiz. O pai era alcoólatra, desequilibrado e as agressões faziam parte do cardápio diário das suas vidas. Em 1995, com apenas 15 anos, estava ao lado da mãe, quando esta desferiu um tiro de revólver, assassinando o marido, seu pai. O histórico comprovado de tapas e bufetes, sofridos pela genitora, foi o passaporte para a sua absolvição, alegando legítima defesa. O fato desta natureza, é como marca de fogo, sara, mas não desaparece.  Sempre que se coloca a cabeça no travesseiro, a imagem tortuosa salta aos olhos e irão acompanhar quem as viveu, pro resto das suas vidas. Apesar de falar deste drama, com a naturalidade de quem não carrega culpa, sabemos que este fardo não vai abandona-la, enquanto não estiver vivendo em sua vida, uma cena de cinema. Há uma tristeza sombreando os seus olhos, quando em entrevistas profissionais, este assunto vem à baila. Não esquecerá jamais.

Lana Turner, a “garota do suéter” símbolo sexual das décadas de 40 e 50, por muito tempo desfilou louvores e amores em Hollywood. Super requisitada pelos estúdios, um dos maiores salários dos sets de filmagem, também passou pelos portais da glória e do infortúnio.

Belíssima, louríssima, rica, famosa, esquentou seus lençóis com noitadas de puro glamour, com a volúpia onerosa que só o dinheiro pode comprar. Colegas de profissão, ricos industriais, eram os seus parceiros, mas, é conveniente lembrar, que os deuses aqui do chão, são meros mortais quando a tela se apaga. Não se sabe porque, deixou-se envolver, com um criminoso de nome Johnny Stompanato, guarda costas do mafioso Mickey Cohen. Truculento, adepto da violência, usava a força para fazer exigências financeiras e favores amorosos. A vida da estrela, de radiantes manhãs de verão, de uma hora pra outra, se tornou noites escuras do mais tenebroso inverno.

Lana tinha uma filha, também atriz, chamada Cheryl Crane. Numa noite, no final da década de 50, cansada de ver a mãe ser acossada pelo grandalhão, desferiu vários golpes de faca no agressor de corpanzil avantajado. Matou-o, deixando imensas poças de sangue, na sala luxuosa da casa da blonde platinada. Na época, os jornais questionaram a possibilidade de uma garota fazer esta bravura, uma vez que Cheryl era franzina e tinha apenas 14 anos. O mafioso mau caráter, tinha bem mais de 140 quilos. A garota era menor de idade, alegando legítima defesa, mãe e filha, pisaram o terreno da absolvição e cruzaram os portões da liberdade. Muitos creditaram a Lana Turner, a autoria da proeza. Após está desdita pública e pessoal, a deusa loira dos contos de fadas em preto e branco e também coloridos, nunca mais foi a mesma atriz glorificada, das grandes produções das telas da Metro Goldwyn Mayer. Realidade e ilusões a gente sabe, não é a mesma coisa.

Todos os adjetivos a respeito do astro Marlon Brando, são agraciados com superlativos adocicados de paixão. Considerado o maior ator Hollywoodiano de todos os tempos (concordo) pode-se afirmar, que não foi com tapinhas nas costas, que merecidamente foi alçado a esta honraria. Versátil ao extremo, podia cavalgar um potro selvagem ou pilotar com garbosa eficiência, um caça de combate. Fazia de tudo com extrema perfeição. Briguento, recusou estar presente na premiação da Academia, para receber um “Oscar” pela sua atuação no aclamado “O Poderoso Chefão”, vivendo o “Big Boss” da máfia, Don Vito Corleone. A data deste imbróglio foi 27 de março de 1973 e o motivo da briga, foi o tratamento inexpressivo que a Televisão, o cinema e povo americano, dispensava à raça indígena. Mas, nem tudo foi luzente na vida do grande astro. Pai de 11 filhos, com mães diferentes evidentemente, dois destes, foram com a atriz taitiana chamada Tarita Teriipaia. Um garoto, chamado Tehoto e uma garota chamada Cheyenne Brando.  Estes eram seus nomes, de batismo.

A menina namorava um menino chamado Dag Drollet, filho da atriz Galesa Anna Kashfi e segundo comentários dos tabloides, o namoro era tumultuado por ciúmes e distribuição de catiripapos no auge das diferenças. Tapas e beijos fazem parte de relações destrambelhadas, mas infelizmente no dia 16 de maio de 1990, Christian Brando, irmão de Cheyenne, matou com um tiro de revólver, o namorado da irmã, o jovem Dag Drollet. Alegou disparo acidental, mas não escapou da sentença de assassinato em primeiro grau.

Desgostosa, chorosa, Cheyenne voltou para o Tahiti e depois de internações e constatação de esquizofrenia, a jovem modelo em 16 de abril de 1995, tirou a própria vida. As duas tragédias abalaram por inteiro o espírito do grande astro americano. Desgostoso, desiludido, recolheu-se numa ilha no Tahiti, tornou-se obeso e arredio em relação a câmeras e microfones.  Perdeu o encanto pela arte de representar e melancolicamente no dia 03 de julho de 2004, na Califórnia, o grande Marlon Brando voou pros céus, deixando em mim e em quem gosta de cinema, um turbilhão de saudades.

Uma jovem de nome Norma Jeane Mortenson nascida em Los Angeles em 01 de junho de 1926, alcançou o estrelato das telas iluminadas ainda em preto e branco, com o sugestivo codinome de Marilyn Monroe. Corpo de curvas sinuosas, volúpia em demasia, tornou-se o maior símbolo sexual dos estúdios das terras do Tio Sam. Louríssima, lá blonde deixava em êxtases abismais, quem lhes pusesse os olhos, imaginando talvez, o quanto seria divinal receber consensualmente, um tiquim dos seus carinhos. Sem dúvidas, no seu tempo era a mulher mais desejada do cinema.

Não foi premiada com um “Oscar,” porque a academia tinha reservas com o segmento comédia e aventura romântica, mas recebeu um ” globo de ouro” pela sua performance na comédia “Quanto mais quente melhor” na companhia dos atores Tony Curtis e Jack Lemonn. Apesar dos permanentes holofotes por onde passava, sua vida pessoal jamais foi um cantinho de branduras. Filha bastarda, jamais soube quem era seu pai. Nas suas loucuras amorosas, teve que fazer dois abortos e assim que se tornou uma estrela luminosa, gaviões poderosos queria um quinhão dos seus achegos. Foi assim com o presidente John Kennedy e o seu irmão Robert. Colegas de profissão também desfrutaram da sua suspirante alcova, o que por associação, rendia ciúmes perigosos. Envolver-se com gente poderosa, pode trazer desafios difíceis de superar e eu acredito piamente que por isto, no dia 04 de agosto de 1962, aos 36 anos, a linda atriz foi encontrada morta em sua casa, vitimada por over dose de barbitúricos. Foi noticiada esta “causa mortis” pela imprensa, mas todo mundo sabia que Marilyn no auge da fama jamais faria este ato de horror. Cá comigo, também tenho as minhas dúvidas. Os poderosos não medem os seus atos, quando o assunto é defender os seus interesses.

Há uma mandala recheada de tragédias, nesta Seara iluminada, que é, o mundo do cinema. Christopher Reeve, um ator Nova Iorquino de físico avantajado, conseguiu um feito singular. Caiu nas graças do público de cine mania e anexou no seu curriculum de artista, a alcunha permanente de nosso eterno Super-homem. Literalmente voando no topo do mundo, após 04 edições de vivência na tela como o Homem de Aço, foi escalado para fazer um papel no filme “Anna Karenina”. Teria que praticar equitação e numa dessas aulas de hipismo, caiu do cavalo e quebrou o pescoço. Tetraplégico, só conseguia mover os olhos. O fato aconteceu em 1995 e depois de penar por 09 anos, em 10 de outubro de 2004, entregou a alma ao criador, com apenas 52 anos vividos. Ainda não surgiu em nenhum estúdio, alguém com carisma superior ao dele, pra deixar a garotada pensando, que tudo aquilo que ele fazia, era verdadeiro.

Steve McQueen era um semideus de olhos azuis, quando botou o rosto nas telas já em cinemaScope, nas salas de projeção. Para ser astro também na TV, foi apenas um pulinho de macaco.  Encantava desde a garotada teen, até os cinéfilos cinquentões. Deixava em delírio as moçoilas em final de adolescência, pelo carisma e talento que mostrava. Sorte tem que quem sorte procura e fazendo valer o esforço, chegou em suas mãos o roteiro do festejado “Papillon” onde ele teria o protagonismo ao lado de Dustin Hoffman. Arrasou de vez. Foi alçado ao Panteão dos grandes atores do mundo. Mas o destino lhes reservava uma surpresa das mais bizarras. Diagnosticado com câncer de pulmão, foi embora desta terra encantada, abarrotadinha de ilusões e verdades, difíceis de aceitar.

Em 7 de novembro de 1980, com apenas,50 anos, Steve McQueen voou pros céus.

Patrick Swayze, não tinha apenas um rosto bonito pra fazer sucesso diante das câmeras. Tinha talento e versatilidade pra viver situações antagônicas, fosse qual fosse o roteiro que lhes chegasse as mãos. Exímio dançarino, boxeador de mãos limpas, fez de tudo até a sorte lhes sorri, com o premiado “Ghost, do outro lado da vida” que rendeu a Whoopi Goldberg, o “Oscar” de atriz coadjuvante. Tornou-se conhecido no mundo inteiro, ficou milionário, mas tempos depois um câncer de próstata lhes tirou toda a alegria de viver. A medicina não pode trazer de volta a sua saúde e nada mais pode fazer, a não ser esperar a hora de ir embora para sempre. É doído, mas neste mesmo barco estamos todos nós. Jim Carrey, Jack Nicholson, Demi Moore, Michael Douglas, Woody Harrelson e mais uma gama de atores e atrizes, viveram tragédias em suas vidas. Nós seus admiradores, imaginávamos que os semideuses não passavam por provações e que os seus dias seriam de um festim permanente. Invejamos seus excessos quando por vezes nos faltam, tudo aquilo que lhes sobra. Mas, a realidade tem um viés escondido na manga do destino e ele pode cair nas mãos de qualquer jogador. Sem distinção, sem escolha de cor, credo ou conta bancária, o resultado do jogo pode ser o que nunca imaginaríamos que pudesse acontecer. Todos nós, viventes, estamos sujeitos a tudo que neste mundo tem.

Carlos Karoá, amante de música e cinema, também tem paixão pelo universo das letras. Em 1970, deixou Morro do Chapéu com destino a Salvador, como fazia todo jovem interiorano daquela época. Hoje aposentado, retorna à nossa cidade em busca de uma vida mais tranquila. Gosta de escrever crônicas e pequenos contos, sejam eles verdadeiros ou não.

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