Carlos Karoá escreve: ‘AS DROGAS’

Humphrey Bogart fuma compulsivamente em todas as sequências cinematográficas da aclamada fita, “Casablanca”. Ao seu lado, na coadjuvancia peso pesado, está a belíssima sueca Ingrid Bergman e para os ouvidos mais sensíveis, a eterna trilha sonora de autoria do compositor Herman Hupfeld, a maravilhosa canção “As time Goes by”.

Ator, atriz, trilha sonora, uma trilogia das mais significantes, neste universo de sonhos e devaneios sem fim. Inesquecíveis, eternos, inapagáveis até mesmo pelo tempo.

A indústria fumageira americana dispensou bilhões de dólares no patrocínio da também americana, indústria cinematográfica. Perceberam já no início da aceitação do cinema nos continentes do mundo, talvez anos 30, que não havia veículo melhor de divulgação do hábito de acender um cigarro e se sentir o senhor da terra. A troca era absolutamente justa: Você cinema, diz para os amantes da fumaça, que tragar é o seu passaporte para o sucesso e eu te pago milhões de dólares por isto. E esta parceria durou até os anos 90, quando os governos do planeta perceberam, que gastavam mais com o Internamento e recuperação da saúde dos seus cidadões, do que o montante do valor das moedas que caiam, no cofrinho da fumaça. Não valia a pena o consumo dos venenos embutidos, nas carteirinhas chamativas, de Astória, Continental, Hollywood, Minister, Cônsul e mais uma dezena delas que tanto mal faziam.

Comecei a botar fumaça pelo bico, logo após completar 14 anos, naturalmente igual a todo garoto daquela época, escondido dos pais. Meu velho adorado, o Sr. João Karoá, mantinha atrelado na cintura, um objeto sinuoso e dobradiço chamado currião, que ele usava para duas utilidades. A primeira era pra segurar as calças de brim que lhes mantinha o pudor, a vergonha propriamente dita e a segunda era pra lapiar as minhas pernas, quando eu caía na besteira de fazer alguma travessura. Fumar não era apenas uma travessura, era um acinte, uma ofensa imperdoável, uma ousadia das mais abjetas. Por isso, acender um continental sem filtro no meu tempo de menino, tinha que ser lá na rua, num lugar que eu tinha a certeza que ele nunca ia aparecer, jamais, de jeito nenhum. E assim foi até o dia, já depois dos 40 anos, que eu percebi que poderia ser um tolo, uma marionete a serviço da indústria dos viciados no pito, mas estúpido eu bem que poderia deixar de ser. Sem muito alarde, sem anúncio no jornal, apaguei de vez da minha vida,  o maldito continental sem filtro. Aleluia aleluia aleluia.

Difícil encontrar um fedelho da minha laia, nos tempos da minha adolescência, que não pitasse pra impressionar as garotas da sua turma. Um número menor de moçoilas moderninhas também pitava escondido, com medo do disse me disse da turma mais conservadora. Mas saudade daqueles tempos, isto eu sei que ficou na cabecinha saudosa de todo mundo.

O passo a passo do ciclo do fumo, desde a origem da planta até o cigarro pronto, eu tinha ideia de como acontecia. Na minha infância, conhecia o pé lá pé cá na produção do fumo de corda, para a fabricação dos terríveis cigarros. O vegetal quando atingia pouco mais de um metro, sofria a retirada do pendão superior, chamado de olho da planta, diminuía o crescimento vertical e contribuía para o crescimento lateral das folhas, tornando-as mais saudáveis e valiosas. Era o desolamento do fumo.

Quando as folhas eram retiradas do caule, seguiam para tanques de água, a fim de se tornarem mais maleáveis. Os talos centrais eram retirados no chamado “destalar o fumo” para em seguida serem trançados até se tornarem cordas.  Estes rolos de cordas eram enrolados em saris de madeira, descansavam por alguns dias e depois eram banhados em mel, feito de rapadura fervida. Após alguns dias de repouso, tornavam-se mais densos, consistentes, adquiriram quimicamente uma cor preta e a partir deste estágio, já se podia consumir como cigarros de palha. Nas fábricas, estes rolos eram tratados, escolhidos, classificados e assim se produzia o cigarro de maior, ou melhor, qualidade. Ironicamente, é claro e evidente. Na verdade, nenhum deles serve para alguma coisa, mas valores e preços, quem dita é o mercado de consumo.

A indústria dos cigarros em carteirinhas, não dava tréguas na captura de novos consumidores dos seus produtos. O cinema era a sua via de maior aliciamento da juventude, mas havia outros vetores de propaganda massiva. A TV tinha o seu lado bonito de enganação, com cowboys laçando potros em pradarias ou lindas paisagens campestres, também vaqueiros vencendo distâncias em rápidas camionetes customizadas, enquanto consumiam um Malboro com filtro, tipo americanizado. Um número significativo de revistas editadas no Brasil traziam páginas exclusivas de propaganda dirigidas ao consumo dos cigarros. Enfim, faziam o seu papel de comerciantes competentes, afinal, quem acendia um cigarrinho de palha, cachimbo ou um “minister” numa piteira dourada, fazia isto com suas próprias mãos.

Esta indústria de charme e beleza, que não botava mesa, perdurou em evidência crescente, por mais de um século. Hoje, com algumas delas funcionando, movimentam ainda grandes somas de vinténs, contudo nem de longe, chegam as arranhar os orçamentos do passado. O tempo agora é de drogas mais pesadas, mais perigosas, mais destrutivas. Mais vale um quilo de um pó branco azulado, que um quilo de ouro, que lastreia o sagrado tesouro nacional.

Brisa e tempestade têm a mesma natureza. A intensidade de ambas, porém, faz a diferença. É a mesma coisa que afirmar, que toda moeda tem duas faces. Um cigarro, uma cigarrilha, uma piteira de ouro em mãos de unhas pintadas, masculinas ou femininas, exibem charme, status ou poder financeiro e isto é o lado brisa da moeda. O lenitivo de alívio passageiro na absorção da nicotina, nas horas de angústia ou provável desespero, também é o lado brisa da moeda. Mas, a dependência do alcatrão, da nicotina, o odor acre e desagradável da queima do fumo, o hálito, os dentes amarelos, os pulmões intumescidos e outras cositas más, isto é o lado tempestade da moeda. O tempo dos cigarrinhos de palha é quase finito, o tempo dos cigarrinhos embrulhados em carteirinhas já não tem mais espaço em cinemas e TVs. Leis mais rígidas baniram de vez a influência negativa destes meios de comunicação, para este hábito nada salutar, Mas ele ainda não foi embora. Permeia lugares com gente de toda classe. Homens e mulheres ainda botam pelas ventas, uma fumacinha azulada, porque vício, fome e sede de alguma coisa, vão estar sempre de mãos dadas. Nunca se acabam.

A mente humana é um mistério dos mais insondáveis. A diversidade de pensamentos é tão imensurável quanto à própria natureza de todos nós. Pitar um cigarrinho, desde sempre, demanda alguns reais, uma chama de isqueiro ou fósforo, tempo desperdiçado e sugar para dentro de si, nocividade, desconforto e insalubridade. Usar drogas mais pesadas, desde sempre, aponta o nariz para a sarjeta, ou um poço social de águas invariavelmente turvas. Não existe bom senso neste mundo, ausente de humanidade. A incompreensão é senhora do leme e o destino é quase sempre, lamentavelmente, os batentes da morte.

Carlos Karoá, amante de música e cinema, também tem paixão pelo universo das letras. Em 1970, deixou Morro do Chapéu com destino a Salvador, como fazia todo jovem interiorano daquela época. Hoje aposentado, retorna à nossa cidade em busca de uma vida mais tranquila. Gosta de escrever crônicas e pequenos contos, sejam eles verdadeiros ou não.

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