Carlos Karoá escreve: ‘O FUTURO’

Um dia, um homem de barbas negras, roupas feitas de peles de animais, viu pela primeira vez, lindo, impressionante, um arco-íris nos céus. Varrumou na sua cabeça primitiva, uma explicação para aquela maravilha da natureza, mas por mais que expremesse a mufa, não achou um veredicto convincente. Aí, a mulher dele, levemente distraída e mulher distraída é tão perigosa quanto pneu careca a 300 hora, chamou ele pelo nome e disse inquisitiva: Isto aí, tão lindo desse jeito, deve ser coisa de Deus, em sinal de aliança entre ele e nós. Né não?

A sentença pareceu tão plausível aos olhos do homem e de seus vizinhos, que até hoje figura nos anais da Bíblia sagrada, como uma verdade divina. Quanto ao nome dele e da bendita mulher, eu não fiquei sabendo porque já faz muito tempo que aconteceu o fato.

Daquele dia de chuva, para os dias de hoje, já se passaram milhões de anos, quem sabe bilhões. O fenômeno, a refração de luz solar em gotículas de água pairando no ar, continua do mesmo jeitinho de sempre, porém as mudanças nos pensamentos dos humanoides de hoje, estes sim, mudaram quintilhões de neurônios com a mesma certeza que quando chega à noite, nem todos os gatos são pardos.  Andam dizendo por aí que sim, mas a gente sabe que não é verdade.

O futuro vem chegando.

Desde tempo imemoriais, quando o homem descobriu o fogo e percebeu as suas serventias e os seus poderes, que muita coisa mudou no reino da Dinamarca. Os alimentos foram os primeiros a mudarem de crus para cozidos e a escuridão, antes dominante e perigosa, teve os seus domínios varados pela claridade das luzes amarelas das Fogueiras, até que o bendito gás e o divino querosene, vieram bater nas portas de Josés e Marias do mundo inteiro.

Era o futuro chegando na ponta dos pés.  Vencer o negrume das noites, foi uma das premissas das mentes vanguardistas de homens que não queriam dormir com as galinhas.  O manto negro noturno, traz perigos de vida, não tem beleza, tolhe movimentos e deixa a roda da fortuna esperando os primeiros raios de luz do novo amanhecer. Em resumo, não serve pra nada. Espantar o breu, quando a luz do sol se despede no cair da tarde, foi o primeiro passos dos notívagos carentes de conforto e diversão. Um viva pros candeeiros lá de casa.

As invenções, apelidadas de progresso, foram frutos das necessidades de mercado. Se não é possível ter o controle do tempo, pode-se controlar valores, porque é sabido que tempo é dinheiro. Mas, como não é possível parar os ponteiros dos relógios, pode-se desenvolver velocidade naquilo que se faz. Este é o princípio básico para se driblar despesas com a morosidade, diminuir a distância entre custos e produção.

Carência e ansiedade, são molas impulsoras para se chegar ao conhecimento. O sono só vem, quando enfim, as cartas da mesa são reveladas. Um vetor de agonia que precisava também de uma solução imediata na vida moderna, além do fim do negrume das noites, era o transporte de tudo. Andar enriba das canelas o tempo todo, nem ao lado da namorada tinha jeito, chegava uma hora que nem tudo compensava. O uso de muares, revelou os limites que este tipo de transporte impunha. Cuidar de mulas e cavalos, tinha Préstimos equivalentes, não era um bom negócio. Foi pensando em praticidade que o alemão Karl Von Drais, apresentou pro mundo uma coisa de duas rodas chamada bicicleta, isto no ano de 1817. Era ainda de madeira, sem pedais com a impulsão sendo feita com as próprias pernas, mas já era o começo para nos libertar dos bichinhos de quatro patas, que precisava de tantos cuidados. As bicicletas vieram para ficar. Práticas, bonitinhas, interessantes, mas com a fronteira incômoda da individualidade. Ainda suscitava recursos. Não dava para levar a namorada na garupa. O futuro vinha vindo devagarinho, mas vinha.

Em 1886, outro alemão, também do mesmo nome, agora Karl Benz, apareceu na cidade de Karlsruhe, pilotando uma carruagem sem cavalos. Era o protótipo do carro moderno que finalmente colocava quatro rodas no lugar de quatro patas. Mais uma vez o futuro tava chegando devagarinho. As coisas demoradas, por razões do tempo consumido, agregam deliciosamente o sabor de orgulho e vaidade.

Desde as primeiras invenções elétricas do século XIX, que a inquietação dos homens e mulheres de mentes criativas, não pararam nem para um cochilo. Estamos no século XXl mas isto, em relação com o tempo de criação do universo, é apenas uma fração de segundos, pois a cronologia cósmica, beira as raias da eternidade.

A visão de raios vindo dos céus pra terra, em tempos de chuva, devastando coisinhas e coisonas em tão curto espaço de tempo, deve ter despertado o interesse de físicos e matemáticos do passado, em criar e controlar está força poderosa aqui no chão. Pois, no início do século XVII, o físico inglês William Gilbert, já fazia experiências na busca da tão sonhada eletricidade. Juntou-se a ele já no século XVIII, o também inglês Michael Faraday e o italiano Alexandre Volta, cuja nomenclatura “volt” a unidade de potência elétrica tem este nome em sua homenagem.

Para a sociedade em que vivemos, nenhuma descoberta ou invenção, tem maior ou importância que a eletricidade. Chega a ser divina. Se olharmos em nosso derredor, não existe nada que não tenha os raios da unção elétrica, nos dourando a face. É mágica, grandiosa, utilíssima, de tanta luminescência, chega a ser singela. É o maior presente dos deuses, para o homem aqui no chão, no lado de baixo dessa lona de cor azul.

Mas, tem uma coisinha da nossa ativa vida social, que tem a mesma equivalência do casamento de prótons e nêutrons. É aquilo que chamamos de “comunicação”.

Falarmos com alguém quando sentimos saudades, tem imensurável valor sentimental.

Falar com alguém para se fechar um negócio, o valor financeiro pode beirar as nuvens.

Falar com alguém, se muito necessário for, pode se salvar a humanidade.

A comunicação escapa do nosso sistema de avaliação, ela não se deixa medir, não há preço no mercado de bolsa de valores do mundo, pra se dizer em sussurros e gemidos, o que o outro quer ouvir.

Desde o tempo do cordão esticado entre duas latinhas, que o modo de se comunicar evoluiu de montão. Passamos pelo telégrafo de Samuel Morse, pelo telefone de Gran Bell, pelo Smartphone de Steve Jobs, o garoto genial que foi embora cedo demais.

O que o futuro de tudo nos promete, ainda com está geração piscando os olhos?

Carrinhos voadores de quatro lugares, homens cobrindo longas distâncias em poderosas botas propulsoras, aviões supersônicos gastando minutos, quando antes se gastava horas, dispositivos eletrônicos dispensando sensores presenciais, enfim, coisas que a mente de agora se recusa a imaginar que um dia isto pode estar a apenas um click num teclado de computador.

Os Smartphones do futuro, não serão tecnológicos, serão mágicos. Hoje, acendem fogões, acionam micro-ondas, iluminam ambientes ou apagam luzes da varanda, tudo isto a centenas de kms de distância do local. Estarão conectados com a internet e coisas incríveis irão nos mostrar. No futuro, toda a humanidade será longeva, porque o controle da vida vai estar em simples botões de computadores, com a exceção do cérebro, que não se encontrará facilmente em bancos de reposição de órgãos.

Quanto vai custar um coração, eu não sei, principalmente se estiver doente de paixão.  Poderá ser trocado por outro novinho, sem as angústias, ansiedades e por outro lado, as alegrias que só o amor pode nos dar. Quanto ao transporte de matéria, vai demorar um pouquinho mais. Só na volta de Cristo, quando mortos e vivos serão julgados por tudo que aqui fizeram. Eu não estou nem um pouquinho preocupado com o meu veredicto. Puro e inocente como sou, depois da batida do martelo, vou diretinho pro céu.

Carlos Karoá, amante de música e cinema, também tem paixão pelo universo das letras. Em 1970, deixou Morro do Chapéu com destino a Salvador, como fazia todo jovem interiorano daquela época. Hoje aposentado, retorna à nossa cidade em busca de uma vida mais tranquila. Gosta de escrever crônicas e pequenos contos, sejam eles verdadeiros ou não.

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