Carlos Karoá escreve: ‘EVOLUÇÃO DA MORTE’

EVOLUÇÃO DA MORTE

 

O dia tava ainda rompendo a escuridão da noite anterior, quando Átila abriu a porta da frente da choupana, para olhar o mundo. Com o tempo beirando os últimos dias de primavera, o sol surgia reluzente num azul de nuvens raras, nesta beleza única que só o nosso planeta tem.  Mas, apesar destes louvores, estava acabrunhado, macambúzio, ainda com os nervos aflorados pela desdita da tarde que passou. Por motivos de viés de pensamentos, tinha trocado farpas renhidas com Uldin, seu vizinho de terreiro e lamentou pesarosamente, não ter em mãos algo de natureza cortante, que pudesse feri-lo de forma contundente, uma vez que palavras ásperas apenas reverberam, agridem, mas não derramam sangue, machucam, mas não matam.

Ferreiro de profissão, resolveu então bater o malho em algo que pudesse ferir e evidentemente matar. Por dias de agonia, o tinir da sua bigorna se ouvia, na sua primitiva oficina. Surgiu assim a espada ou a cemitarra, emissário milenar de destruição, onde homens bramiam os seus dissabores e de mãos crispadas e olhos vermelhos de sangue, espalhavam a morte.

Por séculos seculoreum, as diferenças tribais foram resolvidas no tinir do aço e na bravura dos seus espadachins. Um tête a tête, até o esfumar estúpido de preciosas vidas. Mesmo com a morte precoce de Átila e Uldin, seus descendentes continuaram a malhar o ferro, brandir espadas e eliminar a ventura miraculosa de se ver o mundo. Se morrer ou matar, está no DNA, não vejo muito o que jeito dar.

Hao-yu-Chin tinha diferenças doloridas com um certo vendedor de galinhas que vez em quando aparecia e batia palmas na sua porta. Por várias vezes o pegou xeretando na janela do quarto das filhas, jovens adolescentes que tinham por predileção, o carinho e os cuidados de pai e mãe. O vendedor Yichen-ho era em demasia insolente. Depois de discussões acaloradas por dezenas de vezes, resolveu dar uma lição letal no pracista petulante. De tamanho tipo esmirradinho, não poderia trocar socos com o desafeto, que se fosse nos dias de hoje, estaria usando sapatos 46, camisas GG e por aí vai. Criativo, resolveu pôr em prática, o que por muito tempo já vinha acossando os seus pensamentos. Conhecedor da pólvora e dos seus poderes, ungido de ódio e astúcia, usou pacientemente a determinação e o entusiasmo, as duas principais molas de propulsão do pragmatismo humano. Iria inventar, uma coisa que ainda não existia. O formato do artefato já estava em sua cabeça, procurou apenas o necessário para o engendramento da fatídica empreitada:

Um cano de ferro, gatilho de pressão, chumbo e buchas de divisão.  Todo este aparato, caprichosamente urdido, foi fixado numa coronha de madeira, alisada e raspada demoradamente com o fio cortante duma amolada faca. Surgiu assim a espingarda de socar ou o conhecido arcabuz, famigerados objetos de ceifar a vida, sem precisar estar trocando farpas verbais com o belicoso inimigo. Não demorou muitos dias, para preparar uma emboscada e descarregar sem nenhum remorso, uma carga fatal de chumbo no odioso sem vergonha. Foi assim o primeiro homicídio por arma de fogo.

Yichen-ho perdeu a vida, mas os parentes, desnudos de conformismo, vingaram a sua morte.

Mesmo com as mortes de Hou-yu-chin e Yichen-ho, milhões de espingardas e arcabuzes continuaram a ser fabricados, mundo afora, porque convenhamos, eles matam, mas no outro lado da moeda, pode também, estar a salvação da vida. Matar ou morrer, já vem de berço, tá na primeira página do livro da natureza humana.

A capacidade criativa do homem, no quesito matar a quem tinha por inimigos, não arrefeceu desde a invenção do primeiro artefato de eliminação de vidas. Saímos do arcabuz ou espingarda de um tiro só, para o revólver de seis balas, depois o rifle de repetição até o matraquear da metralhadora.

Na tentativa de evitar o confronto pessoal, milhares de bibelôs da morte continuam sendo testados e posto em prateleiras de negócios. Emissários de destruição ganham novos “modus operandi”, o esforço é evitar jovens guerreiros na linha de frente da batalha, prepará-los para apenas apertar um botãozinho vermelho e esperar a morte acontecer, com extrema precisão, bem longe do seu quintal. Se é pra desaparecer, antes ele do que eu.

Ideologias distintas, levaram o homem a trocar tapas ou apertar gatilhos para resolver as suas diferenças. No século passado, duas guerras mundiais tingiram de vermelho, os solos da Europa e Asia. Aproximados 60 milhões de mortes e um prejuízo material impossível de mensurar. Mesmo assim, o homem não aprendeu. De 1950 a 1953, a Coréia, provou destes dissabores, o conflito as levaram pra separação de território, hoje Coréia do Sul e Coréia do Norte. De 1955 até a queda de Saigon ou atual Ho CHI Mim, em 1975, o Vietnã também arcou dolorosamente o peso da estupidez. De 2003 a 2011, foi a vez do Afeganistão e o Iraque, de sentir a desventura de ter o solo banhado em sangue de gentios. Posse de armas de destruição e “Afair” com grupos terroristas, tipo “Al Qaeda” foram os motivos alegados para mais esta insensatez. A imprensa sem compromissos duvidosos, outrossim, nominava o controle de reservas de petróleo, como motivos verdadeiros para a troca de bofetes e tabefes, por parte dos brigões, desafetos dos Estados Unidos da América. Mortes e destruição, mas o homem estupidamente, ainda continua a ciscar para trás, como fazem os galos de briga.

Alguém disse certa vez, que a guerra era o resultado das contendas entre homens velhos e barbudos, que não pisavam nos campos de batalha e mandavam homens jovens e imberbes para resolver a questão. Pois hoje, nestes minutos que se vive agora, semear a morte ficou bem mais fácil. Fácil e com extremada precisão. Aviões não tripulados, quase sem detecção ou visibilidade, vão e voltam para casa com o dever da missão, dolorosamente cumprido. Os drones, a maravilha alada com os zumbidos do amor, em ocasiões belicosas se tornaram criaturas aladas com zumbidos do terror. Há milhares de anos, os homens vêm provando as desventuras de viver em guerra. Sabem de cor e salteado que vão amargar tristezas pro resto das suas vidas, mas insistem nesta desdita que mais parece loucura. São como os usuários de drogas, que conhecem os seus destinos por antecipação, mas não se furtam, do consumo do veneno que lhes matam. Há uma velha máxima que diz: “Não há bem que sempre dura ou mal que nunca se acaba”

Se analisarmos friamente está sentença, vamos perceber que a paz e a guerra, vão estar conosco, até o final dos tempos.

Carlos Karoá, amante de música e cinema, também tem paixão pelo universo das letras. Em 1970, deixou Morro do Chapéu com destino a Salvador, como fazia todo jovem interiorano daquela época. Hoje aposentado, retorna à nossa cidade em busca de uma vida mais tranquila. Gosta de escrever crônicas e pequenos contos, sejam eles verdadeiros ou não.

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