Hermes, divindade grega, senhor da riqueza, da sorte, dos ladrões, da diplomacia, inventor da Lira, do fogo, do alfabeto, era uma das mais admiráveis e inteligentes divas do Olimpo. Filho de Zeus e de uma Ninfa de nome Maia, tinha também uma outra particularidade invejável entre as divindades do Panteão Ateniense: podia voar. Tinha os pés alados, uma sandália com asas, fazia este milagre. Benditos sejam os pés nossos de cada dia, que nos deixam espigados, para ver de longe, quem de nós mais perto quer chegar.
Giuseppe Artidoro Guiaroni, para os amigos apenas Guiaroni foi um jornalista e poeta brasileiro, nascido em Paraíba do Sul, em 22 de fevereiro de 1919. Precisos 89 anos depois, em 21 de fevereiro de 2008, na cidade do Rio de Janeiro, no estado onde foi parido, voa para a eternidade, deixando saudades doídas, no peito dos amantes da poesia. Guiaroni foi o iluminando autor do poema “Monólogo das mãos”, decantado e declamado nas carreiras vitoriosas do ator Lúcio Mauro e da divina atriz Bibi Ferreira.
O poema Supracitado, é uma dileção merecida a estes dois indispensáveis órgãos do corpo humano. A apologia em coro coletivo, é alusivamente pertinente. Benditas sois, oh mãos divinas.
Mas, e os nossos pés, como diz o outro, onde é que ficam?
Deus me livre e guarde, para que nunca me falte o dedo mindinho e o dedão do pé. É como se me faltasse um tijolo no alicerce e eu tivesse o receio, do prédio ir ao chão.
Até para se declamar o poema, “Monólogo das mãos” o distinto orador prefere ficar de pé. São os nossos pés abençoados, que a cada amanhecer, nos levam pra fora da cama, pro começo do labor que nos alimenta o corpo e a alma enternecida. Com os pés, Pheidíppedes, correu 42 km e 195 metros, para dar a notícia da vitória grega na contenda com os Persas, no ano 490 A.C. Foi uma esticada penosa entre as cidades de Marathon e Atenas e esta entrega voluntária, sublimação de um amor à sua pátria querida, entrou na história do mundo, através dos pés do fundista grego, com o peito derramando a alegria dos vencedores. Sem os pés, em estado de vigor profundo, este emissário das boas novas, não faria registro nos anais da terra, deste feito colossal.
O enlevo das mãos é merecido mas o ostracismo para os pés, convenhamos, é uma injustiça. Com eles em estado de graças, a tantas coisas nos conduz.
Com os meus, ainda juvenis, derramei e cobri de terra o feijão ou milho, em número de três grãos, em covas rasas, no tempo do plantio quando enfim, o penoso estio ia embora.
Com os pés, se fazia a “Vindima”, àquela ação de higiene duvidosa, quando as uvas são maceradas impiedosamente em imensos caldeirões de madeira, no secular processo de se obter o vinho. Hoje, aqui mesmo na nossa cidade, a Vinícola “Vaz”, abre vagas no tempo de trituração das uvinhas, sob o pretexto discutível, que é recomendação médica pra aliviar o estresse, pisotear sem regras ou tréguas, as indefesas frutinhas do vinhedo. Uma particularidade curiosa nisto tudo é que o paciente tem que pagar pela consulta, não é de graça não. Cá com os meus botões, tenho meios pessoais e mais eficazes, para mandar embora, as minhas prostrações.
Um dos prazeres da vida e certamente dos mais relevantes é a dança. E aí, nos cabe a pergunta: Com quem, aonde e que dia vai ser?
Se a bandarrice é no asfalto, tipo Marquês de Sapucaí por exemplo, os meneios dos quadris, reivindicam pés infinitamente robustos. São eles, os esteios de sustentação dos requebros do corpo. E convenhamos, sambar para quem sabe e gosta, é uma preciosidade corporal. É saudável, é bonito e deixa quem não sabe, tipo eu, com uma pontinha de inveja, lá no cantinho da alma vaidosa. Lembrando que sem os pezinhos serelepes, este prazer fica apenas na Seara dos desejos. Sem eles de bate-pronto, os suspiros são tristonhos, frustrantes e penosamente verdadeiros.
Andar de patins, é como se voássemos sem sair do chão. É como se estivéssemos a flutuar, com a segurança de ter os pés, como proteção. No asfalto, com a brisa açoitando o rosto e a rebeldia pulsando no peito, jovens ousados se aventuram em riscos de vida, na disputa de espaços nas ruas, preferencialmente território de automóveis. Na maioria rebeldes sem causa, apenas gozam a ventura de possuírem os pés revestidos, do viço da Mocidade. Impossível não sentir saudades, de quando na hora do sono nos cobria, o doce manto da juventude. As comparações de tempos são inevitáveis, mas as vezes me pergunto se não era a minha tenra idade, que me fazia ver o mundo, bem mais colorido que agora, sem as agruras que o passar dos anos a nós impõe, sem desculpas ou apelações. Não foi só pra mim, evidentemente e será eternamente assim, pra quem vier pra este mundo.
Um outro desafio para pés saudáveis, é esquiar em montanhas revestidas, de flocos de algodão. Talvez o mais excitante dos esportes. Lindo, arrepiante, periculoso, não indicado pra principiantes. O risco de acidentes chega a ser palpável e a fatalidade tá na pontinha dos pés. Também é assim com o surf, ou o snowboard. Deslizar no topo de ondas gigantes, requer conhecimento apurado de onde se estar colocando os pés. Encarar tubos de toneladas de água quebrando na praia e sair ileso, não se aprende na escola. É preciso ter jeito e o dom de fazer de um modo, que quase ninguém faz. Na maioria dos esportes, onde se é preciso paramentar os pés, é bem acentuado o risco de séria contusão. A beleza delicada da patinação no gelo, em certames ou diversões ocasionais, são os benditos pés de cada dia que nos levam, nos deixam e nos trazem, para onde a felicidade ou o bem-estar, sempre nos esperam.
Um dia e esta data com a precisão suíça ainda não existe, alguém ou alguns desportistas, imaginaram um tipo de jogo campal, que demandava pés resistentes para a sua compulsão. Não se exigia habilidades ou paramentos especiais, apenas obediência às regras e disposição para suportar o tempo de correria estabelecido pelos criadores, naquela época, dois tempos de 45 minutos cada. A origem do esporte, hoje o mais popular do planeta, é confusa até quando os ingleses, em 1863 se auto proclamaram donos do festim. De lá pra cá, muita coisa mudou. Regras e configurações foram adicionadas, impostas pela FIFA, entidade maior neste universo de bilhões de dólares, glamour e muita badalação. Futebol, este é o nome do santo.
O campo, só o visual do gramado verdinho, já nos enche de paixão. As delimitações oficiais são de 90 mts a 120 mts de comprimento por 75 mts a 90 mts de largura. As traves, com uma abertura de 7,32mts de comprimento por 2,44 mts de altura. Em campos de várzea as metragens podem variar, não podendo fugir destas medidas, quando as raias beiram a oficialidade.
Ser um atleta de football, quando se usava gorros na cabeça, calções abaixo dos joelhos e camisas listradas de mangas compridas, era apenas mais um participante, de um diversão estilizada. Nos dias de hoje a coisa mudou. E mudou da água pro champanhe Dom Perignom safra 55.
Os uniformes, devidamente padronizados, com espaços reservados para vultosas publicidades, médicos, massagistas, transmissões televisivas, vestiários luxuosos, estádios templificados, campos gramados como se fossem os jardins do palácio do rei e mais um tantão de mordomias que nem dar pra nominar. E os atletas, estes sim, se tornaram semideuses. Sem nenhuma formação acadêmica, mas com os pés preparados pra chutes de efeito, bate-pronto e trivelas, abiscoitam os maiores salários do planeta. Mãos e pés, são as extremidades perfeitas do nosso corpo, que nos completam. Assim seja.
A podologia é uma dádiva científica. Lembrou finalmente destas bases pequeninas, que quando femininas, são bonitinhas e delicadas. Nos levam, nos trazem para onde o corpo vai e vem. Banhos amornados, limpezas escamosas, massagens relaxantes, pelo menos um pouco de zelo, merecido para estes dois pilares de silenciosa complacência.
Vou olhar com mais ternura, para estes dois arrimos que me levam e me trazem, para onde quer que eu vá. Benditos.

Carlos Karoá, amante de música e cinema, também tem paixão pelo universo das letras. Em 1970, deixou Morro do Chapéu com destino a Salvador, como fazia todo jovem interiorano daquela época. Hoje aposentado, retorna à nossa cidade em busca de uma vida mais tranquila. Gosta de escrever crônicas e pequenos contos, sejam eles verdadeiros ou não.