Carlos Karoá escreve: ‘FESTAS, BARRAQUINHAS E LEILÕES.’

O frio é intenso. Doído nas canelas e cangotes, onde o pano do pijama não esconde do vento, que permeia os ares do quarto de dormir. Ainda não amanheceu, mas eu e um monte de garotos e Homens feitos, já estamos a postos no prédio sede da Sociedade Filarmônica Minerva. O Sr. José Ferreira, nosso maestro ainda não chegou, é o dono da batuta e pode ter está regalia, dormir um pouco mais. Chegar mais tarde é pra quem pode.

Lá fora, uma densa camada de nuvens plúmbeas, porque é chegado o tempo delas, tentam esconder a luminosidade solar, permitindo apenas que a sua resplandecência ilumine as ruas molhadas da garoa, da neblina da noite de ontem. Em passinhos apressados, com medo do frio, alguns abnegados começam a aparecer, a povoar as adjacências do nosso teatro de ensaios. Num canto da porta, o velho Barrão segura orgulhoso uma caixa de foguetes Adrianinos. Ele é o nosso baliza sem cetro, pois irá à frente do cortejo, espocando suas bombas nos céus, anunciando o alvorecer de mais uma festa de fé esperança e amor a Deus.

Também aquecido com seu velho paletó de brim azul, esperando com o ardor e humildade que só os escolhidos possuem, está o nosso para sempre amado Aldinho. Seu amor por nós da velha Filarmônica é um mimo sem arestas. Vai junto, do nosso lado, faz parte do grupo, é o nosso arquivista, orgulhosamente aprovado sem concurso. Eram assim o amanhecer nas alvoradas das festas do Divino Espírito Santo e São Benedito.

Os imperadores, eram assim chamados os organizadores da festa, serviam prazerosamente a quem acorresse à sua mesa nestas manhãs, um café matinal de meter inveja nas mais requintadas pousadas dos dias de hoje.

E a banda ganhava as ruas, ainda adormecidas pelo frio. Entoava galhardamente dobrados e hinos sacros, como arautos de esperança e fé. Não havia limites para se ouvir os trinados cadenciados da centenária fundação de amadores. Desde o hotel Vila Amélia de seu Peri, até às alcovas amorosas ou pecadoras da corrente. Quem morava em Morro do Chapéu naquela época, sabe do que estou dizendo.

Às dez da manhã, uma missa em comunhão com os residentes. Respeitosa, profunda. Na homilia, havia brandura, tinha a unção se espalhando pelas mãos do teu irmão ao lado. Acho difícil às vezes explicar, mas para todos tenho certeza, é muito fácil entender.

E a tardezinha quando o sol começava a migrar seus raios de luz, lá pras bandas do Japão, era o tempo das esmolas caridosas, às vezes até generosas, num séquito de fé, música sacra, acompanhantes de namorados, donas de casa e figuras folclóricas. Minha homenagem a Nego Fiinho e Arquildo Novais, sem eles, esta procissão de louvores e grandes amores, não teria a menor graça.

E, no comecinho da noite, quando a janta mal se aninhava lá no cantinho das tripas, seu Albino já estava no ádrio frontal da igreja, a plenos pulmões nas guelas.

Saracoteava entre os postulantes das prendas do leilão, ora com uma galinha, uma pata, um bacuri barulhento, ou um vale de papel nas mãos, de quem garantia um novilho como doação. Carregar um novilho nas costas, evidentemente só nas telas de cinema.

Os leilões tinha também a conotação de local de diversão. A linguagem burlesca do leiloeiro, as respostas dos presentes em algazarra respeitosa, era um prato bem rico de galhofa e recreação. Ficar alguns minutos a assistir o labor do seu Albino, era garantir por alguns momentos, um breve roteiro de comédia pastelão.

Os leilões perduravam por algumas horas, até o rarear das ofertas. Aos poucos, o frio e o cansaço iam mandando a maioria dos arrematadores. Os mais velhos iam à procura dos lençóis, os mais jovens, acorriam lá pras bandas do teatro Odilon Costa. Era dia de festa na Minerva. Se sorte tivessem, quem sabe, poderiam abiscoitar uma cara metade pra namoro, sob os auspícios do conjunto “Os Paqueras”.

Saudade, saudita, saudoso.

Nos meados dos anos 60, nossa urbe, ainda provinciana, sem água encanada, sem luz perene, sem asfalto, sem internet, sem os benditos celulares, deixava a escorrer pelas ruas, porém, outros valores que a tecnologia não pode vender, comprar ou dar de presente como brinde de natal. A amizade tinha pilares fincados em bases de apreços transparentes, o bem querer de eu pra tu e tu pra mim tinha ainda as ilusões do amor eterno. Não era só a juventude, a nuança de felicidade que nos abraçava. Talvez fosse também a época maravilhosa que existia em todo o planeta, talvez fosse o alcance de algo novo, do ineditismo prós olhos de quem tinha muito que aprender. A carência do novo sempre gera ansiedade.

As festas populares ainda não tiveram seu ciclo encerrado.  Continuam em moldes que o tempo pede, mas agora sem as barraquinhas de folhas de palmeiras, sem personagens que faziam tipo, sem leilões de ofertas e gritos de leiloeiros. Nada neste mundo tem o selo de continua para sempre. Mas, deveríamos fazer escolhas para aquilo que nos alegra, ter a chancela de existir por toda a vida. Mas, não é assim que a existência humana funciona. Até mesmo em time que está ganhando, várias peças são trocadas, porque o novo sempre vem. As barraquinhas estão de volta, mas em modelos diferentes, plastificadas, madeiradas, sem as palhas do licuri como enfeites.  A banda, a nossa filarmônica está a postos, mas os leilões, os gritos de quem dá mais por esta prenda, acho que vamos viver por um bom tempo de saudade, dos apupos cheios de adornos, na voz do velho Albino.

Enfim, a única coisa que felizmente não deixou de existir, foi a fé inabalável dos seguidores dos nossos protetores divinos.

São Benedito, Divino Espírito Santo, Nossa Senhora da Graça, rogai por nós.

Que sejam eternos na nossa terra do frio, porque aquilo que transcende a compreensão do homem, também é tão importante pra viver, quanto o pão de cada dia.

Carlos Karoá, amante de música e cinema, também tem paixão pelo universo das letras. Em 1970, deixou Morro do Chapéu com destino a Salvador, como fazia todo jovem interiorano daquela época. Hoje aposentado, retorna à nossa cidade em busca de uma vida mais tranquila. Gosta de escrever crônicas e pequenos contos, sejam eles verdadeiros ou não.

 

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