Rolf Mallmann, o engenheiro de minas, vinha de tempos em tempos visitar a cidadezinha de Andaluz, ninho brejeiro da também brejeira Dulce Maria, mãe do seu filho, o estripulento Rolf Mallmann Jr. Nunca vinha de mãos abanando quando a referência era o seu garoto de cabelos loiros e lindamente cacheados. Numa vez trazia um carrinho elétrico, outra hora uma bola de futebol, uma caixa com livros juvenis ou quebra cabeças, alguma coisa ele sempre trazia, no seu baú de surpresas. Era uma festa ruidosa, quando seu carro apontava na barragem divisória do rio, que ficava perto de casa. Num brioso dia, sem mesmo consultar a morena de olhos verdes, trouxe o inusitado: chegou com uma caixa plastificada e lá dentro, um filhote de cachorro, da raça husky siberiano, que deixou mãe e filho doidinhos de alegria. Nesta época, o menino Rolf, não tinha mais que dois aninhos de vida. Se um cão adulto desta raça, com seus belos olhos cinza azulados, já é bonito pra dedéu, imaginem o encantamento que dispensa, um filhotinho que andava aos tropeços, bamboleando, feito uma gazela. Dava até vontade de se dar umas dentadinhas no bichinho, de tão bonitinho que era. Mas, isto ficou no passado, quando o danado era um filhotinho, hoje, o cachorro que é chamado de “lobo”, já beira aos 14 anos, e não inspira tanto paparico assim.
Já havia passado algum tempo, que Rolf vinha percebendo que “lobo”, o seu parceiro de aventuras, vinha perdendo os trejeitos de virilidade e aptidões de um cão do seu calibre. Já não dava corcovos como potros em pasto farto, nem pulos de alegria quando ele voltava pra casa. Portava-se com uma discrição peculiar de quem começou a conhecer limites. Ainda possuía o faro aguçado dos caninos, mas a celeridade dos felinos, estava indo embora. Quando inquirido, demorava alguns segundos até assimilar a ordem, já não era o mesmo de anos passados. Curiosamente também, observou por vezes que a sua mamãe já não tinha a jovialidade faceira, que lhes dava o ar de mocidade, que fazia da cabocla, objeto de cobiça pelos homens. Também seu pai, seu herói de capa e espada, começava a branquear as têmporas, num sinal clarificado que a velhice vinha vindo, de mansinho mas vinha, tava cutucando os calcanhares. Estas observações, levaram o garoto Rolf a se lembrar da morte, de juventude eterna, de distância plena das agruras da senilidade. Adorava os pais, seu cãozinho “lobo”, venerava a sua própria vida, não queria ir embora deste planeta tão cedo. Era chegada a hora de pensar em soluções.
Chegou em seus pensamentos, de forma lenta mais insistente, as histórias da carochinha, onde aventureiros, magos e afins, encontraram por acaso a tão sonhada ” fonte da juventude”, mas esta, era contada em livros, não passava de fantasias rabiscadas, fruto das mentes de quem adorava se cobrir de ilusões. Começou a pensar a respeito e quando o feiticeirinho mirim botava uma coisa na cachola, só desistia quando tivesse a confirmação de que nesta conta, 2 mais 2, nunca daria a soma exata.
Naquela noite, espiou os céus por horas demoradas, sem conciliar o sono placidamente como estava acostumado a fazê-lo, num lugar de aprazivibilidade invejável, como era o sítio onde morava. Logo cedo na manhã seguinte, após o café, desapareceu na mata margeando a serra, em busca de respostas. Começava ali, a decisão de encontrar a fórmula da vida prometida e encantada por mil anos. Levava a tiracolo, o husky siberiano de nome “lobo”, seu velho companheiro de aventuras, farejando moitas, gritando latidos apenas pra chamar atenção, sem nada de interessante para tanta latomia.
Nem avisou a mãe que iria sair logo cedinho, sem quebrar o jejum com o café da manhã, mas Dulce Maria conhecia as esquisitices do filho, não esquentava as mufas com o sumiço repentino do garoto. Ela de nada sabia, mas desta vez, Rolf deveras tinha algo sério no juízo, coisa que se ela soubesse haveria de fazê-lo cuidar de sua vida, este naipe de juventude eterna, só existia no baralho das perdidas ilusões.
Os feiticeiros adoram buscar respostas, no inconsciente vivo dos seus devaneios. Imaginam que a explicação para absurdas inquisições, pode estar oculta nos recônditos das suas privilegiadas mentes. Talvez por isto, costumam olhar para o nada, para os céus, ou de pálpebras fechadas, olhar para dentro de si mesmo. Rolf, ainda jovem, mas com uma poderosa intuição no reino das essências, iria usar sem nenhuma dúvida, a força grandiosa da alquimia, nesta empreita de uma envergadura jamais experimentada por ele. Procurar a fonte da mocidade, misturando num tacho de cobre, as essências doadas pela natureza, partindo do princípio de que todos os males e benesses que neste mundo existem, são nativos do nosso planeta e é evidente que todos os antídotos, pro bem ou pro mal, serão encontrados também nos reinos que aqui estão. Reinos animal, vegetal e mineral, descartando naturalmente, as outras subdivisões e era nestas searas, que as pesquisas seriam incansavelmente concebidas.
Principiou a observar as matérias de durabilidade acima do normal, de tantas outras conhecidas do reino mineral. Imaginava se os sedimentos de rochas, carbonato, fosfato, sulfato, sílica, heloides, poderiam ser decompostos, liberando a essência através da alquimia, transformando tudo isto em beberagens, em caldos ou chás para a absorção do corpo. Sua imaginação era uma máquina incansável de mutação genérica. Quase não dormia. Também trouxe para suas meditações, pensamentos a respeito do que se passava no metabolismo do corpo das tartarugas, se podiam ser ampliadas com a cumplicidade da alquimia. No reino vegetal, principiou pesquisas nas origens dos Pinus Aristatas, árvores gigantes e nativas da América do Norte, que apesar do solo árido da Califórnia e do estado do Utah, beiram a longevidade de 05 mil anos. Sua mente começava a buscar respostas ansiosamente, na busca de combinações que pudessem dar a ele, um pouco de luz neste breu, de sonho milenar. Se não podia ir nos Estados Unidos ver o Pinus Aristatas, podia acessar a vida vegetariana do Jatobazeiro Rosa, cuja existência em solo brasileiro, está estimada em 03 mil anos, mas na sua cidade não havia Jatobazeiro Rosa. Assim, quando se sentia encurralado, seu cérebro empreendia viagens a milhões de Km por segundo, na ânsia de desvendar mistérios, aprender por si, o que esqueceram de lhes ensinar. Com o jovem bruxinho, era assim que as coisas tinham que funcionar, todos os ciclos abertos, tinham que se fechar.
Nesta agonia de encontrar longevidade no reino vegetal, num estalo se lembrou do velho cruzeiro de madeira, fincado no alto da serra que margeava o rio beiradeiro da sua casa, símbolo da fé do povo de Andaluz. Estava lá, há mais de um século e ele nem imaginava, quem tiveram a ideia de tão grandiosa obra, relevante para moradores e romeiros visitantes. Saiu no terreiro e perscrutou o topo da montanha até avistar a silhueta da cruz de madeira no cume da elevação. Estava lá, impávida, resistente, testemunha da fé de caminhantes, de homens mulheres e crianças, curiosos pela visão de pertinho, desta imagem do reino dos céus. Decidiu que no amanhecer do dia seguinte, iria lá bisbilhotar, quem sabe tivesse sorte e alguma coisa de bom lhes acontecesse. E assim fez. De manhãzinha, com os primeiros raios de sol aquecendo o chão, o bruxinho já estava na trilha da serra, no caminho que o levaria pro Cruzeiro de madeira, que ponteava o topo do monte. Iria tirar retalhos do tronco secular, para expirar no fogo, o núcleo da sua essência. “Lobo” seu cão de estimação, latia de pura alegria, xeretando em volta, farejando pedras, moitas e tudo que parecia esconder algum mistério. Corria latia, corria latia, até beirar a exaustão.
Quando por fim estava no pé do tronco sagrado, antes mesmo de raspar a madeira que ele imaginava provedora de essência mágica, ficou a olhar a cidade lá embaixo, numa quimera vaidosa, de que naquela hora o mundo inteiro lhes pertencia. A solidão por vezes, nos dar esta sensação ilusória de que tudo que está em nossa volta, em cabal silêncio, cabe em nossos bolsos. Mera ilusão. Mas as ilusões, estão além do nosso toque de mãos, permeiam as mentes ungidas de vontades, até que um dia quem sabe, o desejo se torne realidade.
Sacou da algibeira o canivete que sempre trazia consigo e começou a raspar a madeira secular, pacientemente. Não era necessária muita coisa, apenas algumas taliscas da árvore morta, lhes dizia o que fazer. Colocou a porção preciosa num saquinho e este na capanga de couro, pendurada no pescoço, confiante, que logo, logo iria voltar pro seu altar de experiências transcendentes, misteriosas, que vinham do reino poderoso da alquimia. Terminada a colheita, tomou de volta o rumo de casa, absorvendo em delírio silencioso o perfume do mato, a quietude do lugar, o ruído impressionante dos seus passos no chão, pontuado de vegetação rasteira, mas na maior parte coberto de areia.
Lá, na sua tenda de testames, Rolf observou em volta dos breguessos que tinha e percebeu que praticamente quase tudo possuía para o início dos seus experimentos. Colocou as tigelas de vidro e porcelana sequenciadas por teor e forma das matérias. Os pesos de importância dos elementos do reino da natureza eram igualitários, mas a consistência da matéria exigia posições diferentes, demandavam observações criteriosas de onde deviam ser alojadas. Organizou tudo em porções mensuradas nos vários potinhos enfileirados nas prateleiras e balcões. Era um garoto, mas no trabalho a mente era prodigiosa, incansável, para ele o tempo era apenas um detalhe, noite ou dia não fazia a menor diferença. Era preciso estar literalmente, tenazmente como se diz, com a “mão na massa”.
Faltava a representação do reino animal. Mas os seus pensamentos, há muito vinham lhes mostrando onde encontrar a essência perfeita desta ramagem que faltava. Ali, bem pertinho do seu galpão, no seu quintal, sua mãe criava um cágado, variedade natural de réptil, cuja longevidade tinha praticamente a mesma equivalência das tartarugas. Perfeito, o sangue do velho “Apolo”, o cágado, iria estar presente nas serpentinas de vidro do bruxinho juvenil. Logo logo iria começar a ferver matéria e mitigar o corpo, com a colheita de essências.

Carlos Karoá, amante de música e cinema, também tem paixão pelo universo das letras. Em 1970, deixou Morro do Chapéu com destino a Salvador, como fazia todo jovem interiorano daquela época. Hoje aposentado, retorna à nossa cidade em busca de uma vida mais tranquila. Gosta de escrever crônicas e pequenos contos, sejam eles verdadeiros ou não.
Conclusão próxima edição