Carlos Karoá escreve: ‘FESTIVAL DE FILARMÔNICAS’

Um dia Cristo virá. Não creio, mas a afirmação é bíblica, portanto, nos cabe respeitosamente, imaginar as nuances desta festa colossal. A aparição luminosa, troante e refulgente como certamente deve ser um recado universal, pode ser em Belém onde nasceu, ou em Jerusalém onde entregou o corpo e o espírito em sacrifício, mas a mensagem de boas novas, com a mesma certeza de que o amanhã virá, será através da música.  Com uma falange de Querubins, entoando cantos e louvores anunciará a bem-aventurança. Estando ele na terra, a música estará a seu lado, o Messias sabe que a música é a única unanimidade do planeta e não poderá prescindir deste bem maior, doação da generosidade do seu pai celestial.

A música é e sempre será a linguagem dos deuses.

O ano do Senhor é 2025, o mês é dezembro, os dias 13 e 14. Filarmônicas irmanadas pela natureza de notas e compassos, festejam o niver da anfitriã, Sociedade Filarmônica Minerva, da cidade de Morro do Chapéu. Não é uma competição em busca de glorificação, é a celebração da amizade entre amantes ardorosos dos trinados graves ou agudos das palhetas e bocais. Para mim, não há enlevo maior, exceto naturalmente, os abraços e carinhos da pessoa amada, aquela que te faz sentir a ausência e quando vai embora, te mata de saudades.

FILARMÔNICA LYRA POPULAR DE MUCUGÊ

O Jovem maestro Rodrigo Reis, pela associação com a cidade das lavras, se identifica como um garimpeiro em busca da pepita mais preciosa. Apostou no populesco das bandas Calcinha Preta e Harmonia do Samba e fez nova roupagem e cadência dançante. Um dos integrantes, lançou fora o paletó e meneou os quadris no pagode do Harmonia, levando a galera “teen” com ele. Cumpriu o dever de levar alegria e dança pra molecada na frente do palco. Gostei.

 

FILARMÔNICA 19 DE SETEMBRO DE IBIPEBA

A Lírios Prateados, impõe olhares de atenção quando pisa o “picadeiro”. O silêncio de respeito, reverência a sua importância diante do público e não nega fogo. O seu dobrado de abertura, cadencia a respiração respeitosa dos presentes, um dos mais belos que ouvi, um delírio coletivo de quem sabe o que diz, de quem sabe o que faz, de quem veio pra ficar, no pódio dos vencedores. A fantasia pela obra do mestre Luís Gonzaga, revelou criatividade e ineditismo, o namoro com o velho Pink Floyd, foi de arrepiar. Conheço a cidade de Ibipeba, pelas suas limitações, posso mensurar a capacidade técnica do maestro Gerry Andrade. Um profissional dos mais gabaritados. Educado, carismático, um “getleman”. Sua terra pode se orgulhar deste filho e seus pupilos. Nota 10.

FILARMÔNICA JOÃO MENDES DE ALMEIDA

Canarana mais uma vez faz a sua autoafirmação como também cidade de música marcial. Seu maestro, o jovem Morrense Robston Alencar, traz um “Cast” predominantemente mirim e a juventude todos nós sabemos, é uma fonte inesgotável de entusiasmo. Seu dobrado de abertura foi belíssimo e a mudança para o populesco foi de extremo bom gosto. Paparicou Michael Jackson, sambou com Raça Negra e fez o”pop” com Mamonas Assassinas. Inovou, brilhou, reluzio e a meninada caiu na dança até o fim da apresentação. Adorei.

 

FILARMÔNICA JOSÉ VÍTOR DE CARVALHO

Esta noviça, para mim é debutante, bato os olhos nela, pela primeira vez. Parabenizo a cidade de Lapão, por iniciativa tão relevante, de custear uma filarmônica. Também tem a regência de um Morrense, o jovem Ramon Macedo.

A abertura festiva foi das mais nobres. Bolerizou com maestria, a obra imortal do Porto-riquenho Rafael Hernández Main, “Perfume de Gardênia” e nos trouxe a beleza nórdica do grupo ABBA, com o sucesso “Dancing Queen”, saindo do ritmo “Folk” americano para a cadencia marcial de uma banda. Simplesmente adorei.

FILARMÔNICA 02 DE JANEIRO

Meu olhar para esta instituição é de profundo respeito. Eu a conheço desde os meus tempos de “Minervino” quando o trompetista Benedito, os saxofonistas Alexandre e Ney, (pai e filho) vinham em nosso auxílio, em tocatas dos velhos tempos. Em conversa com o saxofonista William Oliveira, fiquei sabendo que já não estão entre nós. A 02 de Janeiro dispensa louvores, no Ranquing das mais pontuadas, ela é uma das primeiras, é uma preciosidade aurífera da cidade de Jacobina. Maestro Celso Santos, os meus respeitos, aplaudi de pé, a exibição dos seus pupilos. Dobrado Barroco, simplesmente impecável. Nota 10.

 

FILARMÔNICA LIRA MORRENSE

Filhota do meu amigo Jomarito Bagano, foi como coadjuvante que rouba a cena do protagonista. Maestro novo, entusiasmo novo, alunos novos, tudo novo, veio de novo mostrar o que o baiano tem. Com um dobrado autoral, marcou o tempo de uma nova era e confesso que fiquei surpreso de jeito alegremente positivo.” Pescadores ao mar” não foi uma marola, foi uma onda. Após a exibição, o buchicho foi instantâneo e generalizado: Está surgindo uma nova estrela no azul de Jezebel. Aplaudi de pé.

Maestro Alex Marques, a nossa Lira Morrense está em boas mãos. Ano que vem, teremos novidades. O vaticínio por antecipação é o mesmo do imperador Julius Caesar: VENI VIDI VICI. Vim Vi Venci.

Maestro seja bem-vindo.

FILARMÔNICA LYRA POPULAR DE LENÇÓIS

Saiu das cobertas para o Esplendor do palco. Com a tradição copiosa da região Diamantina no seu fardamento, começou a exibição com um dobrado bem cadenciado.

” A conquista do paraíso” tinha beleza e pulso forte do maestro Washington Sueira, que por ousadia, foi buscar o pote de ouro no fim do arco-íris, na obra popular do breguíssimo Waldick Soriano. Bolerou e o público foi com ele. Nada ficou a dever, tá no páreo dos vencedores.

 

FILARMÔNICA SANFELIXTA

Para mim, São Félix também me estende a mão pela primeira vez. Mas não nos Enganos com ela, a batuta do maestro André Luis Rocha, é uma pedreira difícil de ser batida. Lobo experiente, coleciona presença no pódio dos vencedores, em dezenas de apresentações Bahia afora. A exibição foi nota 10. Solistas debulhando colcheias e semínimas com precisão e maestria, vieram mostrar o que é que São Félix tem. Pois é, tem o que há de melhor nas filarmônicas da Bahia.

FILARMÔNICA UNIÃO DOS FERROVIÁRIOS BONFINENSES

Traz na bagagem, as lembranças afetivas do nosso mestre, José Ferreira da Silva. Sinto-o em cada compasso solfejando. O dobrado Número 08, do compositor Ceciliano de Carvalho, foi um diamante lapidado até se tornar brilhante. Firme e forte. Foi chicleteiro para o boom dançante da galera “teen” mas o “In the mood” do velho Glenn Miller, levou a banda pras nuvens, saiu do chão prós céus. Seu maestro, Elber Cezar Amorim, mandou avisar, ano que vem tem mais.

 

FILARMÔNICA 04 DE JANEIRO DE ITIÚBA

É uma velha conhecida. É uma filha pródiga voltando pra casa, já tem o seu lugar no coração do povo da terra do frio, todos ficam à espera da sua apresentação. O maestro Egnaldo Paixão, por merecimento, é uma das estrelas da festa. Sempre traz na algibeira, além de obras de poetas, uma surpresa em dó maior. Desta vez, brindou-nos com a nobreza das valsas vienenses, inundando a noite suave, com os acordes de ” Danúbio Azul”. Itiúba já tem cadeira cativa, dispensa comentários.

SOCIEDADE FILARMÔNICA MINERVA

Difícil encontrar adjetivos para nominar o conjunto da obra apresentada por esta corporação de perfeccionistas.

Maestro Alberto, incomparável pela capacidade técnica que imprimiu nesta garotada. Divisor de águas, depois dele, a perfeição está cada vez mais perto.

Maestro – nota 10

Exibição da banda- nota 10

Paramento- sóbrio, discreto, elegante

Repertório – nota 10- sempre uma surpresa

Solistas – nota 10- desempenho admirável

Só em abrir os trabalhos com o dobrado “Tusca” do grande Estevão de Moura, mandou um aviso discreto;

A medalha de ouro, continua na nossa prateleira.

 

PERDONALIDADES

Presidente Maria do Carmo Dantas

Incansável, solícita, merece o certificado ISO  900, pela capacidade de construir.

Antônio Dantas, o Dantinhas, Pequetito mas um gigante quando o assunto são os interesses da Minerva. Meu presidente eterno.

Leo Ricardo, na minha humilde opinião, o maior apresentador de eventos, que já conheci. Sabe o “time” certo, criativo, não deixa lacunas, sem titubeios, nasceu para usar um microfone com maestria. Único.

Carlos Karoá, amante de música e cinema, também tem paixão pelo universo das letras. Em 1970, deixou Morro do Chapéu com destino a Salvador, como fazia todo jovem interiorano daquela época. Hoje aposentado, retorna à nossa cidade em busca de uma vida mais tranquila. Gosta de escrever crônicas e pequenos contos, sejam eles verdadeiros ou não.

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