Carlos Karoá escreve: ‘O GARI’

Em 1958, precisamente no mês de agosto, Barra do Mendes deixa de ser distrito de Brotas de Macaúbas e desponta pro Estado da Bahia, a sua autonomia como município. Iria precisar de um prefeito para gerir os destinos dos seus munícipes e o escolhido nas urnas, foi o Dr. Aurelino Alves Barreto, candidato das oligarquias vigentes da época, sem dar nenhuma chance pro também empreendedor, o jovem Alberico Campos.

Um morador da cidade, o Sr. João Grande e sua esposa, dona Elisa Preta, eleitores ferrenhos do jovem Alcaide, tinha um filho que por todos os motivos do mundo, precisava de ajuda. Seu nome verdadeiro não sei, seu apelido era “Dingo”. Não posso dizer que Deus todo poderoso foi generoso com o jovem filho de dona Elisa. O rapaz trazia consigo, os males terríveis da quase desconhecida, “epilepsia”. Por todas as complicações que a doença produz, Dingo não tinha amigos do peito como antes se dizia, seu amigo do peito na verdade era a sua mãe, a dedicada matrona Elisa Preta. Nas manifestações periódicas do distúrbio neurológico, a visão era terrível. Ele caía no chão, estivesse onde estivesse, em convulsões espasmódicas de curta duração ou às vezes demoradas, olhos revirados e um rio de uma espuma branca a escorrer pelo canto da boca.  Imediatamente alguém corria pra chamar dona Elisa, porque ninguém se atrevia a chegar perto de Dingo pra ajudá-lo. Existia erroneamente, o boato que o mal era facilmente transmissível.

Quando dona Elisa chegava, era como se nuvens escuras se dissipassem nos céus e de imediato, bolsões brilhantes de raios de sol, iluminassem o local. Dona Elisa colocava a cabeça do filho no colo, limpava calmamente o seu rosto e com uma velha toalha limpava sem nojo algum, a babá esbranquiçada que a todos amendrontava. Esperava pacientemente que as sequelas do mal se dissipassem e tranquilamente, honrosamente com os deveres maternos cumpridos até a volta da normalidade e algum tempo depois o jovem abria os olhos, cabisbaixo, envergonhado, se levantava e ambos tomavam o rumo de casa, sob os olhos piedosos de todos que os conheciam.

Dr.  Aurelino Alves, agora prefeito do recém-criado município, viu a necessidade de dar ares de metrópole na sua terra e o começo seria evidentemente a limpeza. O lixo produzido nos lares, antes jogados nos buracos dos quintais ou nos famosos “munturos” dos fundos das ruas, seria agora recolhido e dado a ele um destino mais adequado. Vale o registro, que nos “munturos” nós podíamos encontrar toda a matéria prima para as nossas brincadeiras. Quando não se achava em um lugar, corríamos para outro, pois havia várias deles espalhados pela cidade. Era fácil encontrar arame, pregos, borrachas de pneus, carretel de linha, couro, latas, faxinas de aço, etc. Só não tinha plástico, porque naquele tempo, por lá não existia. Vez em quando, por sorte uma valiosa bola de gude aparecia entre os breguessos abandonados, descartados como lixo.

O escolhido para este trabalho, recolher o lixo das casas foi o jovem “Dingo’. Foi contratado pela Prefeitura, tornando-se assim, orgulhosamente, um funcionário público municipal. Recolhia diariamente os resíduos domésticos e os descartava na parte alta da barragem do açude. Acho que o local, pertencia ao velho Zeca de dona Raulina.

Para este trabalho hercúleo, usava apenas um simples carrinho de mão. Trazia consigo uma sineta e a usava anunciando que estava na porta esperando o lixo pra levar embora. A sujeira era mínima, apenas a terra recolhida, quando se varria a casa no dia a dia. Na maioria das vezes, vinha em vasilhames e se despejava na caçamba do carrinho. Nem todos os moradores tinham o direito a este privilégio salutar. Habitantes das ruas centrais, senhores da classe dominante, amigos do peito do mandatário eleito, eram visitados diariamente, os moradores das pontas das ruas, porém que cuidassem dos seus restos do feijão.

De vida sofrida, “Dingo” se mantinha sóbrio para evitar as aparições da doença. Entretanto os anos de sofrimento, a ignorância e a irresponsabilidade de alguns donos de bares, o empurraram pra bebida. Sóbrio era evitado, bêbado metia medo. Por vezes, eu ainda garoto, o via embriagado, perambulando pelas ruas e bares das ruas de baixo, como um pária da solidão. Não resistiu aos malefícios do álcool e morreu precocemente.

A ele, a honra do ineditismo, o primeiro gari da cidade de Barra do Mendes.

As você “Dingo” os meus respeitos, esteja você, aonde estiver.

Carlos Karoá, amante de música e cinema, também tem paixão pelo universo das letras. Em 1970, deixou Morro do Chapéu com destino a Salvador, como fazia todo jovem interiorano daquela época. Hoje aposentado, retorna à nossa cidade em busca de uma vida mais tranquila. Gosta de escrever crônicas e pequenos contos, sejam eles verdadeiros ou não.

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