ETERNAMENTE JOVEM
Segunda e última parte.
A fornalha que mantinha o calor das serpentinas de vidro em trabalho permanente, nunca se apagava. Quando estava em descanso, as brasas apareciam sorrateira sob o borralho das cinzas, num vermelho carmim cintilante, piscando como as estrelas distantes do reino dos céus. O sangue, como elemento de pesquisa não podia ser fervido, visto que não obedece às leis físicas, não reage como a água por exemplo. Fora da matéria, ele apenas aquece. Mas, trabalhar com sangue, era algo que Rolf sabia, mesmo antes de vir para este mundo. As almas dos bruxos, já viajavam pelos Confins do universo, desde tempos imemoriais e por isto, o que para nós representa verdades absolutas, para eles são meros detalhes sem nenhuma relevância. Suas cobaias eram a mãe, o cão “lobo” e ele mesmo, sem nenhum receio de provação. Colocava sorrateiramente suas essências nos pratos e sucos consumidos pela mãe e ficava a observar se acontecia alguma mudança de perfil e comportamento. Dulce Maria, bebia e comia sem nem de longe, desconfiar das treitas e receitas do filho, que também por falta de opção, era um consumidor dos seus caldos e perfumes.
Pequenos vasilhames eram enchidos com a nominação de quase tudo em informações
Matéria, peso, valor químico, teor Natural, enfim tudo que fosse necessário preservar para configuração e análise do produto obtido. Nas vasilhas de alimentação do cachorro, sempre colocava gotas das formas prontas e catalogadas, para que se houvesse possível mudança de aparências, também pudesse saber a fórmula envolvida. O garoto era incansável quando tinha alguma coisa para ser desnudada.
A cada porção concebida na purgação da serpentina, o bruxinho deixava em escritos, a fórmula usada e a numeração do experimento. Já estava bem cheinho o caderninho de anotações. Sorvia os pingos da essência com um conta gotas limpo e seco, procurando um jeito de deixar o produto
Experimentando, livre de suscitar dúvidas da sua captação. Num copo de vidro, fazia para si uma beberagem, colocava na ração do cachorro e nos sucos e pratos de comida da mãe. Ficava horas a observar o resultado, às vezes por dias corridos, comparando o antes e o depois da essência consumida. Quando percebia que nada havia mudado, crescia dentro de si, uma enxurrada de emoções, a lhes perturbar o sono.
A tristeza lhes acendia o desânimo
A decepção lhes enchia de raiva
A ilusão de que um dia tudo poderia mudar, lhes trazia de volta, a sanha para continuar. A cena se repetia a cada vez que a serpentina lhes dava um pouco de essência que a alquimia forjava. Os pingos que caíam nas tigelas, valiam ouro da esperança, desde sempre enternecida.
Raramente ia à escola. Nos dias que aparecia por lá, era para aliviar o estresse do labor diário sem resultados e o seu reaparecimento entre colegas era motivo de curiosidade e inquisições. Para os mestres, as mesmas satisfações que a mãe era obrigada a dar, quando professores lhes encontrava nas ruas: O garoto Rolf era um poço de diabruras, mas não gozava saúde. Volta e meia nesta vida, tinha um “difruço” pra curar. Evidentemente isto era apenas desculpas, o garoto Rolf era mais sadio que cavalo xucro, em pasto de fartura.
E busca incansável à cata da porção dos louvores, continuava dia e noite, noite e dia. Já se iam dezenas ou talvez centenas de provações, calcadas em dúvidas e esperanças, mas nada acontecia. Percebeu seu estado de magreza, visto que não fazia refeições regulares, pois sempre que a mãe o chamava, dizia não estar faminto, que iria depois, mas este depois, raramente chegava, preterindo o almoço diante da urgência de separar matéria, colhendo essência através do fogo. Quem alumiava a sua testa na verdade, era o desejo abismal, de um dia se tornar eternamente jovem.
Uma noite, quando os ponteiros já beiravam o início da madrugada, Rolf resolveu enfim cair na cama. Em algumas porcelanas, as serpentinas já haviam purgado alguma essência, mas havia ainda um vapor fervente, nos bicos dos lampadários, o que o fez, ficar a observar a quantidade de porcelanas, contendo cada uma, determinada porção do caldo do que fora depurado com o fogo, parecendo os chás que sua mãe vez em quando lhes dava, na hora de dormir para aquecer o corpo. Estava cansado, deixou as tigelas de vidro e porcelana a descoberto para trocar calor e arrumou outras peças para não deixar o ambiente em completa bagunça. Verificou as torneiras de água, desviou o olhar pra esteira acolchoada onde o cachorro dormia, apagou a luz, fechou a porta e rumou pra casa já às escuras, onde a mãe bonitona, calmamente dormitava, talvez sonhasse com o marido que longe estava.
O sono de Rolf, nestes dias de provação, era inquieto e extremamente leve. O barulho de um farfalhar de folhas, fazia ele arregalar os olhos. Geralmente tinha sonhos fortuitos, ligados às tarefas que estava a matutar. Dormindo, o rostinho abria um sorriso, sonhando naquela hora talvez, que estava tudo resolvido, que a humanidade tinha motivos de sobra para festejar a eternidade. Segundos depois, o estado onírico se foi e ele voltou a dormir profundamente, cansado que estava, com as rugas da ansiedade visíveis na testa e lábios crispados de preocupação. Muito tempo depois quando o sol já estava no Zênite, aquecendo as telhas no seu cocuruto, repentinamente acordou assustado. Mas não o fez por si mesmo, estava sendo acossado, festivamente, ruidosamente, sentindo braços e pernas mordidas por dentinhos bem afiados. Era um filhote de Husky Siberiano, igualzinho ao cão “lobo”, trazido pelo pai há muitos anos atrás, mordendo e latindo como se tivesse ganho o petisco melhor da prateleira. Ficou embaraçado, diante do cãozinho a lhes molestar e pulou apressado da cama. Foi procurar a mãe para saber o que de novidade ele não sabia. Talvez o pai estivesse na sala, trazendo esta surpresa, pra deixa-lo mais feliz do que já era. Mas a resposta foi não. O pai não havia chegado, nem tampouco ela sabia de onde viera aquele cãozinho. Ficou pensativo e imediatamente correu pro seu cantinho de pesquisas e foi dar com as tigelas e porcelanas todas vazias. Alguém tinha consumido as beberagens deixadas por ele na noite anterior. Não havia catalogado as essências nem nominado valores de cada porção. Só havia uma explicação: o cão “lobo”, bebeu o que tinha nos vasilhames e o milagre da vida aconteceu. O seu velho cachorro “lobo” voltara a ser um filhote. Ficou alucinado, o cansaço lhes pregara a mais cruel decepção. Descobrira a fórmula da juventude, mas esta lhes escapara na inocência de um cãozinho de estimação. Pensou possesso e resoluto: Se ela existe, eu vou encontrá-la novamente, só vou tomar um café pra esquentar as tripas e vou começar tudo de novo.

Carlos Karoá, amante de música e cinema, também tem paixão pelo universo das letras. Em 1970, deixou Morro do Chapéu com destino a Salvador, como fazia todo jovem interiorano daquela época. Hoje aposentado, retorna à nossa cidade em busca de uma vida mais tranquila. Gosta de escrever crônicas e pequenos contos, sejam eles verdadeiros ou não.