Num iluminado dia de outono, 23 de setembro de 1930, na cidade de Albany no estado da Geórgia, sul dos Estados Unidos, Ray Charles Robinson, botava a cara na tela. Não na tela do cinema evidentemente, pois a forma metafórica da sentença é ilusória, mas sim, na tela da vida, onde ele iria ser um astro reluzente onde quer que estivesse e mostrasse o quanto sua voz seria capaz de emocionar, enternecer e fazer sonhar. Ray Charles Robinson foi um garoto normal até aos sete anos de idade, quando uma mazela das mais cruéis, lhes roubou a capacidade de ver a luz do sol, dádiva divina mais preciosa da vida humana. Faleceu aos 74 anos vividos, sem descobrir a origem de tamanha desdita. A voz marcante deste pianista autodidata em teclado clássico, me chegou no início dos anos 60, em Barra do Mendes, talvez com 10 ou 11 anos na cacunda, através das ondas elétricas, mecânicas e depois sonoras de um serviço “mambembe” de Alto-falantes, criado sob os auspícios municipais de utilidade pública. Chamo ” mambembe” porque não havia rastro de profissionalismo, não havia rigidez de horário de funcionamento, sem patrocinadores, sem qualidade técnica, apenas o uso de uma tecnologia primária, num emissário também primário em diversão.
Quando as luzes dos postes se acendiam e começavam a espantar o lusco-fusco do cair da tarde, era a hora do “ângelus”, e os sons da “Ave Maria” da dupla Charles Gaunod e Johann Sebastian Bach, enchiam de devotada contrição, as ruas da nossa provinciana cidadezinha.
O estúdio, se é que a gente pode chamar de estúdio, aquele espaço Pequetito de coordenação musical, ficava na atual rua Maria da Glória, perto da casa de seu Zuza, vizinho da residência do saudoso Rui Pacheco. Quem segurava o leme da programação era o meu querido amigo e colega escolar, Ezequias Sodré, filho do líder político Sr. Antônio de Odílio, dono da residência onde os deputados e senadores da época, iam dormitar quando por lá apareciam.
O acervo dos discos de vinil, para a alimentação da programação, era ultra, hiper, mega pobremente reduzido. Um LP do cantor Silvinho com a canção “Amor fingido” que não podia deixar de tocar, um disco do pernambucano Orlando Dias, sucesso absoluto no coração dos apaixonados, um LP sem graça do conjunto de bailes Paul Mauriat e sua orquestra que ninguém queria ouvir, um compacto simples da dupla Cascatinha e Inhana, tendo de um lado a canção paraguaia “Índia” e no reverso a maravilhosa “Meu primeiro amor” e a estrela maior do “Cast” fonográfico: Um compacto simples do cantor americano Ray Charles, com o inesquecível e memorável hino ao amor, “l can’t stop loving you”.
“Não posso parar de amar você.
Eu já me decidi, a viver da memória, nos momentos de solidão”.
Foi com estes versos de pura magia, com esta sagração ao canto dos apaixonados, que a voz do velho mestre criador do “Soul Music, chegou até mim, garoto ainda, mas já antenado com as coisas e os prazeres que a música poderia trazer pra minha vida. A título de informação, o gênero musical “Soul Music” é um estilo que combina o modo clássico do “Jazz,” o ritmo dançante do “gospel” e a beleza tristonha do “Blues”.
O velho Ray Charles, como artista, passou dos limites, se tornou eterno. A minha. Mágoa do meu colega Ezequias, é que ele, apesar de me ver por lá quase todas as noites, não me deixava “malinar” nas coisas.
Já morando nas terras frias de Morro do Chapéu, em 1967, lembro do ano, mas não me lembro dos meses, um outro serviço de uso gratuito de alto-falantes apareceu na Sociedade Filarmônica Minerva, no Taboado superior do teatro Odilon Gomes, cujos ditames fonográficos, eram capitaneados pelo meu amigo José Garcia de Mattos. Também copiava a hora do “Angelos” tocando a obra sagrada de Charles Gaunod, depois, debulhava um trelelê sem muito entusiasmo, anunciando a próxima atração sonora. Sem patrocínio, sem obrigações ou deveres profissionais, apenas se perdia tempo fazendo uma coisa que de alguma forma, despertava vaidades. Eu, piolho musical, sempre estava na coxia esperando a chance de falar alguma coisa no microfone. Vez ou outra, ele pedia pra eu guiar o barco, enquanto ia em casa tomar um café com pão e batatas. Nestes momentos, a nave era minha e adorava o posto de “Disc Jóquei tampão, mandando pros ares, as canções que bem quisesse. O “hit” Só vou gostar de quem gosta de mim do velho Roberto e a versão do sucesso inglês ” Break Away-From That boy” feita por Rossini Pinto, na voz de Vanderléa, com o título de “Meu Desencanto”, eram as minhas preferidas. Ambas estavam no LP As 14 Mais, volume XlX e eu adorava aquilo tudo, empostando a voz, anunciando a próxima atração naquele universo tão diminuto de cantores, pois não havia no acervo, mais que três ou quatro discos de vinil. Bons tempos, sinto saudades do meu amigo Zé Garcia, levando um pouco de alegria, pra gente calorosa das terras frias.
Os serviços públicos de Alto-falantes, foram instrumentos de informações presentes em quase todas as cidades pequetitas do interior do estado da Bahia. De baixo custo operacional, pois bastava apenas um amplificador elétrico, um microfone, uma fiação conectada até a boca do alto-falante, empoleirado em um poste ou qualquer um outro lugar de uma praça e já se podia fazer funcionar este mensageiro de alegrias. O uso deste conjunto sonoro, era comum, sob os auspícios de quaisquer interesses, desde servir de emissário de propaganda política, levar conhecimento ou informações de utilidade pública ou a diversão pura e simples, tipo oferendar uma música pra pessoa amada, no comecinho do namoro. Hoje, já não mostra tanta importância, vez que agora as informações viajam na velocidade da luz, via satélite, na rede internacional da INTERNET. Pode-se mandar mensagens amorosas via Zap, Instagram ou Facebook, mas no tempo dos Alto-falantes, a coisa era mais ou menos assim:
Atenção você que está de blusa amarela, saia azul da cor do céu, ouça esta música que alguém que muito lhe ama, oferece como prova de amor e carinho. Ouviremos na voz de Adilson Ramos, o bolero “Sonhar contigo”
Sonhar contigo, por toda a vida,
Sonhar contigo
Meu amor
Minha querida…e por aí vai.

Carlos Karoá, amante de música e cinema, também tem paixão pelo universo das letras. Em 1970, deixou Morro do Chapéu com destino a Salvador, como fazia todo jovem interiorano daquela época. Hoje aposentado, retorna à nossa cidade em busca de uma vida mais tranquila. Gosta de escrever crônicas e pequenos contos, sejam eles verdadeiros ou não.