Carlos Karoá escreve: ‘PALAVRAS AO VENTO’

PALAVRAS AO VENTO

 

“Vou me embora pra pasárgada, lá sou amigo do rei”. Com estes versos de uma alusão fantasiosa e adocicada do infanto reino da carochinha, o pernambucano Manoel Bandeira, poeta, escritor, crítico de arte e outros balangandãs, compra o passaporte para um dos assentos da Academia Brasileira de Letras. Acho que pelo conjunto da obra, o velho Manoel já tinha no bolso do colete, um ticket, ou uma passagem dobradinha para adentrar aquela casa de fardões e cafezinho no cair da tarde. As palavras, que tanto nos encantam, pelo protagonismo no universo literário, com o passar do tempo ou pertencerem a regiões diferentes, sofrem mudanças as vezes curiosas, as vezes engraçadas, ou simplesmente deixaram de existir. Outras naturalmente, aparecem nas trilhas dos acontecimentos ou invenções humanas. Quase tudo neste mundo, vai se adequando à contemporaneidade. É a lei do cosmo.

O certo é que eu, de quando em vez, sinto vontade de ir também, para o reino simplório das ilusões vividas, que ficou bem lá atrás, no tempo das coisas simples, que a gente por deboche, as vezes saudades, ou maldade pejorativa, costumávamos chamar, de “tempo do atraso”. Neste tempo das coisas simples, a velocidade humana era de 10 km por hora, mas a sede de descobrir, saber, sonhar ou inventar, beirava a velocidade da luz.

É verdade que a molecada de hoje, bem mais moderna, não se senta em calçadas ou qualquer um outro lugar onde se pode fazer, ajuntamento de garotos, para contar histórias de princesas adormecidas, príncipes empunhando espadas para salvar as suas amadas, enfrentando dragões soltando fogo pelas ventas. Convenhamos, não combina com o intelecto da turma que recebe informações via satélite. No meu tempo de guri, a gente fazia isto, sentado nos passeios de moradias ou casas comerciais.

Naqueles bons tempos, naturalmente porque a juventude tava no viço do rosto, o linguajar da ponta da língua era bem diferente dos dias de agora, com o rosto vetusto de rugas e acentuadas marcas de expressão. As garotas usavam” fátima”nas unhas,” bobs” nos cabelos e “lápis creon”nos olhos. Tudo em nome da beleza. Quanto mais bela, mais chamativa, mais admirada.  Isto era evidenciado, logo após ganhar o seu primeiro ” califon”.  Antes dele chegar, a diversão mesmo era jogar giribita, pular macaco e brincar de casinha de bonecas. Existia uma outra terminologia feminina, a insinuante”caçola”, que se evaporou no modernismo feminil, talvez pelo fonema extremamente démodé.  Naquelas pecinhas de sugestiva utilidade, as mães das donzelas sonhadoras, por cuidados maternos, chegavam a bordar o nome da filhota, num dos lados da perna da mimosa intimidade. Ganhou o status francês de conjunto de lingerie e a alcunha mais bonitinha e delicada de “calcinha”. Convenhamos, o segundo é bem mais sensual e delicadamente feminino.

Nomenclatura diferente, vocábulos acompanhando a bainha das novas invenções, o diálogo entre um avô e um neto, passou a ter detalhes linguísticos a serem observados pelo velhinho e o novinho. Muita coisa mudou de cor, termos do passado desapareceram e outros surgiram pra dizer a mesma coisa, com terminologias atreladas ao tempo de agora. Apresentar para um adolescente, um amigo do seu passado, em que foram colegas de trabalho e ele era o seu “mata-cachorro,”vai desencadear uma antipatia imediata, porque matar cachorro não é um ato politicamente correto, neste tempo de cuidar com mais carinho dos bichinhos de estimação. O garoto precisa ser avisado, que este termo esdrúxulo, nominava apenasmente todo aquele que trabalhava como ajudante de caminhão. É estranho, mas absolutamente verdadeiro.

Meu velho e adorado pai, João Karoá, no seu tempo de comerciante, usava um troço chamado “mosquito” para retirar pregos Grudados em caixa de madeira. Sem ele os danados não saiam.  Também recebia fardos de tecidos, lacrados com uma faixa de aço, quase indestrutível chamada “faxina”.

Os mosquitos perderam a utilidade, desapareceram, e as faxinas nem mais se ouve falar das benditas. Mosquito agora só os temíveis da dengue e as faxinas só quando alguém vem limpar a casa pra deixar mais cheirosa e limpinha. O tempo e o mata-borrão, são primos de primeiro grau, no quesito apagamento do palavreado do nosso dia a dia. E, de pouquinho em pouquinho, o que a gente dizia ontem, vai perdendo o sentido pra garotada de agora. Como a vida não engata a ré em tempo algum, cabe aos velhinhos de hoje, emparelhar a língua com os netos ou vai ficar de fora das rodinhas de prosa da família.

O vocábulo “difruço”, exemplificando, felizmente sumiu do palavreado popular, até mesmo na “casa de Noca”. Não se ouve mais esta anomalia linguística. Feiosa e de fonema horroroso, foi habitar o limbo dos esquecidos. Hoje, o nariz escorrendo da menina ou do menino, é nominado resfriado ou então chamado convenientemente de  uma gripezinha. Muitos verbetes desapareceram dos glossários de estantes, cujas razões ou motivos para isto, as afirmações são levemente vagas ou difusas pela ausência de provas. Algumas palavrinhas ou expressões idiomáticas, deveriam continuar povoando o “lero-lero” do nosso dia a dia. Outras não. Civilizadamente, não chamamos mais, policiais de “meganhas” não usamos mais “bocapios” e sim sacolinhas e não andamos por aí apregoando dissabores com “furúnculos e carnegões. Agora são apenas “espinhas” precisando de cuidados. Ainda é “démodé” mas ficava bonitinho dizer que a menina estava bem graciosa, usando um “diadema” delicado nos cabelos. Em lugares distintos, este enfeite feminino, também se chamava “tiara”. Enfim, modernar é preciso.

A adequação do que nos bate a porta todos os dias, é uma necessidade de vida. Sem a eletricidade, por exemplo, esses impulsos maravilhosos carregados de “íons”, moléculas atômicas de carga positiva, que campeiam as tomadas dos esconderijos humanos, a coisa ia ser de “lascar o cano”.

Sem energia elétrica, não teríamos o roteador funcionando. Sem roteador não haveria Wi-Fi. Sem Wi-Fi não nos chegaria a Internet e sem essa prenda divina, o mundo ia se acabar. Ainda está a nos acossar, o tal do “Pix” e outro moderninho televisivo o tal do QR Code, em inglês Quick Response Code, ou seja, Código de resposta rápida no nosso bendito português. Podem aguardar, que vem mais novidades por aí. Quem viver verá.

De alguns anos passados pro tempo de agora, muita coisa mudou. Vale a pena nominar afirmações positivas e o que ficou pior a gente faz de conta que não existe.

Drone, Smartphone, Senha, Website, Adicionar, Digitalizar, Site, e tudo isto com o rostinho do distinto ou distinta no “perfil” do aparelhinho celular. Com a possibilidade de se ter, é claro, um “bilhetinho” carinhoso, digitalizado, com a frase adocicada, “liga pra mim”.

Se colocarmos em pratos de balanças, as diferenças ocorridas, pra mim, mudou pra melhor.

Só em pensar, em algum dia voltar pro “fifó” e pra “latrina”, me dá uma angustiante e inimaginável “dor no estambo”.

Cruz credo.

Carlos Karoá, amante de música e cinema, também tem paixão pelo universo das letras. Em 1970, deixou Morro do Chapéu com destino a Salvador, como fazia todo jovem interiorano daquela época. Hoje aposentado, retorna à nossa cidade em busca de uma vida mais tranquila. Gosta de escrever crônicas e pequenos contos, sejam eles verdadeiros ou não.

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