Há 2.024 anos atrás, Jesus Cristo atravessou os portões da cidade de Jerusalém, montado num jumento e tendo A sua volta, discípulos, aficionados, curiosos e alguns moradores da cidade. Com certeza, alguns dessa turma, não rezava pela sua cartilha.
Já afirmei em outras oportunidades, que a unanimidade não é coisa desse mundo.
A convicção que tenho, é que o jovem Messias não tinha amigos poderosos. Se tivesse, teria arranjado algo mais chamativo para sua entrada triunfal no berço do judaísmo. Um camelo paramentado, certamente causaria mais alvoroço, numa horda religiosa, que naquela época andava á cata de admiradores. Mas o fato é que desde os primórdios dos tempos, o jumento já era usado como meio de transporte.
Dando um pulo colossal de séculos seculoriun, chegamos aos finais dos anos 50, que é quando eu comecei a ter ciência de atos, fatos e coisas que me chegavam a cada amanhecer da minha vida. No meu tempo de garoto aqui na cidade do frio, agora nem tão fria assim, carroças de tração animal perambulavam pelas ruas do centro e arrebaldes, prestando serviços em troca de capim, água e um pouco de zelo. Nessa época do Morrinho Provinciano, era comum vê-los arreados com cassuás, cangalhas e Bruacas de couro, carregados com mercadorias de troca de subsistência. Às vezes em seus lombos, paramentados de selas e arreios enfeitados, traziam seus próprios donos. Esta analogia de épocas vividas, com pertinência nós meios de transporte urbano, lá atrás nos tempos imberbes e agora meio século depois, revela diferenças irrefutáveis.
Naquela época não se via muito por aqui, bicicletas ou as barulhentas motos a gasolina. O ir e vir na cidade tinha o patrocínio das canelas pessoais ou aboletados em caronas cujos carros a gente sabia a quem pertenciam de cor e salteado.
Tinha o jeep do padre Juca, o jeep de seu lorito, a rural de João Karoá, o jeep de Wilson Dourado, as camionetes de Moreno e seu valnier, o jeep land Rover de seu Nego pernas zambetas que não dava nunca pra jogar bola, o jeep de seu Genésio Valois, a pick up de Antônio coureiro, o Itamarati lindão de Antônio jacaré o jeep de seu Ruba. Tinha mais uma meia dúzia de carros velhos, dando trabalho e despesas a seus donos, coisa que quem mais sabia disso era o nosso amigo Flamarion Modesto.
Hoje, meio século depois, jumentos, burros ou cavalos não encontram mais espaço como meios de transporte urbano. Felizmente para os bichinhos de quatro patas, o sofrimento quase que acabou. Vez em quando, vejo carroças de tração animal, carregando areia e outros materiais de construção.
As bicicletas, customizadas, coloridas, de roda de liga leve, nem a garupa tem mais. Ganharam o status de agentes sociais de saúde. Carregar sacolas e caixas de papelão, entulhadas sacolinhas plásticas é agora coisa de supermercado. Para se usar uma bicicleta nos dias de hoje, precisa de óculos de proteção contra ciscos ou coisa parecida, tênis confortáveis adorados por meias brancas e um capacete tipo casco de joaninhas.
Objetos de duas rodas, contemporâneo, para o transporte de humanos, agora só as motonetas de 50 cilindradas geralmente de uso feminino. As mais
Potentes, para o uso masculino. Bonitas, práticas, econômicas e maravilhosamente eficientes.
Se antes conhecíamos a quem pertenciam os automóveis, que cruzavam as esquinas e ruas da cidade, hoje este milagre visual se tornou impossível. O movimento automotivo na cidade acompanha as tendências normais do mundo de agora. Já não se consegue estacionar no centro da cidade com tamanha facilidade. Reclamam que o automóvel é agente de poluição, que o automóvel é sinônimo de engarrafamento, que o automóvel não deveria custar tão caro. Está cantilena está na cabeça dos pessimistas, de quem passa um bom tempo de vida admirando o por do sol e esquece-se de acordar mais cedo pra admirar o amanhecer que é muito mais bonito.
Enxergar só o lado ruim do que existe. Ignoram a afirmativa que diz: Tudo nesta vida tem duas janelas de observação. Escolher o lado mais bonito pra admirar, é sem dúvida um ato de bom gosto.
Nestes tempos de velocidade, onde não se pode perder tempo, às vezes culpam os automóveis por algumas mazelas. Mas os bichinhos não têm culpa. São os humanos que apertam as buzinas pra fazer barulho. Se faltam políticas públicas
M para o número de ruas ou vias de acesso ao trânsito de maior fluidez, a culpa não lhes cabe. O que é fácil perceber, é que desde o tempo do jumentinho usado por Cristo como meio de transporte, a coisa mudou muito. Mudou pra melhor evidentemente.
Machos e fêmeas desfrutam desta mudança bem dadivosa.
Muares, equinos, bicicletas, lambretas, Mobiletes, motos poderosas, trens, navios, aviões, até foguetes interplanetários, servem de transportes pra humanidade.
Mas a estrela maior dos bichinhos de carregar gente é sem dúvida o automóvel.
Lindos, coloridos, confortáveis, velozes, práticos, eficientes, a íris dos olhos de qualquer ser humano de bom gosto.
Cada dia menos poluentes, com projetos vigorantes a longo e médio prazo, de poluição zero. Daqui a alguns anos, será o início da nova era automobilística no planeta. Serão silenciosos, sem consumo de combustível fóssil, eletrificados, mais seguros com espaço pra pic-nics e até quartos de estilizados.
No seu bojo vão trazer tantas novidades com algumas delas sem uso racional. Um dia certamente irão voar, disto tenho o bichinho da curiosidade dizendo que sim. Falem quem quiser, especulem, mas sem eles os automóveis, a vida não teria a menor graça.

Carlos Karoá, amante de música e cinema, também tem paixão pelo universo das letras. Em 1970, deixou Morro do Chapéu com destino a Salvador, como fazia todo jovem interiorano daquela época. Hoje aposentado, retorna à nossa cidade em busca de uma vida mais tranquila. Gosta de escrever crônicas e pequenos contos, sejam eles verdadeiros ou não.