Guido de Arezzo, monge beneditino francês, era irrequieto, hiper-mega inteligente e criativo por natureza. Dentro de si, um gênio recolhido pela humildade.
Numa manhã, numa tarde ou numa noite de sua vida, porque ninguém sabe a hora certa da iluminação do cosmo em sua jugular, purgou para o mundo e para a eternidade, o sistema de alinhamento de notas musicais que conhecemos até hoje. Explicar a nominação das simplórias notas dó, ré, mi, fá sol, lá, si, de como lhes chegou tamanha inspiração, soaria de forma difusa no bico da pena, melhor pular esta parte.
A certeza, entretanto, é que este fato não foi uma invocação astral pura e simples.
Foi um boom gigantesco da energia cósmica adormecida talvez por milênios abissais. A importância que tem estes símbolos redondinhos para a vida humana, não pode ser mensurada apenas pela crença de neurônios sobrando nas meninges, na cabeça de um simples mortal. É uma divindade maturada por séculos seculoriun, nas entranhas do universo, que deveria ser parida por leis imutáveis do mundo, quando soaria o gongo do Big Bang, chegando finalmente a hora do parto. Coube a ele, por merecimento e castidade talvez, está honraria inigualável.
Velhos pergaminhos anunciam suas vindas a este mundo, no final do século X. O ano preciso evidentemente está nos anais do livro de páginas douradas do Altíssimo, daquele que me vê agora com os olhos da bondade e servidão. Se algum dia tiver a ventura de falar com ele, falo pra vocês.
Acho que o velho Guido de Arezzo, não tinha a real dimensão do que ele estava legando para a posteridade. Deus dos céus se existe, que o alimente de pão e mel, todos os dias e noites, da sua eternidade.
A busca pela felicidade, no eu de cada um de nós, tem nuanças das mais benditas. E no absolutismo da razão, a mais pertinente é a procura do sorriso eterno no final do arco-íris. Quem não quer ser feliz neste mundo, não saiu do ventre materno, não viu a luz solar, não viu o prateado da luz da lua, não nasceu não existiu, não sentiu o respirar cadenciado dos pulmões. Quando estamos felizes, não há envelhecimento de células, nada se divide dentro de nós, nada se multiplica a não ser o desejo de viver, de usufruir com mudez e serenidade, todas as bondades que á vida pode nos dar. E por incrível e inadmissível que possa parecer, as notas musicais são um caminho pulsante para de quando em vez, dar nós momentos de prazer e aconchego mental. Quando estamos em aconchego mental, estamos felizes, estamos em contrição com o infinito, não precisamos de mais nada pra viver e sonhar.
O alemão Ludwig Van Beethoven, 1770 a 1827, tinha as notas musicais correndo pelo sangue e fez das sinfonias, o seu caminho para a eternidade. Deixou-me em contemplação por vários instantes da minha vida e Pode fazer isto por todos. A internet é o acesso para alguns momentos de encantamento ou deixar em enlevo profundo, a nossa alma enternecida.
Também o polonês Frederico François Chopin, 1810 a 1849, grangeou fama em todo o mundo, como o mais alegre compositor clássico europeu. Suas obras, em harmonias suaves e jocosas, era uma festa para os frequentadores dos teatros ou das varandas reais dos senhores endinheirados. Hoje, 170 anos depois da sua morte, continua popular com divulgação contínua, pois a festividade foi a marca registrada das suas criações em pautas e compassos.
Johann Sebastian Bach, 1685 a 1750, herdeiro de uma linhagem de músicos, foi um dos mais talentosos compositores clássicos. Logo cedo em sua vida passou a viver de música. Compositor, arranjador, maestro e exímio instrumentista, deixou obras de relevo permanente no universo das notas musicais. “Jesus alegria dos Homens” seja certamente a sua ária mais popular, mais conhecida até mesmo por quem desconhecia música clássica. Meu velho pai assobiava esse modilho, sem mesmo saber de onde vinha o estribilho.
Antônio Vivaldi, 1687 a 1741, italiano da antiga Veneza, também rascunhou com letras de ouro, o livro dourado dos grandes compositores clássicos da Europa. As quatro estações, é indubitavelmente seu canto do cisne, seu legado de perenidade musical, para quem gosta de estar em comunhão com notas de alto nível, pulando nas linhas dos compassos musicais.
Mas, foi o austríaco Johann Baptist Strauss 1825 a 1899, quem trouxe a novidade nobelesca para os salões imperiais da Europa, fugindo da mesmice, do estereótipo dos compassos quaternários ou binários de tantos anos passados. Inovou o ritmo das pistas de danças de Viena com o ineditismo do compasso ternário e surgiam assim as valsas vienenses. Nada mais lindo de se ver, nada mais Excelsior para se dançar, nada mais nobre no bailar de pisos espelhados, em voleios harmoniosos nunca antes exibidos.
Outros compositores de música clássica mereciam citação histórica por justiça em merecimento. Escolhi os citados de forma aleatória, porque nominar a todos seria impossível. Todavia, anos depois dos séculos XVI até o século XIX, as coisas mudaram evidentemente na Seara musical, principalmente no lado ocidental do planeta. No século XX, com a certeza de o dia de amanhã virá, foi o Zênite bendito de toda criação humana, nos campos semeados do intelecto de homens e mulheres. Nunca se criou tanto, nunca se inventou tanto, nunca se descobriu tanto em toda a história da humanidade. E nesta centena de anos, de mudanças radicais em normas e costumes, a música foi a preferida prenda, da inovação evolutiva. No início do século XX, o “choro” um estilo musical genuinamente nacional, já recebia uma enxurrada de notas musicais com partituras sendo vendidas até como meio de sobrevivência, por compositores e maestros.
No início do século XX, a sonoridade musical eletronicamente já era uma realidade. A casa Édson no Rio de Janeiro, já gravava discos de vinil em 45 rotações. As sublimes notas musicais tinham encontrado finalmente o caminho de estar no canto da sala de todos aqueles que lhes devotavam afeição. Foi um processo demorado, mas nos anos 60, quase todas as moradias nacionais, tinham num ambiente qualquer sob o teto do château, uma radiola tocando os maravilhosos discos de vinil.
As notas musicais pela sua essência, pela natureza imaterial são eternas. O valor financeiro que estes símbolos movimentam por segundo, mundo afora é incapaz de mensurar. O valor sentimental que nos legaram desde a sua criação dispensa comentar a respeito. Tão infinito quanto os céus que nos envolve, tão cientes de paixão quanto o amor que me permeia, desde o dia em que vim neste mundo habitar.
Não se pode documentar uma autoria musical sem uma pauta, um compasso, uma clave de sol, dó ou fá, mais as notas musicais seguindo os caminhos da pauta que o autor fez por imaginar. E isto é gratuito como o ar que respiramos. Não há custo para o acesso desta trilogia singular. Guido de Arezzo foi sem nenhuma dúvida, um enviado dos deuses puxadores de fole daquele tempo. Acho que só o fole dos gaiteiros naquele tempo existia por lá.
Como tudo neste mundo é cíclico, as mudanças do uso comercial nos estilos musicais, naturalmente sofreram alterações. Não há espaço hoje, comercial e financeiramente falando, para a leira matizada das composições clássicas. Ouvidos mais sensíveis e apurados vivem de um passado distante do século XXI, saboreando na contemporaneidade, apresentações concertistas em salas ou salões de teatros culturais, de camarotes pontuados de elegância, bom gosto e sensibilidade. Aportamos, pois, gente de um populismo salutar, nas alegrias, no enlevo e saudades que a música de hoje, mesmo sendo popular, pode nos oferecer.
O pão, desde a última ceia de Cristo, simboliza o alimento do torso, da robustez de tu e de mim. Mas o alimento daquilo que transcende os limites dos meus pensamentos está em vicinais tão longevas quanto a vida humana.
Está na saudade de quem não pode tocar o corpo amado, quando de mãos estendidas está.
Está na ausência do rosto que gostaríamos de ver, está no cheiro grudado que o vento nos traz, sem mesmo a gente de onde saber, está no sabor da carícia jamais esquecida ou nos sons de uma canção de amor, que as notas dó, ré, mi, fá, sol, lá, si, ajudaram a parir pra quem viveu no passado, pra quem vive agora e para aqueles que hão de vir.
Por tudo, notinhas musicais, como é grande o meu amor por vocês.

Carlos Karoá, amante de música e cinema, também tem paixão pelo universo das letras. Em 1970, deixou Morro do Chapéu com destino a Salvador, como fazia todo jovem interiorano daquela época. Hoje aposentado, retorna à nossa cidade em busca de uma vida mais tranquila. Gosta de escrever crônicas e pequenos contos, sejam eles verdadeiros ou não.