A luz elétrica, sem nenhuma dúvida, é uma das mais importantes invenções do homem. Digo homem, porque foi um americano nascido no estado de Ohio, no meio oeste americano, o seu genial criador. Mr. Thomas Alva Edson. Apesar de patentear acima de mil intenções, a lâmpada elétrica apresentada ao mundo em 1879, detém a primazia de ser, em minha opinião, a mais importante criação da mente humana, em benefício da humanidade. Se alguém tem dúvidas, experimento viver no escuro por alguns minutos. Pode se esbarrar na quina de uma mesa e o prejuízo pode ser de se lamentar pro resto da vida.
A luz, na sua naturalidade, tem magia, tem fascínio, tem encanto no seu resplandecer. Faz brilhar os olhos e o ato simples de acionar um interruptor e mandar embora a escuridão, por alguns segundos nos dar a ilusão de que somos poderosos. Ao longo dos anos, as lâmpadas foram se modificando, além da luminosidade incandescente, ganhando formatos diferentes e colorações dos mais variados tipos. Bonitas e alucinantes, um luxo prós olhos dos observadores ou observantes, pra leitura ganhar um pouquinho de coisa diferente. Contudo, nesta vida de diversidade e birras, havia uma atividade peculiarissima na vida juvenil da nossa cidadezinha provinciana, na metade dos anos 60, e está atividade por incrível que pareça, dispensava a luz elétrica em toda a sua plenitude. Eram as nossas adoradas e românticas serenatas. A luz que permeava estas fantasias amorosas, era a luz prateada do luar desse friorento pedacinho de chão. Se luz das estrelas também tivesse mais paixão também se espalhava pelos ares gelados, que sibilavam nas ruas onde em casa dormiam os amores das nossas ilusões.
Em meados dos anos 60, a revolução dos jovens do mundo estava em curso, sem perspectiva de revés. Voltar atrás jamais. A pílula já era uma realidade e a mudança de costumes era sinônimo de rebeldia para os mais conservadores. Saias curtinhas pras garotas, cabelos longos prós rapazes e roupas coloridas pra todo mundo. O Rock and roll era uma febre juvenil no planeta e no Brasil não seria diferente. Ignorando o desdém da turma da zona sul carioca adoradores da bossa nova, o Rock se espalhou por todos os estados brasileiros, capitaneado pela turma do movimento jovem guarda. Tentaram mas não conseguiram parar está máquina de levar alegria e esperanças de um mundo novo, onde a filosofia emergente era o faça amor não faça a guerra.
No início dos anos 60, o movimento Jovem Guarda era embrionário. Apenas uma ideia na cabeça dos meninos, particularmente do subúrbio carioca. Erasmo Carlos e Renato Barros vieram de lá. Conjuntos musicais, naquela época o nome era assim, americanos e europeus, fossem do Twister ou Rock and roll, já pontuavam alguns sucessos por aqui. O programa Clube do Rock de Carlos Imperial na TV Rio, foi o estopim de divulgação desta bomba de sonhos sem fronteiras. Em 1965, Roberto Carlos já era o maior ídolo da juventude brasileira.
Mesmo com a mudança de estilo musical, de forma radical até, pelas letras, harmonia, ritmo e tipo de instrumentos de acompanhamento, a serenata não foi apagada dos costumes dos garotos da época. Era uma prática dos anos 30, 40, 50 e continuavam bem vivas por aqui. Talvez porque a Jovem Guarda trouxesse em seu bojo, alguns cantores que faziam do romantismo, a linha melódica do seu estilo musical.
As serenatas ou serestas, assim denominadas Brasil afora, tem origem na velha Inglaterra, quando homens com as tripas apinhadas de rum, deixavam as tabernas altas horas do negrume noturno, curtindo quem sabe o “fog” londrino e paravam embaixo das sacadas de suas amadas para uma evocação boêmia, estivessem sóbrios ou não. Mas está reivindicação inglesa para mim não faz sentido. Em qualquer lugar do mundo, homens amantes de rum ou fosse lá qualquer bebida alcoólica, se estivessem nas ruas, sob a luz lunar ou mesmo na escuridão do breu, estariam vez em quando entoando canções de amor para as suas amadas. Em sendo assim, creditar aos ingleses a criação das serenatas é pura balela. Intriga da oposição.
Fazer serenatas aqui na cidade do disco voador não era uma tarefa fácil. Chovia quase todos os dias e o frio das madrugadas daquela época, embolava a língua de quem não estivesse bem agasalhado. Não se fazia serenata sem antes providenciar uma meota de cachaça Serra Grande, alguns limões, e um pouquinho de açúcar.
Para se cantar nas madrugadas, tinha que ter acerto prévio. Dependia do tempo, da disponibilidade de um tocador de violão, de alguém pra cantar mesmo um pouquinho desafinado, de dinheiro prós insumos, bebidas e lanches, ou de alguém que tivesse uma radiola com pilhas novas, pra não acontecer um fiasco na porta de casa da amada. Precisava também de um cartel musical razoável. Sem Roberto Carlos, Jerry Adriani, Vanderlei Cardoso ou Renato e seus Blue Caps a coisa não tinha graça nenhuma.
Bendita seja a ignorância juvenil. É ela que nos leva ainda jovens, para os campos férteis de flores coloridas, onde só as ilusões têm assento permanente.
É a ausência de experiências vividas, que dá aos rapazolas a ilusão que nada vai mudar em suas vidas. Não imaginam que o amanhã está as espreita, esperando uma chance de mudar o seu destino. Não passa em suas mentes que o futuro está ali na esquina da rua e quando lá chegar, a pele do seu amor, aveludada pelos hormônios da mocidade, nesta hora pode trazer algumas manchinhas e rugas, porque o amanhecer de cada dia demora, mas chega, com a sua odiosa pontualidade.
Não imaginam que o amor é susceptível a mudanças quando a juventude vai embora. Os adultos já não são tão sonhadores assim. Mas valeram as pena aquelas benditas fugas de rotina. Senão o que contar para os nossos netinhos? O que mais iria nos fazer sentir saudades quando a luz de Thomas Edson fosse embora e só ficar nas ruas vazias, a branquíssima prata da luz da lua.
É preciso viver a ilusão do amor eterno, para se fazer serenatas de paixão para a vida inteira. É um risco que os garotos apaixonados não se importam de correr.
Importa mostrar para a amada, o quanto ela é valiosa, o que ele é capaz de fazer para deixa-la feliz. Se naquela hora ela está pensando nele, se está acordada para ouvir, se virá na janela mostrar adoração, isto é coisa pra se contar quando ele e seus amigos já estiverem também com seus lindos cabelos brancos.
Quando meninos, queremos ser homens a desafiar os nossos limites e acabamos indo de encontro a eles e nos tornamos escravos dos nossos desejos. Quando alçamos voo para um destino, é preciso ter cautela, pois muitas vezes o nirvana meus senhores, nem sempre está a nossa espera.

Carlos Karoá, amante de música e cinema, também tem paixão pelo universo das letras. Em 1970, deixou Morro do Chapéu com destino a Salvador, como fazia todo jovem interiorano daquela época. Hoje aposentado, retorna à nossa cidade em busca de uma vida mais tranquila. Gosta de escrever crônicas e pequenos contos, sejam eles verdadeiros ou não.