Carlos Karoá escreve: ‘O Velho Sobrado’

O Velho Sobrado

 

Com apenas nove ou dez anos comecei a andar armado em Barra do Mendes. Sei que é muito feio pra um Garoto, vergonhoso até, ainda mais que a minha arma era letal. Fiz a minha primeira vítima lá na roça de Dedé, no alto do forte. Foi uma pombinha caldo de feijão que se atreveu a catar sementes afrontosamente na minha frente. Tinha também um companheiro de armas, o garoto Albertinho de Tia Hilda, meu eterno amigo Neguinho de Cera, dono de uma pontaria invejável.

Confeccionar um badoque naqueles tempos, era uma tarefa bem simples. Arranjar uma forquilha no mato, descobrir onde tinha borracha de câmera de ar de caminhão e um pedaço de couro onde a gente colocava as balas. E aí, voilá, estava pronto o instrumento de apedrejamento que por anos ceifou a vida de calangos, lagartixas, periquitos, garrinchas, pombinhas, azulões, bem-te-vis e até galinhas d’água. Uma mancha vermelho sangue no meu currículum de pacificador de almas. Não existia naquele tempo uma coisa que hoje é largamente difundida nos meios de comunicação e que de certa forma, tem influência na cabeça da garotada. Tem apenas duas palavrinhas. Chama-se Consciência Ecológica.

Felizmente, esta prática feiosa de badogar, matar passarinhos, vem perdendo fôlego nós meios infantis. Faço aqui de forma respeitosa, uma analogia entre os dois temas explícitos: Consciência Ecológica e Preservação de Patrimônio. Se no nosso tempo de garotos, faltou a expressão “Consciência Ecológica” para nos mostrar o quanto era cruel, desnecessária, maldosa e desumana a matança indiscriminada da fauna dos nossos arredores, da mesma forma faltou a expressão “Preservação do Patrimônio” na cabeça dos gestores Barramendenses, quando de forma também maldosa e desnecessária, puseram abaixo o Forte Branco, mais conhecido como o sobrado do velho Deraldo Forte. O argumento de que era preciso abrir a rua para a passagem de carros, poderia ser combatido facilmente com a ciência de que gente é infinitamente mais importante do que automóveis. Faço este desabafo porque pra mim, esta desastrada decisão continua e continuará sendo inaceitável.

Com o falecimento de seu Deraldo e Dona Joaninha, o sobrado deveria ser incorporado ao patrimônio imaterial e cultural da nossa cidade. No período de maior importância existencial da cidade, o velho sobrado estava lá. Impávido, testemunha ocular e silenciosa das lutas fratecidadas, do sangue que permeia a mente vã, na inclemência que está no DNA da humanidade desde o começo dos tempos. Ali naquele beco, onde vivi toda a minha infância, deveria ser um calçadão, bonito, com radiosa iluminação, bancos de madeira para visitantes e moradores, o prédio, transformado em biblioteca ou Secretaria de cultura, com certeza o orgulho de todos nós estaria bem mais alto que os seus belíssimos dois andares. Subir as escadas do sobrado pra brincar na parte de cima, era uma coisa que demandava astúcia e criatividade. A gente tinha que driblar o sistema de audição de dona Joaninha, diga-se de passagem, era extremamente apurado, driblar a visão de madrinha Zilma que passava o dia todo costurado numa saleta, cuja porta ficava bem em frete da outra, que nos levava pras escadas. Também tinha que subir pé ante pé, porque a escada era de madeira e o piso lá riba era um tabuado que fazia uma zuada dos diabos. Eram os meus parceiros de brincadeiras as filhas de dona Mira, Zete, Zélia, Pretinha e o irmão Luís. Assim que a gente falava o topo do andar de cima do velho Sobrado, nós abríamos as janelas pra olhar a imensa praça que se descortinava à nossa frente. Dezenas de meninos brincavam nas calçadas jogando giribita, pulando macaco, acocorados no meio da rua pegando aqueles besourinhos de olhos verdes que a gente chamava de Von von ou no fascinante joguinho dos três topes na bola de gude. Lá longe, prós lados do açude, dava pra ver Hermes Viana, Cogipa, Guino irmão de Bento, batendo pernas, nadando perto de chegar às cercas do Carretão. Eram os nossos melhores nadadores. A Praça Nestor Coelho era imensa. Um vão de terra e Areia de pura magia. Bem em frente os bares de Bia e o Ponto Certo do saudoso Tenor. Ao lado a Igreja de todos nós. Lá longe na parte de baixo a casa de seu Zuza, grande amigo do meu velho pai, João Karoá. Durante o dia ou à noite, a Praça Nestor Coelho cumpria o seu papel de utilidade pública. Em seu bojo, oferecia a nós moradores a igreja, os bares, o clube social, o sobrado, o cinema e estava pertinho do açude, o nosso pedacinho de terra santa.

Seu Deraldo era um caboclo da mais admirável e invejável cepa. Um corpanzil de 1,90 exalava carisma e simplicidade. Bem humorado, porém sério, tinha a fama de ler as mãos, mas dizia que nada tinha dos magos, era apenas um observador de detalhes. Uma cabeçorra grisalha acomodava um velho e surrado chapéu de maça, onde quer que estivesse. Todas as noites eu o via sentado ao pé do rádio, fumando um grosso cigarro de fumo de corda, ouvindo o programa A voz do Brasil. Dona Joaninha, uma velhinha esperta, botava os meninos que frequentava as sua casa pra debulhar feijão enquanto contava histórias. Enquanto tinha feijão pra debulhar a história não acabava. Por lá aparecia dona Altina e as filhas Nilda e madrinha Mima. Dona Dulce, Gilda, Deraldo, Rute que hoje mora aqui em Morro do Chapéu, as meninas Alda e Alíria, dona Zizi com os filhos Vacirlan, Sessé e Nega, dona Cadu, Hilda, Chica, as primas Neuracy e Zinha e tantos outros a povoar os corredores do velho casarão. Faço aqui minha homenagem sincera aos filhos Milton Forte, Tavinho e Vagner. Um beijo carinhoso pra Noêmia, filha do velho Tavinho, mas fora criada por dona Joaninha, ela Noêmia uma das criaturas mais doces que conheci. Hoje mora em Governador Valadares. Neuracy e Zinha, inesquecíveis porque sempre estavam por lá, moram em Medina, Minas Gerais. Ao falar agora em Madrinha Zilma, irrompo em lágrimas incontroláveis do mais puro sentimento de amor e gratidão. Foi ela que me acolheu no período mais triste da minha vida, quando minha mãe me deixou com apenas sete anos de vida. Impagável, inolvidável, simplesmente única.

Há em mim uma revolta perene pela derrubada do sobrado do velho Deraldo Forte.

Há em mim uma tristeza latente porque sei que nada mais é possível fazer para trazê-lo de volta.

Há, em agora, a lembrança aterradora do dia e hora, foi quando cheguei à Barra e percebi, que o meu querido e velho sobrado, tinha ido embora.

 

Carlos Karoá, amante de música e cinema, também tem paixão pelo universo das letras. Em 1970, deixou Morro do Chapéu com destino a Salvador, como fazia todo jovem interiorano daquela época. Hoje aposentado, retorna à nossa cidade em busca de uma vida mais tranquila. Gosta de escrever crônicas e pequenos contos, sejam eles verdadeiros ou não.

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