Carlos Karoá escreve: ‘O AUDITÓRIO SUMIU’

Um Instante Maestro! Com esta trinca ortográfica, gritada em ares de sensacionalismo, o Apresentador de TV Flávio Cavalcanti, capitaneava seu programa de auditório, na prestigiada, mas hoje extinta, TV TUPI do Rio de Janeiro. Amparado por um corpo de jurados, famoso na sociedade local, impingia aos concorrentes de profissão, preciosos pontos de audiência, numa época em que a recém-criada Rede Globo, ainda buscava seu espaço como rede particular de entretenimento televisivo.  Eram figurinhas carimbadas neste Júri, o árbitro de futebol Armando Marques, polêmico, mas extremamente carismático, a Socialite Márcia de Windson, a atriz vedete Marisa Urban, o maestro Erlon Chaves, a jornalista Iris Letieri, o produtor José Messias, o carrancudo José Fernandes, a atriz Leila Diniz, morta num acidente aéreo em nova Delhi, com apenas 27 anos vividos. Vez em quando, alguns membros desta lista eram trocados por razões existenciais, mas geralmente nas noites de câmeras ligadas, eles estavam lá.

Os programas televisivos de auditório, dos anos 60 e 70, demandava esforço e prestígio para se conseguir um convite e ocupar uma poltrona para ver o desfile das atrações. Os convidados, na maioria gente da alta sociedade, não deixavam assentos vazios. O júri, no lado masculino, homens em fatiotas do mais belo corte, discretos, mas solenemente elegantes e as senhoras, levemente empoadas, com joias e estolas adornando o colo, mostravam pomposamente, origem da mais fina estirpe. No palco, exibindo o seu ofício, artistas consagrados, certamente em troca de generosos cachês, cumpriam a sua parte no trato, o de entreter e divertir, quem por eles se rendiam em aplausos. Era uma festa pros olhos, as noites de programas de auditório, na TV brasileira dos anos 60.

O primeiro deles, Flávio Cavalcanti, fez valer a postura de elegância e bom gosto por onde passou. De verve fácil, retórica afinadíssima, quase não permitia contestação e a sua racionalidade e sisudez era marca registrada do seu temperamento. Durão, inflexível, mas pomposo quando lhes cutucava vez em quando, a vaidade.

Outra Diva platinada, Hebe Camargo, a Dama da TV, também mostrava os dentes branquíssimos, num riso farto de quem tinha uma boa fatia do bolo de audiência. Passou dos limites de simples apresentadora e tinha seguidores como se uma deusa “sesse”.

O gentleman de fala mansa Jota Silvestre, por si só, era uma figura chamativa de audiência. Ganhou prestígio e notoriedade com o bordão ” Absolutamente certo” e deixava em suspense, a ânsia e a curiosidade dos telespectadores, com as fronteiras curiosas do programa “O céu é o limite”. Tinha o respeito dos colegas apresentadores e mostrava seriedade naquilo que fazia. Foi o primeiro programa no estilo “Talk Show” da TV brasileira. Um outro espaço, com artistas na maioria paulistanos, em degustação pública de champanhe e caviar, tinha o casal Airton e Lolita Rodrigues, enquanto estiveram juntos, vivendo sábados festivos com o divertido “Almoço com as Estrelas”. Um pouquinho cafona para o meu gosto, mas talvez pelo horário sem concorrência, tinha bons pontos de audiência. Até a Poderosa Rede Globo, de 1976 até 1977, fugindo da sua grade vanguardista, aos domingos a noite, passou a exibir o cultuado “Oito ou Oitocentos” tendo o ator Paulo Gracindo, um dos maiores atores da dramaturgia nacional, o Senhor absoluto, segurando o leme da atração. Alguém escolhia um tema, e passava alguns programas dissecando as verdades ou mentiras da proposta escolhida. Mas, não teve continuidade fugia da linha futurista da emissora.

A TV Globo, se eximiu do culto aos Programas de Auditório. Buscou inovação ainda que numa Seara já bastante conhecida, que era a de contar histórias em capítulos. Desta vez, porém, foi à cata dos maiores novelistas, dos mais gabaritados atores e atrizes, imprimindo o padrão global de qualidade, nos textos, produção e desempenho artístico. Em pouco tempo se tornou a maior emissora de TV do lado sul do planeta. Posso afirmar, o título era merecido, hoje nem tanto. Em 05 de agosto de 1973, lançou o programa “Fantástico” uma revista eletrônica que pela originalidade, derrubou de vez os programas domingueiros de auditório e durante a semana, as novelas foram a “pá de cal” nos já combalidos salões de entretenimento. Apesar dos esforços, o ocaso foi em “Slow motion,” mas o fechamento foi definitivo. Apagaram-se de vez os holofotes, fecharam -se tristemente, as cortinas dos programas seletivos de Auditório, da televisão brasileira.

Era comum, ocupando os lugares de presença “VIP”, atrações tipo Deputados, Senadores e até Governadores e as respectivas Primeiras Damas, emprestando prestígio e classe e distribuindo sorrisos amarelos numa troca visível de interesses. Deferência Social versus votos do povão.

Hoje existem por aí, um tanto de Programas de Auditório, o que não existe é a paciência e a vontade prazerosa de se pregar a bunda no sofá pra assistir.

Em desfile catastrófico, estudantes barulhentos tentam desesperadamente saber a fórmula química da Água, ou vergonhosamente responder quem descobriu o Brasil. Pessoas simples, em estado claríssimo de vulnerabilidade, se espremem na frente de um microfone, tentando responder quem ganhou o BBB do ano passado, sendo penalizados com um banho de água fria, caso não saibam a resposta. Dá tristeza só de pensar a respeito. Tem jeito não, televisão agora, só quando alguém tiver a reposta precisa da questão milenar que nos deixa sem dormir:   quem nasceu primeiro, se o ovo ou a galinha.

Carlos Karoá, amante de música e cinema, também tem paixão pelo universo das letras. Em 1970, deixou Morro do Chapéu com destino a Salvador, como fazia todo jovem interiorano daquela época. Hoje aposentado, retorna à nossa cidade em busca de uma vida mais tranquila. Gosta de escrever crônicas e pequenos contos, sejam eles verdadeiros ou não.

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