COM QUE ROUPA
O Brutamontes Goruh, espreitava pacientemente uma gazela, desde os primeiros raios de sol, de um dia qualquer numa das planícies do Serigueti africano. Tinha que manter os olhos arregalados, pois não era ele somente, o predador natural dos bovídeos que perambulavam pelas terras quentes entre o Quênia e a Tanzânia. Quênia e Tanzânia nos dias de hoje, no tempo do jovem Goruh, aquelas terras nem nomes tinham. O persistente caçador, mantinha um dos olhos nas pernas das gazelas e o outro nas suas próprias canelas, que precisavam estarem fortes e prontas para uma eventual fuga, se por acaso aparecessem leopardos, leões ou os terríveis guepardos, que alcançavam facilmente, a surpreendente velocidade de 120 km por hora. A vida oscilava perigosamente, como um acrobata no fio impiedoso da navalha.
Há tempos, Goruh vinha varrumando nos miolos, a ideia de além de tirar das gazelas, a carne para o desjejum, também lhes furtar a pele, para cobrir e proteger o corpo, do frio das noites de inverno que lhes maltratava tenazmente em raias de desconforto. Também queria proteger e esconder o corpo de curvas sinuosas, da sua doce companheira Bidah, que ele já percebia, despertava olhares de cobiça, dos vizinhos de tocas, contumazes companheiros de caçadas. Era a mudança de costumes, chegando de forma lenta e continuada, no jeito de viver dos homens das cavernas.
Desde aqueles dias, lá no comecinho de tudo, de vontade inquietante de cobrir o corpo com peles de ursos polares lá “enriba” onde o frio congela os ossos, peles de bisões na América do Norte ou couros leves de antílopes nas planícies africanas, até os dias de agora, as diferenças de tudo no universo do vestuário, beiram quase as mesmas comparações do universo de distâncias interplanetárias. Simplesmente inimagináveis.
Os chamados panos, tecidos ou fazendas, tudo aquilo que servia ou serve de adorno ou aquecimento do corpo, tem na história, um viés de deslumbre que merece palmas. Alimentar as tripas ou inibir nudez, tem a mesma importância de sobrevivência. Andar de barriga colada nas costelas ou exibir detalhes íntimos que o criador nos concedeu, produz a mesma agonia. Barriguinha cheia e boa aparência, irão sempre contar pontos, na reta de chegada.
Aquilo que te veste, que te cobre, que te enfeita, que te protege o corpo do calor ou frio, está na linha das impossibilidades de mensuração. Impossível fazer cálculos de custos, nesta mandala de nuances infinitas, onde não se pode imaginar valores no mercado indumentário mundo afora. Quanto o mundo desembolsa para vestir seus cidadãos anualmente, é cálculo, que nem se cogita baixar em computadores, não há estudos a respeito do consumo de calças, camisas, cuecas, vestidos, blusas, calcinhas, palitós, blazers e afins em todo o mundo civilizado. Também difícil, era encontrar a matéria prima para alimentar teares, diferente do velho conhecido das lavouras, o nosso algodão. Aqui no Brasil, uma fibra produzida no Nordeste, também servia de matéria prima para a fabricação do brim. Hoje, com a invenção do fio sintético, seu consumo é estável e de pouca relevância financeira. É o nosso brim de “caroá”, cujo nome, deu o apelido do meu adorado pai, Seu João Caroá.
O linho, o algodão, o junco de papiros, eram as matérias primas para tecer os panos e evidentemente as roupas dos povos antigos. Milênios vividos até. Se havia conforto, se havia beleza não sabemos, mas, acredito que a tinta que lhes cobria, amainava os excessos, sobretudo em relação aos modelos femininos.
Lençóis, cobertores e travesseiros, deveria ter os enfeites e os cuidados de fabricação, para a tranquilidade na hora de pregar pestanas e quem sabe, sonhar. Há mais de 3.000 janeiros, já havia civilização no Egito e todo mundo já cobria o corpo com alguma coisa, para inibir nudez e proteção corporal. Usava-se árvores e o próprio corpo para tecer as roupas. Era por demais trabalhoso e desconfortável até que os primeiros teares foram inventados e apresentados como solução indumentária de gente civilizada. Os teares para o fabrico de tecidos, para mim é uma das grandes invenções da raça humana.
Há, neste universo de teares e tecidos, um quesito que sobremaneira me encanta. Uma verdade indumentária de milhares de anos cultuada até hoje, que me arregala os olhos de admiração, espanto, incredulidade e total aprovação: são os fios maravilhosos do Bombix Mori L, o incrível bicho da seda. Conta-se que num certo dia de inverno, uma princesa das terras amarelas estava a tomar um chá, quando de repente um casulo do bichinho caiu em sua xícara. Deveria estar pendurado em algum galhinho de amoreira, cujas folhas tenras são o seu único alimento. A temperatura do chá, fez o casulo soltar os fios, que o “bebezinho” passa a tecer em volta de si, como proteção do seu delicado corpinho. A jovem de sangue azulado ao perceber a delicadeza dos filamentos, desejou ardentemente ter uma roupa inibindo a sua nudez, com um tecido de tão rara beleza. Se isto foi verdade, só o velho Confúcio pode de nós, tirar a dúvida. Vai ficar um pouquinho difícil, porque o sábio pensador chinês, voou prós céus há mais de 2.500 anos.
Imaginemos numa época tão distante, a técnica ainda primitiva e admiravelmente criteriosa, usada para o manuseio de algo tão sensível. Beira a ofícios das mãos divinas. Separá-los, juntar pelo menos dois fiozinhos para dar firmeza e iniciar a parte de beneficiamento e depois com teares ainda primitivos, fazer o cruzamento horizontal e vertical dos fios, no torque preciso de estiramento. E tinha de ser preciso mesmo, para evitar rompimento. Era um trabalho que só mesmo os povos amarelos, tinham a capacidade de elaborar. Demandava paciência, obstinação, firmeza de propósito e férrea determinação. Aqui pelas Américas, com gente tão amante de oportunismo e facilidades, tenho certeza, se aqui acontecesse, esmagaria o bichinho, jogaria o chá na terra e nada de bom aconteceria. Ainda bem que não foi cá, foi lá. Na época que tudo começou, cada bichinho produzia o fio com uma cor própria, não havia homogeneidade, dificultava a pintura final. Hoje, os casulos são induzidos a produzir fios albinos, facilitando sobremaneira a tintura no gosto do cliente. China e Tailândia, são os maiores produtores. Viva mil vezes, os fantásticos bichos da seda.
Em 1930, mais pra riba ou mais pra baixo, o admirável Noel Rosa, compôs o simplório, todavia magistral samba, “Com que roupa”.
Vem daí naturalmente, a certeza que desde sempre, nós humanoides ditos civilizados, tivemos a vida inteira a preocupação com a aparência, o chamado “look pessoal”.
Quanto mais bonito aos olhos dos outros, mais auspiciosa a vontade de mostrar os dentes, fica bem mais fácil sorrir de felicidade.
Os Teares, estão na lista das invenções que me encantam. Hoje, os fios sintéticos, inclusive para a fabricação da seda, eliminam o perigo de rompimento na hora de cruzamento e torque dos filamentos. Os computadores comandam está delicada operação. Lá atrás, há milênios passados, manusear os fios do bicho da seda, chego a acreditar, que era coisa de alienígenas.
Nas mãos humanas, a arte se aproxima de Deus, nas mãos da natureza, com certeza, Deus se manifesta.
Carlos Karoá, amante de música e cinema, também tem paixão pelo universo das letras. Em 1970, deixou Morro do Chapéu com destino a Salvador, como fazia todo jovem interiorano daquela época. Hoje aposentado, retorna à nossa cidade em busca de uma vida mais tranquila. Gosta de escrever crônicas e pequenos contos, sejam eles verdadeiros ou não.