Carlos Karoá escreve: ‘MENINO NÃO ENTRA’

A casa estava quase sempre cheia de gente, no horário das sete da noite, quando saía o boletim diária do tantão de votos, despejados nas urnas para os candidatos ao governo do estado da Bahia nos idos de 1958. De um lado, o cearense abaianado Juracy Magalhães e na outra ponta da corda, o semidesconhecido José Pedreira de Freitas.  Eu, com os suspensórios segurando as calças, tinha a incumbência orgulhosa de manobrar o dial de captação das ondas de rádio, na busca aflitiva de eliminar os chiados e descargas que dificultavam a nitidez das informações, gritadas pelos locutores da Rádio Sociedade da Bahia, naquele tempo, a única captada.

Não sabia nada da vida pregressa dos contendores, mas a imagem que fazia deles, era de homens idosos, de barbas e bigodes copiosos, vetustos por natureza, porque governadores, senadores e deputados, deveriam ter cãs prateadas como rezava o meu juízo, no universo do sufrágio por votação. Só pessoas com mais de meio século de vida na cacunda, poderiam pleitear cargos eletivos.

Conheci de pertinho, o pernambucano também abaianado, Deputado Manoel Novaes. Em épocas do seu interesse, visitava Barra do Mendes na companhia de outros caçadores de votos. Quando chegava de avião, era uma festa pra gurizada, ansiosa por novidades naquele pedaço de chão, distante das coisas ditas civilizadas. Deputados Manso Cabral e Hélio Ramos e mais uma renca engravatada que dos nomes já não me lembro mais, sempre, sempre na ponga do velho bonachão. Sei que todo esse povo, já tinha cruzado a metade de um século de dias vividos, logo, anuíam com os meus pensamentos, de estarem habilitados a postular cargos sufragados pelo voto popular. Fazer política partidária, no meu mundo nada vanguardista, não era coisa de gente nova, eram nichos distintos de senhores Barbados, com os costados lanceados de experiências vividas, era uma premissa da longevidade. Por isto, a minha surpresa quando no início dos anos 90, o meu amigo de infância, Manoel Gabriel dos Santos, O Néu de Benato, começou a namorar o assento de espaldar mais alto na minha cidade, Barra do Mendes.  O casamento se deu no pleito de 1993, tornou- se finalmente, um Alcaide, de rosto limpo, sem os bigodes e barbas grisalhas, dos senhores das viciadas oligarquias do passado.

Finalmente o novo no poder.

Em 1997, outro amigo do tempo das travessuras, José Carlos Sodré, O Zé do Bode, ainda jovem também se fez Prefeito, numa quebra de paradigmas arraigados, desde o tempo dos interventores, aqueles senhores tirados das algibeiras dos governadores, que sem a legitimidade do voto, Brasil afora, se apossavam das poltronas de respaldo alto. Uma audácia das mais nobres, enfrentar um sistema já viciado a dar a eles mesmo, uma coisa que pertencia a todos. Também em Morro do Chapéu, a terra onde não se toma banho sem ligar o disjuntor, o jovem Aliomar Rocha, derrubou uma plutocracia de eras, desde o tempo da intendência. Dois pleitos completados depois e foi a vez do Fedegosense Cleová Barreto, assumir a gestão do município, tornando-se neste contexto, o segundo filho do povoado de Fedegosos, a sentar na poltrona preta da cabeceira da mesa; O primeiro foi o egrégio líder distrital, Sr. Genésio Valois. Por ser um homem simples, pela metáfora ” sangue azul, ” não ser uma carapuça que lhes cabia, Cleová Barreto finalmente se torna o arquétipo das estruturas seculares, de que só, os “meus senhore,” poderiam pleitear o bastão da gerência municipal. Hoje, qualquer cidadão está por direito, habilitado a esta serventia. Se vai ser eleito, aí já é outra história a ser contada.

Quando garoto, imaginava a política, um jogo de interesses dos homens velhos e pomposamente engravatados. Era uma competição particular de quem tinha mais de trinta. Porém, a idade carreada vagarosamente pelo tempo, me vestindo de conhecimento e experiências de vida, me mostrou que estava enganado. A politização me ensinou que qualquer pessoa estar apta a postular cargos eletivos, desde que a elegibilidade, evidentemente esteja com ela, a idade é apenas um detalhe de viés duplo a ser observado. Se o jovem traz consigo novas ideias e virilidade, as cãs prateadas mostram vivência, precaução e visão de possibilidades. O ideal é caminharem juntos.

Lisura de caráter, limpidez da alma, vergonha no rosto e limpeza nas mãos. Se lhes ungisse de ideais, a tez iluminada dos nossos governantes, se no imo lhes brilhasse a cor doirada, se no pulso lhes firmasse a bandeira respeitada, sem medo, sem dúvidas, sem provação, não haveria neste mundo, lugar melhor pra viver, que não fosse o nosso chão.

 

Carlos Karoá, amante de música e cinema, também tem paixão pelo universo das letras. Em 1970, deixou Morro do Chapéu com destino a Salvador, como fazia todo jovem interiorano daquela época. Hoje aposentado, retorna à nossa cidade em busca de uma vida mais tranquila. Gosta de escrever crônicas e pequenos contos, sejam eles verdadeiros ou não.

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