Sugestão textual do amigo
Guilherme Vasconcelos.
Tradição é um bichinho de estimação, que habita o ego humano, com o pleno embasamento na incondicionalidade. Não existem limites impondo restrições. Quando é tradição, o coração é o senhor dos desejos.
Recebe carinhosamente a sua ração de vida, em um dia, uma semana, um mês ou um ano, no seu delicado vasilhame adornado, com o cristal da sensibilidade.
É tradição neste nosso lado do mapa do Brasil, celebrar as festas dos santos juninos:
Santo Antônio no dia 13 de junho
São João no dia 24 de junho
São Pedro no dia 29 de junho.
Curiosamente, existe mais um, o São Marçal de Limoges, também junino do dia 30 de mesmo mês, mas ainda, com o nome na página no finzinho do livro divino. Pouca gente conhece, porém já se acende uns gravetinhos por aí, em reverência respeitosa e fé, no seu dia de ascensão celeste.
Sua bagagem cristã é relevante, pois é cultuado pelas ideologias católica, ortodoxa e anglicana. Né pouca coisa não.
Estes homens santificados, movimentam um eleitorado festivo no início do frio nordestino, de arrepiar os economistas do sul. Nem mesmo o carnaval brasileiro, recheado de turistas do mundo inteiro, consegue ameaçar as cifras dos valores consumidos na celebração dos dias de nascimento ou morte, destes companheiros de caminhada arrebanhadora de almas, do nosso senhor Jesus Cristo.
O profeta Antônio, lisboeta de nascimento, chamado de casamenteiro, é considerado ainda um primo pobre da família. Abre os festejos no meado do mês, mas nem de longe é um arremedo de ameaça econômica, ao primo rico “São João”.
Milhares ou milhões de donzelas suspirosas, ainda na esperança de adornar o rosto com um véu brocadinho de filó, lhes acende fogueiras nos terreiros ou portas de casa, ou mais intimista se desejado for clarear o ambiente de uma alcova tristemente solitária, com velas perfumadas de verbena, se aquela noite de encabulamento passageiro, lhes vier finalmente, beijar seus recônditos sensualmente desejados. Caso contrário, adeus Coló, vai ter que reclamar com o apóstolo pessoalmente, quando chegar sua hora e for em visita eterna para o céu. Isto se lá chegar. Diz o dito popular, quem sabe é Deus.
O Israelense João Batista, nascido nas cercanias de Jerusalém, é a estrela maior do quarteto santificado.
Arregimenta todo o nordeste brasileiro, como uma febre obrigatória de se cultuar a tradição, de se acender fogueiras na data do seu nascimento. O furdunço vai da porta da rua até o final do quintal da casa. Em seu nome, milhões de automóveis cruzam vias devidamente pavimentadas, ou vicinais carentes de cuidados dos gabinetes municipais.
Aviões, ônibus em linhas alternativas, até os caminhos do mar, se encrespam em ondas carregadinhas de gente, na busca dos animados folguedos nas noites frias de junho. No seu “debut” São João dá um banho de alegria generalizada, até mesmo pra quem perdeu a namorada, no forró na casa do “Zé” ou da casa da mulher dele, a forrozeira dona “Zefinha”.
Nós, costumeiramente chamados pelos paulistas, moradores da sua capital, de nortistas, imaginamos que a celebração do nascimento do profeta João Batista, é uma primazia do Nordeste. Mas não é verdade. No Rio grande do Sul, também seus habitantes, arregaçam as mangas para festejar o natal do homem santo. Naturalmente, com diferenças acentuadas, visto que há distinção em quase tudo: Relevo geográfico, gastronomia, costumes e também o instrumental registra díspares de sonoridade com inclusão ou exclusão de apetrechos de som, na hora de se bater a zabumba. Mas, a animação é a mesma.
Os outros estados, ditos sulistas, ignoram completamente a festa, talvez por serem colonizados por imigrantes de outras partes da Europa e Ásia, uma vez que a festa das fogueiras, foi uma herança direta, do povo português.
Só para registrar, Santa Catarina fica emudecida nesta noite de junho, mas se aquece numa tradição iniciada em 1984, na zueira coletiva e barulhenta da “Oktoberfest”, orgia em goles colossais de cerveja e chopp, que se derrama pelas ruas de Blumenau.
É realizada anualmente com a benção igualitária da original, criada em Munique na Alemanha.
Respeitar tradições, é um princípio básico de quem tem educação.
Assim já dizia, o velho Zaratustra Nietzsche.
Um outro israelense, apóstolo doutrinador da cartilha cristã, tem também a sua noite de fogaréu no circuito junino. É o nosso bom e querido velho Pedro. Dono de uma mandala de títulos, de fazer inveja aos coronéis do sertão. Sua primeira comenda é a de senhor absoluto das chaves do céu. Só se adentra ao paraíso com a sua permissão. Conhecido também como controlador das chuvas nos sertões, é a ele dedicados os pedidos de molhar a plantação quando o verde da esperança demora a se espalhar nos roçados do peão. A terceira honraria é a de padroeiro dos pescadores, pois na sua labuta do dia a dia, era debulhador de escamas dos pescados, caídos nas redes do mar da Galileia. Hoje, séculos seculoreum depois, ostenta a obrigação social de padroeiro das viúvas, vez que, quando deixou este mundo, estava também, dormindo sem a sua consorte. Reza nos papiros de “Vendhia” que era viúvo quando subiu aos céus. Por esta razão, toda fogueirinha que vocês perceberem crepitando nas noites de 28 de junho, é de uma viuvinha saudosa, lhes rendendo homenagem.
As prefeituras nordestinas, bisparam que as festas juninas, pela devoção ou vontade de beber quentão, que campeia nas cabeças dos gentios, representam um ótimo filão de exploração econômica. O lastro multifacetado daquilo que é típico dos festejos, é grandioso e auxilia na criação daquilo que vai gerar dividendos.
Os balões de ar quente, encantam pela magia do voo noturno.
As camisas quadriculadas são bonitinhas de se ver e vestir.
As quadrilhas antes adormecidas, agora estão bem produzidas, coreografadas com vistas de profissionalismo, mostrando um espetáculo de deixar os olhos brilhando de admiração.
Nos quesitos alimentação e bebidas, a diversidade é tão relevante, que fica até cansativo nominar, o que já se tem guardadinho no juízo.
A pirotecnia, é um facho luminescente, recreativo e de quase nenhuma responsabilidade civil. Nas mãos infantis, bombinhas, traques, chuvinhas e cobrinhas pra deixar a garotada riscando os céus.
Nas mãos adultas, o que importa é o resultado visual. Quem estiver a postos pra ver o espocar de espadas, que se cuide pra não queimar os dedos. Sem responsabilidade, mas em nome da tradição, tudo faz valer o risco.
Tal qual o carnaval, não vai demorar pra aparecer o bloco nas esferas governamentais:
Para o ano sai melhor!

Carlos Karoá, amante de música e cinema, também tem paixão pelo universo das letras. Em 1970, deixou Morro do Chapéu com destino a Salvador, como fazia todo jovem interiorano daquela época. Hoje aposentado, retorna à nossa cidade em busca de uma vida mais tranquila. Gosta de escrever crônicas e pequenos contos, sejam eles verdadeiros ou não.